sábado, 17 de setembro de 2016

Aforismo II



Sem saber o que fazer com a agulha fincada no peito ela resolveu costurar o coração com pequenos retalhos de seda. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Antônio e Diana


Nunca gostou do pai. Mas é indelicado dizê-lo visto que mora com ele há exatos quarenta anos. Antônio é o filho mais velho, o que restou na casa cujas paredes carcomidas denunciam o passar do tempo. As manchas estão também na sua alma. A mãe morreu quando a caçula nasceu e ficaram os três: pai, ele e Diana. A irmã vive no exterior desde muito jovem e raramente manda notícias. Foi pai quem a mandou pra longe para calar o amor que começava a gritar entre os dois irmãos. Diana e Antônio se apaixonaram ainda crianças. A ausência do pai, sempre metido em botecos, foi refúgio e consolo compartilhado em abraços e carícias pueris. Na adolescência seus pares românticos eram meras reproduções um do outro: nos gestos, na cor dos olhos, na forma dos cabelos, no tom da voz. Antônio chegou a namorar uma menina chamada Diana só para poder pronunciar seu nome sem sentir culpa. Mas as comportas da represa se abriram e tudo foi inundado. As árvores tombaram com suas raízes entrelaçadas. A borboleta foi arrastada pelo vendaval e o pássaro se descobriu sem asas no meio do voo. Afogou-se. Pai virou seu maior inimigo: mandou Diana pra longe. Antônio nunca mais achou seu lugar no mundo. Trocou o trabalho de continuo na firma pelo vício, tal como o pai, não saia dos botecos e vivia caído pelas eiras e beiras a chorar pela irmã. Sem emprego, sem amigos, sem mãe e só com a memória de um amor, Antônio se atirou do viaduto Santa Ifigênia. Tinha quarenta anos e nunca gostou do pai.

*Imagem: O abraço, Egon Schiele, 1917.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Aforismo I


Macabéa tomava aspirina para aliviar a dor que lhe vinha da alma. Riobaldo dizia que o Sertão está em todo lugar e se Deus quiser vir que venha armado. A vida é, de fato, um contínuo desassossego.

*Imagem: Separation, Edvard Munch, 1900.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Interlúdio

Eram três horas da manhã de uma quinta-feira abrupta quando senti o mundo.
Madrugada esquelética. Estéril. Todavia,
o mundo brotou-se em mim.

*Imagem: La persistencia de la memoria, Salvador Dalí, 1931.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Quando do amor


Ela foi pega pela desmarginação no meio da rua. Ao seu redor, objetos e pessoas perdiam as margens e tudo se fundia numa matéria crua. Os sons ficavam mais nítidos e dava a impressão de ver o mundo correr em câmera lenta. A desmarginação, como ela denomina o fenômeno, vem-lhe quando menos espera. Em geral, quando está obcecada com o amor não correspondido por Júlio. Toma a forma de desespero engarrafado que ela engole em conta gotas. Uma árvore que tomba seca, retorcida. A borboleta que é arrastada pelo vento. O pássaro que se descobre sem asas no meio do voo. A desmarginação a tomou pelo braço e a conduziu por lugares quiméricos. 
Quando a encontrei estava nua, no ângulo do muro pichado. Havia tirado a roupa pelo calor excessivo e seu olhar era de bronze. A chuva azul de uma manhã de primavera clareava as formas ignotas de seu corpo frágil que se fundiam à matéria bruta do viver. Júlio não a ama e ela padece. Invisível, insolúvel, cindida. A sua dor peregrina busca alguma forma que torne plausível a própria existência.   

*Imagem: Crying Woman, Pablo Picasso, 1937.

domingo, 17 de julho de 2016

O homem de sessenta e cinco anos


Ele trabalhava na feira com o pai. A barraca era de queijos e embutidos. Um dia, enquanto embalava o requeijão no jornal, ele leu a manchete: Fuvest - curso de cinema. Não teve dúvidas: separou a matéria e prestou o vestibular. Passou e veio para São Paulo. Só tinha dezoito anos. Na mala trouxe a pequena vida que levava em Fernandópolis e com ela permaneceu. Na cidade grande, nunca fez amigos, tinha dificuldades com a vista para o concreto, perdeu um amor para o jogo e começou a beber, até ser encontrado caído na Catedral da Sé. Depois de um tempo, passou no concurso público e se dedicou à burocracia estatal até se aposentar. Durante todos esses anos, a viola caipira era quem lhe fazia companhia e cada vez que a tocava chorava. Era saudade do pai, que tanto lhe havia batido com fio de ferro. Era saudade da mãe, que se divorciou do pai para se casar com Jesus Cristo. Era saudade do córrego que marcou a sua infância e nunca mais o visitou. Desde quando partiu jamais retornou à cidade natal. Ex-futuro cineasta, ex-feirante, ex-menino. Ele era um senhor solitário que sentia culpa pela própria existência. Achava que era feliz e por isso chorava tocando viola. Ligou o gás e morreu junto a ela no último sábado. Chovia.

*Imagem: Hand II, Egon Schiele, 1912.