sábado, 2 de novembro de 2013

Asas de Pescador

"Spring", René Margritte

Seu Antonio é um cabra da peste. Homem mais teimoso que ele não tem não senhor. Lavrador aposentado da Piritiba, interior da Bahia, acabou por aceitar o convite da filha somente depois que a mulher faleceu. Vendeu a terra, a casa pequena, e se mudou para junto dela e do neto, em São Sebastião, cidade do litoral paulista. Sofia é separada do marido e trabalha como atendente em um posto de saúde no município de Boiçucanga. É a filha caçula, a mais próxima de Antonio; os outros, todos homens, vivem espalhados pelo mundo.
         
Seu Antonio acorda cedo, cinco e meia da manhã. Não perde o hábito de ouvir rádio. Logo de manhã reza em jejum o Ofício de Nossa Senhora, reza forte e comprida que assombra o demo, espanta guerra, inimigo e doença, e chama paz na família. Depois toma seu cafezinho preto, pita um cigarro de palha sentado na porta da cozinha, olhando o quintal, espiando o céu. Depois bebe meia xícara de leite com beju e come com gosto um pedaço de cuscuz com manteiga de garrafa. Arremata com outro gole de café, preto, pretinho.
«Pronto, to comido», e respira, aliviado.

Então se senta num canto da sala e liga o rádio para ouvir seus programas preferidos: “notícias do Brasil e do Mundo”, na Rádio Panamine, 650 quilohertz; depois escuta os casos de acontecimento que o povo escreve para a rádio Tupinambá, no Programa “Estou escutando”. Fica sempre impressionado com uma ou outra tristeza, um caso de abandono, outro de assombração, de morte anunciada ou de morte matada ou morrida, e depois muda para a Rádio Bem Fica, e escuta as modas de viola.

Lá pelas oito horas coloca seu chapéu e sai a pé andando um tanto, cumprimenta Fulano, Cicrano ou Beltrano que encontra pelo caminho. A cada um fez um gesto com o chapéu, gesto de respeito, educação e cortesia. E segue seu tanto. Quando chega lá na arribada do Mané, corta o caminho por uma picada e entra para a curva da viúva. Passa pela estrada do maquininha, pela padaria da ponte, chega na praça. Na frente da quitanda de Dona Ana, Seu Praxedes lava a calçada: «Bom dia, Seu Antonio. Como vai o povo lá?». «Na paz de Deus!» «Ah, bom, nos conformes. Hoje chove. Acordei com o pio da coruja: é chuva, chuva, chuva ». «Tomara, pra espantar as moscaiada», conclui.

 Seu Antonio segue em frente, entra pelo lado do bar do Toninho e ruma para a praia. Logo avista os barcos dos pescadores no mar, dirigindo-se de volta. As popas de diversas cores: azul, vermelho, amarelo. No céu, as gaivotas acompanham os barcos, parecendo um bando de batedores indicando o caminho. Os peixes são descarregados em carretinhas para serem transportados para o mercado.  Algumas donas-de-casa, cujas mãos enrugadas são o testemunho dos anos dedicados à família, aguardam à beira-mar e se aproximam para escolher: «Quero esta garoupa». «Seu Zé faz a bicuda por 15?». «Oh pescada, boa».
Negociam as mulheres e os pescadores na beira da praia sob olhos irônicos de Seu Antonio. O velho não dá nada por esses peixes, ainda se fosse peixe de rio. Bagre, Mandi. Ele gosta mesmo é de carne, carne de sol, dita na cidade como carne do sertão, vermelhinha, salgada. Come com farinha. Seu pai já dizia: Deus amarrou a vaca no pé de mandioca, é de carne e farinha que o homem precisa.

Acabada a negociação, as mulheres vão embora com seus peixes, os pescadores com o seu tanto para vender no mercado. Seu Antonio fica só naquele pedaço de mundo que Deus fez para ele pensar. E fica olhando o céu azul. Depois o mar, admirando as ondas que fazem aquele rendado branco de espuma. Por fim as gaivotas, que vêm e vão, gritando um som que parece mais gargalhada. As gaivotas são aves debochadas, riem o tempo todo da cara da gente.

Quando menino, na Piritiba, Seu Antonio via os urubus e ia contando, como suas irmãs: rei, capitão, soldado, ladrão, moça bonita do meu coração, casa, não casa, casa, não casa, casa. Olhava também os anus. E contava. Agora que mora no litoral, nunca mais viu anu. Anu não é bicho de cidade. Então passou a gostar das gaivotas. O coração às vezes faz isso com a gente, substitui os afetos por razão de sobrevivência. E olhando as gaivotas, esse sertanejo tem certeza de que elas conversam: “Fulano, já vai? Não, não vou. Vai quando? Agorinha, agorinha. Mas quando? Espere um pouco”. E riem. Debochadas. Mas não tem sorriso que cole uma fratura doída. Seu Antonio tem mesmo é saudade do filho do meio. Santino.

“Pai, mando um postal da Sicília para o senhor ver como é aqui. Espero que goste”. “Está vendo esse porto? É Messina. O estreito de Messina que liga a ilha ao continente. Daqui de casa escutamos a sirene das balsas”. “A Itália parece uma bota, dá pra ver o taco?”. Santino trabalha num restaurante em Messina, sul da Itália. Quando trabalhava como garçom no Rio de Janeiro conheceu uma siciliana. Casaram-se. Nunca mais voltou ao Brasil. Nem mesmo pro velório da mãe. “É muito trabalho pai, não posso deixar a Stefania sozinha. Não tenho tempo nem de ir ao médico”. Mas sempre que pode manda presente. Chega carta, chega fotografia. “Pai, essa foto é do batizado de Gloria, que nasceu com 3 quilos. Dos meninos, o mais alto é Pasquale e o gordinho é Genaro. O senhor que vir para a Sicília? Assim... de férias. Eu pago a passagem pro senhor... passava aqui uns dias, descansava, andava na beira da praia, ia ver que o mar não é igual em todo lugar. O daqui é azul, azul, azul já o de Salvador é verde”.

