As Cartas Não Enviadas
sexta-feira, 12 de agosto de 2022
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
sábado, 29 de abril de 2017
Navalha na carne
Ela descobriu a salvação na navalha. Quando a vida começou a pesar demais, os cortes em seu corpo se multiplicavam e a anestesiavam da dor maior: a da existência. Um corte na coxa, outro no seio, depois a panturrilha, o antebraço. Cada vez mais longos. Mais profundos. Aos poucos seu corpo virou um mapa a ser percorrido pelo olhar inquieto de quem não está em sua pele. Pele que ela tenta habitar.
Imagem: Sitzende mit gelben Tuch, Egon Schiele, 1910
segunda-feira, 24 de abril de 2017
Re Exista Iris

*Imagem: The Weeping Woman, Pablo Picasso, 1937.
sábado, 25 de março de 2017
sábado, 15 de outubro de 2016
Vida estrangeira

*Imagem: Vampire, Edvar Munch, 1893.
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
O pianista

*Imagem: Circle in a Circle, Kandinsky, 1923.
sábado, 24 de setembro de 2016
Sombras

Nossa! Nove horas! Novamente
atrasada.
Durante cinqüenta e quatro
invernos, Dona Margarida acordou pontualmente às sete. Desde a construção do
edifício a sua rotina mudou e está aborrecida com isso. Após abrir a janela, a
senhora se põe a chorar: é saudade do sol, saudade dos pais que deixou em Minas
Gerais, saudade da vida que não teve nesses oitenta e seis anos.
Quando decidiu se mudar
para São Paulo, Margarida tinha cinqüenta mil cruzeiros e o magistério recém
concluído. Na nova cidade trabalhou como garçonete, dama de companhia,
balconista de loja. Aposentou-se como professora primária da rede pública.
Morou no Bexiga, no Brás, no Parque D. Pedro, até que conseguiu, depois de
muito economizar, comprar uma casa no bairro do Mandaqui. É térrea e batia sol
o dia inteiro, mas com a construção do edifício a casa se tornou mais escura e úmida.
Quando moça, ainda morando
no sítio com os pais, Margarida se apaixonou por um rapaz que conheceu na missa
de domingo. Naquela época era comum os jovens apaixonados trocarem cartas,
escreverem poemas de amor com caneta de tinteiro. A paixão era escrita, chegava
dentro de um envelope, passava por debaixo da porta ou por entre as persianas
da janela do quarto. Certo dia, a correspondência de Marcelo não chegou à sua
casa e Margarida percebeu que não mais chegaria. Assim foi com a de João, com a
de Henrique e com a de Miguel, estes em São Paulo.
Dona Margarida chora,
debruçada na janela que acabou de abrir. É saudade do sol, saudade do Marcelo,
do João, do Henrique e do Miguel.
Mindinho, o gato, passa
por entre suas pernas, pedindo-lhe comida.
Nossa! Dez horas!
Novamente atrasada para alimentar o gato.
Toco, o cachorro, espera
pela dona para passear na rua. Dona Margarida ainda terá que ir à quitanda do
Sr. Manuel: são às quartas-feiras que chegam as laranjas limas. E depois terá
que passar no açougue para comprar a mistura do almoço.
Nossa! Onze horas! O vaso
de violetas cor de rosas aguarda ser regado.
Desde a construção do
edifício o sol não bate mais na janela do quarto da Dona Margarida. O vaso de
violetas, que há anos foi colocado no parapeito, encontra-se seco e maltratado.
Desde a construção do edifício Dona Margarida não regou mais suas violetas.
Todos os dias a senhora
chora debruçada em sua janela. É saudade. Saudade do sol. Saudade da vida que
não teve.
*Imagem: Four Trees, Egon Schiele, 1915.
*Imagem: Four Trees, Egon Schiele, 1915.
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