quinta-feira, 23 de junho de 2016

Manhã Cinzenta


Ela era só uma mulher inconstante. Mas para alguns era loucura. Ana Cláudia gostava de apanhar da vida. Pelo sim, pelo não, o gostar virou vício e quando menos esperava lá estava ela raptada por Hades, percorrendo o labirinto sombrio da própria existência. Alguns diziam que era coisa da pomba-gira que emergia nebulosa: deveria fazer despacho para sossegar; outros falavam que era genética: a mãe, hoje com Alzheimer, passou a metade da vida internada em clínicas psiquiátricas com depressão psicótica - nunca suportou a pressão do ser e a doença veio como solução para que não se ocupasse mais de si. Ana Cláudia continuou. Carregava no olhar o mistério de quem conhecia as entrelinhas do viver, sem, contudo, saber pontuar as frases que construía de sua persona. Ana Cláudia. Era só uma mulher insolúvel. Morreu hoje de manhã, atirando-se contra um ônibus, no meio da avenida.

* imagem: Crouching Woman with Green Kerchief, Egon Schiele, 1914. 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Assim

A minha vó era assim:
Magrinha
Miúda
Agitada.
Só falar em passear
Dar uma voltinha
Lá estava ela ao portão:
Vam' bora menina, se não a gente num chega!
Ela era assim:
Brinco de pressão
Pó de arroz
Cabelos ralos, pintados.
Ninguém sabia a idade que carregava.
Escondia. Não fazia questão.
Era assim.
Queria a carta de motorista a todo custo.
Compraria um fusquinha com o dinheiro da poupança.
O oculista. A catarata.
Não deu.
A minha vó foi embora
Assim apressada
Bolsa a tiracolo
Assim
Sem fusca, sem nada.

*imagem: Tree Paintings, Kandinsky

domingo, 5 de junho de 2016

Redemoinho

O diabo solto no meio do redemoinho. Está uma reviravolta no meio da estrada. É pó, é terra, é o estilhaço do vidro do carro. Porque o diabo está nas entrelinhas. Eu me encontrei com ele quando voltava da casa da Dona Quitéria. Eu vinha dirigindo e vi esse homem parado, com chapéu, olhando-me com o olho do cão. Não deu tempo de frear. E agora meu carro está fraturado.
Meu carro é minha morada. Tem cobertor e até televisão. Decidi seguir pelo mundo quando morri por dentro. A travessia é um abismo: diazepam, bromazepam, clonazepam, aripiprazol, topiramato, cloridato de bupropiona e oxalato de escitalopram - todos no compartimento do automóvel para serem tomados com precisão. Cada hora, cada segundo, no ponteiro do relógio. Mas agora estou no meio fio recolhendo os comprimidos.
Preciso abandonar o carro. Hades me raptou para o mundo dos mortos com a promessa de eu virar rainha. Só que onde há partida há dor. Onde há imposição há negação. Não consigo surgir. Tiraram minha visão. Anestesiaram minha percepção. Esconderam os frascos de perfume.

*Imagem de Vitor Mizael