Seu Antonio, Seu Antonio. Oh homem teimoso, meu Deus. Não tem jeito, o medo do avião grudou forte o homem na cadeira de pau e a filha, retirando os pratos da mesa após o jantar, faz uma última tentativa: «Quem dera eu ir para a Itália, quem dera». E o velho rebate: «E se o avião cai? Se eu passar mal, morrer lá nos estrangeiro? Vão rezar umas rezas que eu não entendo, naquela língua deles. A minha alma vai penar porque a reza não vai ter serventia...». «A reza é uma só pai, o japonês não reza igual a gente só que lá na língua dele? Não tem o mesmo valor?». «Eu não conheço outra língua não, só a minha mesma. Se eu morrer quero uma reza no Pai Nosso, na Virgem Maria, uma boa missa, na nossa boa língua. Não vou não. Não carece, os meninos já conheço de fotografia, não carece conferir...». «Pai, lá é uma ilha». «Pior ainda, aí é que eu não vou mesmo».

Não houve jeito. Seu Antonio enterrou o assunto, nem triscou mais nele.  E ainda ficou bravo porque a filha não respeita o seu jeito de ser. Todo mundo sabe que Seu Antonio é homem pacato, esposado com o silêncio, nunca saíra dali dos arredores da Piritiba não, somente para vir para São Sebastião quando a mulher morreu, mais nada. Não conhece lugar nenhum, e nem faz questão. Não é cigano.

Até que um dia, sentado na praia com o amigo Praxedes, Seu Antonio olha o mundo e pita o cigarrinho de palha. «Onde é que essas bichinhas põem os ovos? Deve ser bem longe, num lugar de pedra, num oco, pra ninguém pegar... » Seu Praxedes observando a admiração de Seu Antonio pelas gaivotas, assiste como ele acompanha o vôo delas, às vezes mexendo com a cabeça, inclinando, o vôo inclinado, conforme. «Sabe, Antonio, diz que gaivota é pescador que já morreu. Não acredito não ». «Como assim?»  «É pois. Isso é do tempo do meu pai, parece que é coisa lá da Itália, duma ilha chamada Sicília. Dizem que quando os pescadores morrem, eles não se afastam do mar. O espírito deles continua na forma de gaivotas e fica para sempre perto dos barcos. É por isso que elas pescam, ficam no mar, cada qual segue o seu barco, coisa de pescador. Parece que indicam caminhos, cardumes, perigos. Quando não há gaivotas no mar é porque pode dar tempestade. Maus agouros. Eu não acreditei patavina. Não acredito em espírito». «Ai é? Pescador que já morreu? Pode de ser mesmo... É pescador lá da Sicília?» «Sei não. Isso falava lá na Itália. Meu pai que me contava. Diz que. Não acredito não».

Mas Seu Antonio que é homem forte e cristão, em histórias do além e causos ligados à tradição confia até de olhos fechados. Desde aquele dia começou a observar com silêncio religioso as gaivotas à beira-mar. «Então elas se chamam José, João, Pedro, Lucas e Maria?»... conclui, enquanto acompanha com o olhar algumas que plainam sobre os barcos logo de manhã cedinho, protegendo cada pescador em seu  retorno à terra firme. 

Todo dia o sertanejo acorda cedo, reza em jejum o Ofício de Nossa Senhora, toma seu cafezinho preto, pita um cigarro de palha sentado à porta da cozinha. Depois bebe meia xícara de leite com beju, e come com gosto um pedaço de cuscuz com manteiga de garrafa. Em seguida ouve no rádio as “notícias do Brasil e do Mundo”, na Rádio Panamine, 650 quilohertz; os casos de acontecimento que o povo escreve para a rádio Tupinambá, e as modas de viola na Rádio Bem Fica. Depois põe o chapéu e caminha caminha caminha... e vai sentar lá na beira da praia para ver a chegada das embarcações.

Uma gaivota está em busca de amizade e pousa ao lado de Seu Antonio, bem na ponta do banco de madeira. Lá adiante as donas-de-casa estão negociando os peixes nas carretinhas dos pescadores, e no outro lado do mundo o sol já foi dormir. Seu Antonio observa as ondas que fazem rendas no mar e observa igualmente a gaivota ao lado que agora é sua amiga. «Teu nome de agora em diante será Giovanna». Ecco perché: desde que ouviu a história de Seu Praxedes algo de novo aconteceu no nosso sertanejo. O ser se sentiu tocado, afagado, ser habitado. Se espírito ou não, pouco importa, as gaivotas também são gente, e lhe trazem saudades do filho Santino. Elas lhe trazem também aquela vontade danada de conhecer a Sicília de perto. «Seria bom mesmo ir lá pra Itália e pedir a benção pro Papa»...

Mas não tem jeito não. Seu Antonio é cabra macho. É homem teimoso, pacato. Não conhece lugar nenhum, e nem faz questão. «Não sou cigano mesmo», insiste. E então, acabada a negociação à beira da praia, as mulheres vão embora com seus peixes e os pescadores com o seu tanto para vender no mercado. Não são ainda nem nove horas da manhã. Seu Antonio fica só, naquele pedaço de mundo que Deus fez para ele ajuizar. Só não, fica ali com as gaivotas. Olha o céu azul. «E depois, vai que este avião cai de verdade? Se eu morrer quero uma reza no Pai Nosso, na Virgem Maria, uma boa missa, na nossa boa língua. Pra Itália? Fazer o que lá? Não vou não. Não carece... » E assim o  ilustre sertanejo se convence mais uma vez.



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Espelho d'água


Ao sol é atribuída a luz vital
Sob a égide da ordem e da sobrevivência dos corpos.
Até que o eclipse o transfigura em sombra semi ativa, impedindo-o de gerar vida.
Ilumina esrcarsamente aquilo que o cinge.
Não é a vida que é escarsa, diz o Sol.
Quase insípido, ainda luzente.
O pássaro caindo do ninho,
se estricha, sumpica, se arrambica.
Agarra-se ao galho cedido, pendente,
para sobreviver.
São nas pequenas coisas que a sobrevivência ainda é mistério.
A vida e a morte se coabitam e se auto consomem.

* ilustração: "Madonna" de Munch

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Chiaro di Luna (Luar)

La luna scandalosa. Scandaloso silenzio.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

terça-feira, 8 de março de 2011

sem assinatura, na metade do caminho

Na oponente metrópole o carnaval cinza ainda desfiava sob névoa e arranha-céus quando ela decidiu indagar o mundo.

Casada, aposentada, mãe de cinco filhos: todos doutores. Mulher estabelecida no compartimento das médias totais: meio velha, meio fraca,meio vulnerável, classe média.

Pela primeira vez, em sessenta e oito anos, o seu aniversário se sobrepôs ao carnaval, à data da mais prestigiada festividade pagã nacional. Não teve trégua: o coração debandou. Sem fantasia para desfilar, deixou um bilhete embaixo da porta da minha casa:<< sempre quis saber o que é que as pessoas fazem no sábado à noite>>...

Mulher meio habitada, meio peregrina, que nunca soube deduzir a própria solidão.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Minha declaração de amor a Roma


(Família de bicicleta. Anahí Borges, 09.02.2008)


(Inverno colorido. Anahí Borges, 10.02.2008)


(A sedutora. Anahí Borges, 09.02.2008)


(Fahrenheit 451. Anahí Borges, 06.02.2008)


(Serenata contemporânea. Anahí Borges, 05.02.2008


(Senhores no Parco Appia Antica. Anahí Borges, 08.02.2008)


(O ditador. Anahí Borges, 09.02.2008)


(Stazione metro Cipro. Anahí Borges, 04.02.2008)


(Mulheres mortas. Anahí Borges, 10.02.2008)


(Azul. Anahí Borges, 07.02.2008)


(Do Circo Massimo. Anahí Borges, 06.02.2008)


(Final de filme. Anahí Borges, 10.02.2008)

PS - Para ver mais fotos clicar: 12 fotos para um pseudo-calendário romano)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

bandido anos dois mil


"O terceiro mundo vai explodir. Quem tiver de sapato não sobra!", foi o grito que Rogério Sganzerla colocou na boca do seu personagem nano com charuto no filme O Bandido da Luz Vermelha. Inesquecível e profético: “A solução pro Brasil é o extermínio total, eu sou poeta, eu vejo, o terceiro mundo vai explodir, vai explodir!”.

Quarenta anos se passaram e o grito aflito do Brasil ainda é possante. O berro da miséria aflita ecoa no terceiro mundo: América Latina, Ásia, África, Oriente Médio, Europa do Leste... Mas por questões históricas o rugido do nano de Sganzerla se estende hoje sobre outros territórios, ultrapassando as fronteiras do subdesenvolvimento. A cada barca clandestina naufragada nas costas do primeiro mundo com dezenas de desesperados utópicos eu escuto o grito de Sganzerla. A cada imigrado humilhado e massacrado, aglomerados de homens-ratos nos bueiros internacionais, eu escuto o grito de Sganzerla. Dezenas de seres humanos que atravessam desertos e ultrapassam barreiras em busca do sonho americano. O urro desafinado da humanidade capitalizada outorga a governos neonazistas a solução para a luta de classes contemporânea. Prezado Sganzerla, ironicamente o seu grito assume hoje outra direção, que, na verdade, não é outra, mas a contra-mão da primeira: o primeiro mundo vai explodir! É isso que penso cada vez que caminho pelas ruas...


texto originalmente publicado neste blog em 13 de novembro de 2008

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Guimarães Rosa tinha razão


"Vaca no pasto é cachorro mastigando chiclete". Anahí Borges. Julho, 2008.

Vínhamos pelo Caminho de Santiago, deixando para trás o pequeno vilarejo rural, todo feito de pedras. A terra batida respondia ao excesso de sol levantando uma poeira densa feito farinha de rosca. Caminhávamos silenciosos quando encontramos a dita cuja. Uma senhora vaca, assim preta, assim grande, que espiava curiosa por entre as fendas do curral os peregrinos que passavam por ali. Os bezerros já estavam grandes o suficiente para estarem no canto por conta própria, a vaca queria mesmo é se socializar, mexer com aqueles que passavam ali a sua frente. Pecado que caminhavam apressados, não lhe davam atenção... os peregrinos do século vinte e um já são geneticamente motorizados. Nós paramos, e ali me lembrei de Guimarães Rosa.

Enquanto eu acariciava a cabeça da vaca percebi que ela parecia um cachorro... os cachorros que são assim, mexem a cabeça de um lado para o outro, para a frente, para trás, como se dissessem “Mais para cá”, “Agora mais para aqui”, “Isso, aí!”, orientando o trajeto das nossas mãos no gesto de afago e estampando na cara um prazer incontrolável. A vaca começou a me lamber: uma lambida de cachorro, alegre, afetuosa, histérica. Uma língua áspera que na ponta faz uma voltinha para fisgar o capim! Upa! A língua da vaca laçou o meu braço! Olé! E neste instante de comunhão ela me olhou, e dos seus olhos escorriam lágrimas em fluxo contínuo. “Felipe! Olha só aqui! A vaca está chorando!”. E Felipe, abandonando os bezerros que também estavam muito disponíveis para amizade, veio olhar a vaca que chorava. “Putz! É mesmo!”. E a vaca chorava, chorava, chorava...

Em “Sagarana”, de Guimarães Rosa, no conto “O Burrinho Pedrês”, um dos vaqueiros conta a história de um fazendeiro muito ruim chamado Madureira. Quando ele morreu, na noite do velório, os bovinos ficaram a noite inteira chamando no curral:

Os bois: “Ô Madureira, Madureira!”

As vacas respondiam: “Foi pros inferno, foi pros inferno!”

E assim repetiam durante toda a noite do velório. “Ô Madureira, Madureira!”, “Foi pros inferno, foi pros inferno!”

A vaca que conheci no Caminho de Santiago também se comunicava. Pela fenda do curral chamava amizades. E no íntimo de sua melancolia e abandono típicos da espécie, o ser se sentiu cachorro afagado, domesticado. Ser habitado. Chorou de emoção. E eu também chorei...


PS - texto publicado neste blog no dia 24.08.2008

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Fellini, a neve e a lesma

Para os meus pais

«Oh cretina! Fica aí dormindo fica, aqui fora tá nevando, stronza! vafanculo va’, e depois não reclama que nunca viu a neve! Mannaggia!»

Acordei assustada, com a cara colada no interfone que havia tocado ininterruptamente - 12, 13, 14 vezes. Incrível! Mas quem é este louco, neurótico, mal-educado? O que quer comigo? Ai crê em Deus padre: pensamentos recém-despertados me escoltaram durante todo o descompassado percurso feito da cama até o interfone à porta, quando decidi atendê-lo. Era Guido, o garoto da voz de trovão, olhos café, cabelos penteados para o lado - estilo estudante nerd americano. Estimado amigo, anjo da guarda pagão. Me salva de tantas, apesar do seu discreto e inócuo catolicismo. Se apresenta a minha casa especialmente para esta tarefa. Olha que eu havia lido no jornal a previsão do tempo para aquela manhã. Mas depois, dormindo, esqueci. Troquei o sonho da neve por outros tantos onirismos talvez menos brancos. «Entendeu? Guido, você tá aí ainda?». «Oh cretina, desce logo que o gelo vai derreter, cazzo!». Pois é, nem sempre é tempo de maçãs...

Quando abri o portão vi a cidade coberta por uma crosta de açúcar de confeiteiro. Ou farinha. Ou bicarbonato de sódio. Ou a raspadinha de gelo vendida na praia no verão. Assopraram pó de giz por toda Roma! Era a neve, que pela primeira vez se apresentava a mim pessoalmente, láctea e luzente, o concreto armado erguido na ausência do projeto arquitetônico em plástica.

Caminhando pela rua escrutada por Guido, que apesar de não ter asas, vive imerso nas estrelas, eu observava ao redor a paisagem transfigurada. A noite havia estendido um véu de noiva sobre a cidade adormecida. E agora que ela, assim como eu, estava desperta, os fios iniciavam a se desenlaçar. Gotas d’água caiam do alto, não das nuvens, mas dos tetos das casas, dos prédios, das árvores: ligeira chuva feita da água que se derretia, enquanto a luz branca preenchia o cenário urbano, refletida pela superfície cintilante do gelo. Presenciar os flocos de neve que grudam no casaco, deitam-se sobre o guarda-chuva ou se estacionam na ponta do nariz, é uma experiência de realidade que te faz buscar repertório no imaginário filtrado e produzido pelo cinema. É uma experiência imediata de choque emocional e um constante exercício lógico e afetivo de elaboração do real, do virtual e das possíveis relações de poder entre estas dimensões. No entanto, se por um lado existe toda esta (re) elaboração do próprio imaginário domesticado, por outro existe o efeito do real na fantasia humana. Ou seja, a velha pergunta: o que acontece com a fantasia humana quando ela se realiza?

Brincando de guerra com bolas de neve entendi uma coisa: não é verdade que a bola ao atingir o inimigo se despedaça em partes brancas e aparentemente crocantes de gelo. Não é verdade que após a bola se estraçalhar no teu casaco, com a mão você limpa os resquícios brancos, como se fossem migalhas de balas de coco. Para ser sincera, a bola de neve quando gruda no casaco parece uma massa de farinha, úmida, um cocô transparente e inodoro que fica lá, atacado, descolando lentamente. E Gradisca, em "Amarcord", de Fellini? Lembro-me quando durante a histórica nevasca em Rimini, todos os habitantes estão eufóricos, observando a paisagem das suas janelas, das portas, em pé no meio da rua. O pavão que voa. Gradisca passeia pela cidade com o seu lenço vermelho e os garotos brincando lhe lançam bolas de neve que se estraçalham no seu exuberante traseiro. Os flocos que caem do céu são leves como espuma. A neve é cinematograficamente mágica, pictoricamente eterna, dramaturgicamente sintética. Se o filme de Pasolini se chamasse “O que é a neve” ao invés de “O que são as nuvens”, Totó teria respondido igualmente a Ninetto Davoli a sua pergunta “O que é a neve?”– uma desmesurada maravilhosa beleza da Criação. Bem, rev(f)erências à parte, destacada da representação artística, a neve palpável merece o seu lugar na minha mitologia pessoal. Se Guido não me tivesse despertado, dificilmente eu poderia ressignificar a experiência com o gelo. A bola de neve lançada no casaco, parece uma lesma grudada que lentamente desce, desce, desce, deixando impresso atrás de si o seu trajeto molhado.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

chá sem bolachas


Um dia de primavera sem sol uma mulher com um belíssimo nome grego estava parada à janela da cozinha olhando lá fora a neblina que deixava a paisagem levemente imersa em um copo de leite. Estava quase melancólica quando escutou a campainha tocar. Ainda que fosse manhã cedo e não esperasse ninguém, decidiu abrir a porta após constatar através do visor que não conhecia aquela pessoa. Era uma dona de certa idade que lhe sorria com cabelos tingidos de loiro. “Que perfume de camomila”, comentou, assim que colocou o nariz dentro da sua casa. “É, deixei a chaleira acesa no fogo”. Em silêncio, as duas se sentaram à mesa da cozinha, e a loira adocicava com aspartame o chá na xícara. “Eu estava passando por aqui e pensei: por quê não?!”. Restaram outro tempo em silêncio. A mulher com o nome grego ofereceu-lhe biscoitos caseiros, mas a loira gentilmente rejeitou por causa da dieta, da pressão alta e do colesterol. No sofá da sala escutaram música lírica: “Puccini... esplêndido!”, diziam concomitantemente. E repartiram pedaços de vozes, memórias, fragmentos desconexos, como se costurassem juntas uma colcha de retalhos para decorar o pavimento de lenho. Até que a senhora, já de pé com a bolsa à tira colo, atribuiu às vidas um denominador comum, comunicando-lhe que eram filhas do mesmo maestro de orquestra, que as suas respectivas mães não se conheceram em vida, e que não à toa uma era soprano e a outra, contralto. Emocionada com a revelação da desconhecida-conhecida que agora era também a sua irmã, a mulher não teve tempo para sentir. A loira se despediu ligeira – tinha o neto à saída da escola. E enquanto uma abria a porta à outra, e a outra acariciava a face da uma, combinaram de se rever em alguma outra ocasião. Da janela da cozinha, a mulher com um belíssimo nome grego observou a irmã que atravessava a neblina como se entrasse em um copo de leite. Era ainda primavera.

(Imagem: Mulher ao espelho, Pablo Picasso, 1932)

domingo, 25 de outubro de 2009

Una pura casualità


Nell'appartamento vivono insieme i fratelli Raul ed Elena e un loro amico chiamato Pasquale.
Ana, invece, abita da sola in una casa di colore blu.
Una sera Ana preme i tasti del telefono, e aspetta.
- Pronto?
- Raul?
- Sì...
- Ciao Raul. Come stai?
- Chi parla?
- Sono Ana. Tutto bene?
- Chi?
- Ana, l’amica di Elena, di Pasquale...
- Scusi signora, ma con chi vuole parlare?
- Come con chi Raul? Con Elena o Pasquale
- Ha sbagliato numero
- Come? 0665388884?
- No signora.
- Ma tu non sei Raul?
- Sí...
(SILENZIO)
- Boh. Va bene. Scusami.
E riattaca il telefono. Allora controlla la rubrica. Infatti, aveva messo un otto in più.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Amor de Passarinho



A velhinha tricotava no banco do parque com o seu radinho de pilha ligado quando avistou um passarinho distraído:

- Ô passarinho...psi psi... vem aqui vem...

Ela jogou um pedacinho de pão pro passarinho que se avizinhou. Fizeram amizade.

Até que o radinho da velhinha anunciou a chegada de uma frente fria no final de semana, e o passarinho, preocupado, roubou o novelo de lã da senhora e voou às pressas para o ninho.

Ficaram de mal...

(Imagem: Mujer, Pájaro y Estrella. Joan Miró, 1942)

PS - texto originalmente publicado neste blog no dia 28 de abril de 2008

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Gula ou a Resistência alla Romanesca

Sabe-se que os italianos em geral gostam de comer bem e em grande quantidade. O romano é um caso especial - estende seu apetite até sobre o vocabulário, devorando as sílabas e palavras da própria gramática. Dessa forma, uma oração como “Che cosa sta facendo?”, se transforma subitamente em “Ch’ sta a fà?”, “Cosa sta dicendo” em “Ch’sta a dì” e “Andiamo a mangiare” em “annamo a magnà”. O dialeto romanesco é assim, faminto, devora tudo, vogais, verbos, objetos diretos e indiretos, substantivos, todas as palavras que Mussolini, durante seu regime fascista nos anos 30, impôs aos italianos como idioma oficial, autoritário, para unificar a nação e aniquilar as línguas regionais tradicionais.
Ora. Sono bravi questi romani! Mangiate ragazzi, subito, tutte le parole, finchè non ci sia più nessuna! Libertà alle tradizioni! Fuori la destra autoritaria ed americanizzata! Fuori Berlusconi-Mussolini. Buon appetito a tutti quanti! – é como se de repente eu escutasse o eco da voz inesistente de Pasolini, assim, enérgica e apaixonada. Ele que em pleno fascismo publicou "Poesie a Casarsa", um livro de poesias em dialeto friuliano
(língua falada na região camponesa de Friuli), numa clara atitude em defesa da livre expressão e de resistência ao projeto mussoliniano de homogeneização da massa. Ele, um apaixonado pela tradição romana, que a contou em seus filmes através dos rostos marcados do povo, do canto popular (os famosos stornelli romani de Mamma Roma),do dialeto cru das periferias romanas. È como se eu ouvisse o seu grito isolado atravessando o séc. vinte e um....

domingo, 26 de julho de 2009

Tristeza - Poética - Picasso


Não sei o que fazer com a melancolia de domingo
Com a pontualidade da melancolia de domingo
O insistente déjà vu
De me sentir o Arlequim de Picasso
Sentado com uma fantasia colorida
Olhando com uns olhos sorumbáticos
O tempo, o silêncio, a respiração
De uma tarde dominical regular
Começo a pensar como seria
Uma revolução popular melancólica
Trabalhadores e artistas com olhares-arlequins
Defendendo os ideais de fraternidade e liberdade
Acho que nesta revolução não existiria a violência
E o sangue se transformaria nas tintas coloridas
Da geração de Montparnasse
Foujita, Kisling, Picasso, Soutine, Chagall, Matisse, Modigliani
A graça poética e o maneirismo velado pela nostalgia
Que marcaram os ares parisienses dos anos vinte
Preciso urgentemente de uma linguagem
Que me ajude a traduzir a minha melancolia
E as periódicas tardes de domingo de sol

(Imagem: Paul como um arlequim. Pablo Picasso, 1924.)

PS - texto originalmente publicado neste blog no dia 11 de maio de 2008

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Caros Espanhóis

Aos Mercantilistas Ibéricos,

Estão lembrados das atrocidades que vocês cometeram contra os povos indígenas assim que chegaram à nossa América Latina? Pois bem, os grandiosos impérios Incas e Astecas caíram por terra quando vocês lhes apontaram as espadas e armas, degolando-lhes as cabeças e explodindo seus templos à procura dos nossos metais preciosos. Lembram-se? Assim também foi com seus colegas portugueses quando chegaram ao Brasil. Vocês se enriqueceram destruindo nossa civilização e nossas propriedades naturais.

Estão lembrados que após esse inaugural massacre, vocês continuaram a dizimar os povos desse Novo Continente, deslegitimando sua cultura e aprisionando-os em regimes de trabalho autoritários e desumanos? Somando a isso o comércio de negros africanos - milhares trazidos por vocês para serem escravizados nas Ilhas das Antilhas. Lembram-se? No Brasil, os portugueses mantiveram a escravidão até fins do séc. XIX – foram mais de três milhões e meio de africanos escravizados no Brasil. Vocês se enriqueceram às custas de muita brutalidade e exploração da nossa mão-de-obra. Lucraram horrores por meio de horrores.

Pois bem. Em 1507 o nome AMÉRICA foi escrito pela primeira vez no planisfério desenhado por Martin Waldseemüller, cartógrafo alemão. Acredita-se que Waldseemüller tenha batizado o continente em razão das cartas escritas por Américo Vespúcio, mercador italiano presente na expedição de Colombo ao Novo Mundo. Neste mapa de Waldseemüller a região nordeste do Brasil é denominada “as terras de Américo ou América”, em latim Americi Terra vel America. O nome LATINA herdamos da etimologia do idioma colonizador: o português e o espanhol. AMÉRICA LATINA, um continente invadido, nomeado, dominado.

E cinco séculos se passaram até que vocês retornassem à nossa América com o claro intuito de nos explorar, nos desrespeitar, lucrar às custas de nossos patrimônios públicos e da nossa mão-de-obra. BRASIL, um país de todos. SÉCULO XX, o neoliberalismo na pós-modernidade. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, o Boca de Pudim da intelectualidade e política nacionais. TELEFÔNICA, o mal de todos os males, a empresa que ocupa o ranking das companhias com maior número de reclamações no Procon, na Anatel e no Idec. Brasil + neoliberalismo + FHC (ou PSDB) + Telefônica = o coquetel molotov arremessado contra a dignidade do povo brasileiro.

Caros mercantilistas espanhóis que fizeram a festa no Governo FHC e compraram a Telesp a preço de banana, a edição de janeiro/2007 da revista “Caros Amigos” tem uma matéria exclusiva sobre os abusos e descasos da empresa de vocês a qual nem falarei o nome agora para não atacar a alergia. Aquela lá sabe, daquela figura ridícula do Super 15? Aquela que deixa dezenas de orelhões quebrados nas ruas, que cobra tarifas exorbitantes, que rouba descaradamente seus clientes adicionando às suas contas telefônicas ligações interurbanas e internacionais não realizadas, ou pior, que frequentemente cobra por serviços não contratados (como o “Kit To Aqui” – atendimento simultâneo e transferência de chamadas). A empresa de vocês treina os funcionários para embromar o cliente ao telefone com informações inverossímeis, além de deixá-lo esperando na linha, quando não desligam de propósito, fingindo que a ligação caiu. E quanto seus funcionários recebem de salário no final do mês? A informação divulgada pela “Caros Amigos” é de pouco mais de 1 salário mínimo. Ou seja, quem consegue alçar vôos na TELEFÔNICA – aaatchiiimmm!!! - só mesmo o Super 15 com aquela capa voadora. A arrecadação mensal da empresa em 2005, apenas com a taxa de assinatura (taxa esta considerada ilegal pelos órgãos de defesa do consumidor) foi de 450 milhões de reais.

Sabendo que a privatização da telefonia fixa no Brasil foi mais uma daquelas famigeradas obras de Fernando Henrique Boca de Pudim, Aloísio Biondi no livro “O Brasil Privatizado”, editado pela Editora Fundação Perseu Abramo, faz um severo raio-x desse cruel processo de desmantelamento do patrimônio público. Pois bem caros espanhóis, sabe-se que vocês pagaram pela Telesp 4,9 bilhões de dólares em 1998 e anualmente seus lucros ultrapassam, e muito, o investimento gasto: só em 2004 vocês lucraram no Brasil 10 bilhões de dólares. Além disso, às vésperas dessa famosa “venda”, pensando nos lucros de vocês, o Governo FHC reajustou em 500% as tarifas telefônicas, demitiu centenas de funcionários da empresa para diminuir os gastos da folha de pagamento assumindo o pagamento dos direitos trabalhistas dos demitidos, além dos aposentados, investiu 21 bilhões de reais em infra-estrutura no setor – ampliação de redes, cabos, etc - e, inacreditavelmente a Telesp tinha não menos do que 1 bilhão em caixa ao ser entregue a vocês, ou seja, sem realizar esforço algum, vocês já começaram o investimento com o pé direito. Poderia se dizer que o Boca de Pudim é antes de tudo um homem cordial?

Mas deixemos esse verdadeiro negócio da China de lado e o Pudim, no forno. Independentemente de todas estas desmoralizações pretéritas do ano de 1998, aliás, a TELEFÔNICA BRASIL IL IL - aaatchiiimmm!!! – já está completando onze anos, gostaria de protestar contra as posturas atuais da empresa, os abusos e maus tratos contra os brasileiros, a incompetência dos serviços prestados e os estelionatos diariamente cometidos. Gostaria de saber se nos 37 países dos quatro continentes em que a TELEFÔNICA – aaaattch.... ufa, passou - possui filiais (Europa, Oceania, África e América) as suas políticas, ofertas e ações são iguais, padronizadas, ou se nós, latino-americanos por vocês colonizados, possibilitamos esse tratamento especial (Ainda mais com o apoio da TUCANALHA BRASILEIRA chancelando tais comportamentos, estabelecendo e assinando verdadeiros tratados de dominação).

Caros mercantilistas espanhóis, o fato é que cinco séculos se passaram e vocês continuam a nos sugar. A América Latina ainda agoniza e a empresa de vocês é o exemplo de que as suas riquezas permanecem sendo constituídas de nossas misérias. Acabo por aqui com os dedos formigando de vontade de citar o papel da revista VEJA, sua fiel comparsa e amiga íntima do Boca de Pudim, nessa história toda, mas isso fica pra próxima. Hasta, vou “passar um fax” pelo Super 15! (ou pela banda larga do Speed, já que é larga mesmo)!

(PS. texto originalmente publicado neste blog no dia 5 de dezembro de 2007)

terça-feira, 14 de abril de 2009

E de amor? Se vive?

ou Da experiência do amor na terceira idade

Em São Paulo o meu vizinho de casa sofre de amor aos setenta e cinco anos de idade. Aposentado dos correios, tem um filho no exterior e a neta militar. Uma vida sistemada, a idade em que se pensa que tudo já foi visto, revisto e carimbado. Até que a sua rotina foi violentamente interrompida com a fuga da esposa. Quarenta e cinco anos de matrimônio agora são mil espadas de gelo que lhe perfuram o peito. Em poucos meses a mulher perdeu tudo no bingo: dinheiro, jóias e o carro com o qual andavam à missa aos domingos na igreja do Brás.
A velhinha se apaixonou por um homem viciado no jogo como ela. Fujiram juntos para tentar outras vitórias. O velhinho restou.
Pontualmente, na hora do jantar, a sua solidão é forasteira. Pela janela do meu quarto entra galopante o som do lamento das canções de amor que o senhor escuta ao máximo volume. Sou convidada a participar do seu luto. Chitãozinho e Xororó. Zezé de Camargo e Luciano. A música popular adolorada atravessa as janelas das casas do quarteirão enquanto o homem se apaga com doses de cachaça mineira.
Aos setenta e cinco anos de idade o coração ainda é território estrangeiro.

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Na cidade de Trapani, na Sicilia, uma senhora de oitenta anos lava os pratos do jantar. É pequenina, sorridente, corcunda e os cabelos brancos muito bem penteados. O negro do vestido é a tradição católica siciliana que encontra os pontos de brilho nos longos colares de ouro com a imagem de Jesus que se estendem sobre os seios.
No forno de pedra da sua casa o filho realiza as obras de arte da culinária siciliana com tomates, aliche, azeitonas, calabresa, alho, berinjela, abobrinha - pizzas rústicas para um amplo grupo de amigos e parentes. A pizzada siciliana tradicionalmente calorosa, acolhedora, abundante... as portas abertas recebem o perfume do mar.
Observando a pequena senhora curvada sobre a pia da cozinha me ofereço para ajudá-la. Com um sorriso, gentilmente rejeita a minha compaixão. São mais de sessenta anos de matrimônio, muita disposição e bom-humor. Senhorita, sabe por quê vocè me vê assim alegre e cheia de energia? Porque estou apaixonada. Aquele ali é o meu marido, vê? Doze anos de namoro e cinquenta de casamento.
O senhor se aproxima, curioso. Quiçá que coisa a mulher está contando à moça estrangeira? A timidez lhe colore o rosto quando a velhinha se agarra forte à sua mão mostrando-me as três alianças: casamento, bodas de prata e bodas de ouro.
Daqui à pouco quando vamos para a cama nos beijamos e cada um fecha os olhos e faz o seu sonho. Quando acordamos, nos beijamos e cada um recomeça um outro dia. Sabe por quê sou assim contente? Porque sou uma mulher apaixonada.
E diante da declaração de amor da esposa, o senhor se avermelha...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Eisenstein Mexicano





De dezembro de 1930 a fevereiro de 1932 o cineasta soviético Sergei Eisenstein (“A greve”, “O Encouraçado Potemkin”, “Outubro”...) viveu no México, absorvendo realidades e recolhendo material para realizar o filme “Que Viva México”. Antes mesmo de se afirmar como cineasta, em 1924, o talento de Eisenstein se manifestou primeiro na pintura, influenciado desde a infância pela obra de Honoré Daumier e Jacques Callot. A produção de desenhos caricaturais provenientes da veia cômica e grotesca de Eisenstein é interrompida justamente quando o pintor (e então ator) dá início à sua atividade cinematográfica. Uma pausa que, no entanto, é sepultada a partir da sua experiência mexicana: “...depois da renúncia de desenhar e o novo retorno ao desenho – paraíso perdido e novamente reencontrado da gráfica – me ocorreu no México... comecei de novo a desenhar”.

O amor e o fascínio pela cultura e paisagens mexicanas esculpiram para sempre o imaginário do cineasta soviético, uma obsessão quase ancestral que chancelou seus posteriores excêntricos comportamentos como, por exemplo, aquele de desenhar figuras mexicanas no storyboard e anotações para “Ivan, o Terrível”, já dez anos depois do seu retorno a Mosca. Ou mesmo, poucas horas antes de morrer, desenhar a lápis em uma folha de papel a tradicional caveira do ritual mexicano para o dia dos mortos. Eisenstein conservou pendurado na parede do seu quarto russo um tapete decorado com motivos da cultura asteca. Com este post pretendo homenagear o México e este grande cineasta, a relação de amor de um artista com uma cultura transcontinental aparentemente distante de si. O mestre da montagem no cinema em um país densamente marcado pela montagem, onde o percorrer o território é contemporaneamente um transferir-se no tempo, nos séculos de história...

Este reencontrar-se mítico que é não é efetivamente ocasional; a síntese de um poema da Vida, da Morte e da Imortalidade (uma referência à tríade que compõe a temática dos filmes de Eisenstein e a principal razão da sua expedição ao México). E apesar de tudo, Eisenstein não conseguiu concluir o seu filme... por diversas razões, a troupe retornou à Mosca e o material restou nos Estados Unidos sendo apropriado para realizações de outros filmes, alguns desses etnológicos e didáticos ... somente em 1979 que Grigori Aleksandrov, que havia participado do projeto original, a partir dos storyboards originais reconstruiu a montagem para “Que Viva México”.





No meu encontro com o México

ele se revelou em toda

a variedade das suas contradições...

Simplicidade da monumentalidade e

incontrabilidade no barroco: nos dois

aspectos seus, espanhol e asteca...

Há dezenas de milhares

se entrevêem as cúpulas... e as cruzes...

Mas não é mérito particular dos católicos.

Os lugares não foram eles a escolher. São

aqueles das antigas pirâmides, um tempo coroado

por templos astecas e toltecas...

Destruídos os templos, aqueles ergueram as suas

igrejas exatamente nos mesmos lugares,

em cima das pirâmides,

com a desculpa de não desorientar


os itinerários das peregrinações, confluentes

há milênios de todos os ângulos do país

aos pés justamente dessas pirâmides...

Afiados espinhos...penetram os corpos

daqueles que amarram nas costas com cordas

troncos verticais dos cactus atrelados em cruz,

e por horas

arrastam-se em direção ao cume das pirâmides

a glorificar as nossas senhoras católicas

de Guadalupe, Los Remedios,

Santa Maria Tonantzintla...

Quem sabe se por honor a Nossa Senhora

ou não justamente a uma deusa mais antiga,

a mãe dos deuses, que só

aparentemente cedeu o seu lugar...

à Mãe de Deus do cristianismo,

mas inequivocamente restou

dentro das sucessivas gerações

dos descendentes dos fundadores do seu culto.

Sergei Eisenstein







Sobre as áridas rochas

ao redor de Tasco estão estrelas escarlates de flores.

Chamam-nos “sangre de toros”. Possuem

a mesma linha, ardente em marca de cor,

da fonte de sangue na qual arde

a linha brilhante traçada pela espada

do matador que penetra no corpo negro do touro...

Aqui se paga com vida.

O chifre atravessa o homem.

O aço, brilhando, penetra na besta.

Não tem outra saída...

O preço é a morte.

Pagamento o sangue.

Ainda se pelo preço do sangue, aqui o homem

mistura-se com a besta.

Ainda se pelo preço da vida, aqui atraversa

a barreira que os divide

em série irredutíveis.

Caso contrário, qual teria sido a força

de atração deste espetáculo que em um único grito

une multidões de milhares de pessoas

entre os muros agitados dos circos

nos dias de sol das “corridas”?...

Del resto, esta agora é martírio

do matador, agora do touro.

Existe até mesmo o desenho... de um touro

crucificado, perfurado de flechas,

como um São Sebastião.

Não é culpa minha.

É o México que no mesmo elemento

da festividade dominical mistura

o sangue de Cristo da missa matutina

na catedral às torrentes de sangue taurino

da corrida diuturna

na arena da cidade...

Sergei Eisenstein







PS – Os desenhos e textos de Eisenstein postados foram retirados de um livro raro (o comprei em um sebo no centro) “I Disegni Messicani di Ejzenstein”, Beniamino Carucci Editore.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Mamma Calábria

Os filhos da Calábria retornam para o Natal. Voltam das importantes cidades do norte onde a vida parece dizer-lhes sim: Roma, Pisa, Bolonha, Gênova, Milão e Turim. Uns Ulisses, outros Don Quixotes, todos guerreiros: os filhos da Calábria retornam ao colo de suas mães para festejar o nascimento de Gesù Bambino. O verde-vivo rasteiro da terra é o tapete invernal dos montes calabreses. Estende-se sem vergonha e sem fim por planuras e penhascos, cobrindo tudo o que vê e tudo o quanto pode. As árvores emagrecem no inverno, perdem folhas e frutos, são troncos e galhos secos enrijecidos como as galinhas depenadas para a ceia de Natal. Piuí. Piuí. O trem atravessa a comarca: de um lado as montanhas em contornos de nanquim, e do outro a ribanceira com o mar que á azul no verão e verde no inverno. O verde-vivo do tapete invernal dos montes calabreses colore o mar. Colore os olhos daqueles que olham pela janela do trem. Colore a melancolia das mães que esperam o ano todo o retorno de suas crias.
Na Calábria camponesa as casas são labirintos: três, quatro, cinco andares. Na expectativa de que um dia os filhos regressem definitivamente com suas esposas e crianças para habitarem o lar, os pais ampliam o concreto, constroem novos cômodos, ulteriores escadas e tantas janelas em continuidade. Das janelas do primeiro andar acompanham as estações, observam o verde da terra que seca no verão, os tantos pés de figo da Índia com as cabras que pastam ao redor, o vento mediterrâneo que balança as laranjeiras em flor, e a colheita outonal da azeitona. Das suas janelas Mamma Calábria enxerga o mar verde de inverno e o trem que traz os filhos para a festa de Natal. Piuí. Piuí.
Até o dia dos Três Reis Magos Mamma Calábria é em festa, beija e abraça suas criaturas e cozinha para elas como quem cozinha a oferenda para o santo. Calábria colorida, perfumada, saborosa. Mas como a alegria tem prazo de validade fato está que o mesmo trem que atravessou esplanadas e montes como a estrela cadente de Belém, agora parte com os filhos do campo, estudantes e trabalhadores rumo ao norte. As casas calabresas estão sempre no reboco, a reforma dura anos e suas tantas janelas continuarão fechadas. Os filhos da Calábria vêm e vão, poucos permanecem. Mamma Calábria suspira, entristecida, pelas suas enormes casas vazias.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

buon camino, compañero!

Depois do post "Samba da Compostela", voltei ao blog com um olhar menos crítico e mais sensível sobre o Caminho de Santiago de Compostela. Porque, sem dúvida, a beleza e o sentimento do sagrado são elementos de inquestionável presença neste percurso milenar...

Dessa forma, através das minhas fotografias convido os leitores a conhecerem o Santiago dos meus olhos. Para evitar descrições nas imagens antecipo que retratam duas extensas localidades: as comunidades autônomas León-Castilla e a Galícia, onde, na província de La Coruña, está situada a cidade Santiago de Compostela (a última fotografia é a catedral de Santiago). Em linhas gerais, a primeira região é caracterizada, principalmente, por extensas áreas planas, de plantação de trigo, cevada, girassol... a segunda, uma região montanhosa, é caracterizada por bosques, montes, muito verde e flores.

Além disso, dois parênteses: uma imagem por testemunha - eu e meu amigo Felipe com a prova do crime (quatro quilos de ameixa que colhemos de uma árvore no jardim de uma casa aparentemente abandonada). E em Astorga, dois monumentos: o palácio realizado por Gaudì para um bispo espanhol e uma igreja católica com as marcas da Inquisição - buracos na parede por onde os prisioneiros "hereges" recebiam alimentos dos peregrinos que passavam por ali.

Entonces, é hora... Buon Camino, compañero! (este é o "slogan" do peregrino...)