sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Lições de Cinema

Francesco Piccolo, escritor e roteirista italiano (entre os filmes que escreveu estão “Ágata e a Tempestade”, de Silvio Soldini, “O Crocodilo”, de Nanni Moretti e “Caos Calmo”, de Antonio Luigi Grimaldi) comenta no prefácio do seu primeiro livro, “scrivere è un tic” (Ed. Minimum Fax, 1994): Eu tinha a sensação que colecionar reflexões de escritores sobre o ato de escrever me ajudaria a parecer-me com eles...

No livro, Piccolo explica esse seu vício de colecionar anotações sobre métodos de escritores famosos relatados em entrevistas ou compilados em livros teóricos. Desde pequeno ele queria ser escritor e durante a adolescência a intenção de juntar as centenas de conceitos sobre o ofício encontraria eco na fase adulta, momento em que desenvolveria a sua própria técnica artística.

Recordando-me desta conduta de Piccolo decidi postar no blog reflexões de alguns renomados cineastas sobre a sétima arte. No ano passado, a editora italiana Castoro publicou “Lezioni di cinema”, a compilação transcrita das lições de cinema do Festival de Cannes realizadas por alguns mestres do cinema mundial entre 1991 e 2006. Não sei se o livro também foi publicado no Brasil (fiz uma rápida pesquisa na internet e não encontrei nada). De qualquer forma advogo: este livro merece ser lido.

Enfim, confesso: assim como Piccolo eu também coleciono reflexões. Mas de cineastas que admiro. Isto por razões várias que não somente a busca por uma metodologia própria, mas, e principalmente, a possibilidade de haver instrumentos sólidos para interpretar e compreender melhor as suas obras. Abaixo, uma rápida passagem pelas lições de cinema de Cannes...

O diretor deve consentir-se solitário. Retirar-se na sua solidão como quando Akira Kurosawa prepara um enquadramento. Esta dimensão de solidão da criação é uma coisa muito difícil de ser aceita no cinema.

FRANCESCO ROSI

Em um filme que classificadamente se divide em três etapas (escritura, filmagem e montagem), prefiro aquilo que existe antes da escritura, aquele estado em que se procura o início de um filme, em que se viaja para encontrar uma paisagem na qual se sabe que é possível fazer o filme... Ainda não existe nada, existem elementos fragmentados, pequenas estórias que foram vistas, ou uma paisagem da qual nos recordamos, ou um ator com quem temos vontade de trabalhar. E depois, o resto, tudo aquilo que vem depois, principalmente a escritura, me dão medo e não me agradam. Eu não gosto nem mesmo das filmagens, são muito angustiantes. A montagem, ao contrário, é magnífica. Mas entre a montagem final e esta liberdade do ponto de partida no qual ainda não existe nada, eu não me sinto bem.

WIM WENDERS

Procuro sempre a música para o filme antes de começarem as filmagens para que ela me sirva de referência. A música é constantemente presente no meu espírito e dessa forma é possível construir o ritmo de um filme de modo que Chris Doyle (diretor de fotografia) saiba como fazer dançar a câmera. Trabalhar com Chris Doyle é como trabalhar com um músico de jazz. Não se fala de iluminação, não se fala de ângulo do enquadramento, porque trabalhamos juntos há mais de dez anos e nos conhecemos à perfeição. A ele basta conhecer o ritmo e a cor do filme – não o vermelho ou o azul, mas a sensação que proporciona o filme, a sua emoção.

WONG KAR-WAI

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Bandido anos 2000


"O terceiro mundo vai explodir. Quem tiver de sapato não sobra!", foi o grito que Rogério Sganzerla colocou na boca do seu personagem nano com charuto no filme O Bandido da Luz Vermelha. Inesquecível e profético: “A solução pro Brasil é o extermínio total, eu sou poeta, eu vejo, o terceiro mundo vai explodir, vai explodir!”.

Quarenta anos se passaram e o grito aflito do Brasil ainda é possante. O berro da miséria aflita ecoa no terceiro mundo: América Latina, Ásia, África, Oriente Médio, Europa do Leste... Mas por questões históricas o rugido do nano de Sganzerla se estende hoje sobre outros territórios, ultrapassando as fronteiras do subdesenvolvimento. A cada barca clandestina naufragada nas costas do primeiro mundo com dezenas de desesperados utópicos eu escuto o grito de Sganzerla. A cada imigrado humilhado e massacrado, aglomerados de homens-ratos nos bueiros internacionais, eu escuto o grito de Sganzerla. Dezenas de seres humanos que atravessam desertos e ultrapassam barreiras em busca do sonho americano. O urro profético da humanidade capitalizada outorga a governos neonazistas a solução para a luta de classes contemporânea. Prezado Sganzerla, ironicamente o seu grito assume hoje outra direção, que, na verdade, não é outra, mas a contra-mão da primeira: o primeiro mundo vai explodir! É isso que penso cada vez que caminho pelas ruas...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Macunaíma (re)engolido pelo gigante


E pela emancipação brasileira da primazia do retrato do colonizado



PS - o texto também foi publicado na Cinequanon

O Festival Internacional de Cinema de Roma inaugurou a sua terceira edição na quarta-feira, 22.10, com uma festa brasileira na Piazza Navona. Com direção artística do gringo da Tropicália Arto Lindsay e cenografia do artista plástico brasileiro Ernesto Neto o evento contou com a participação de Vanessa da Mata e os blocos Ilê Aiyê e Spok Frevo Orquestra. Um carnaval brasileiro de outono em Roma era a proposta da curadora da sessão Focus sul Brasile, Gaia Morrione, para a abertura do festival de cinema que está se afirmando no país. Quando começou se chamava Festa Internazionale di Roma e este ano mudou o nome para Festival Internazionale del Cinema di Roma. O evento está alçando vôos... mas a linha ideológica permanece a mesma: uma festa de cinema popular, com filmes que agradam o grande público (existe também o panorama “outro cinema”, com curadoria de Mario Sesti, que oferece ao espectador filmes mais experimentais). A premiação é decidida pelo voto do público e no ano passado o filme vencedor foi o americano “Juno”, de Jason Reitman.

Muito bem, e nesta história toda o que tem a ver o carnaval brasileiro em pleno outono na Piazza Navona? Pois bem, desde o ano passado o festival dedica um panorama à tradição de um determinado país. A intenção verbalizada pela curadora Gaia Morrone é a de recolher fragmentos que considera significativos da cultura deste país e apresentá-los ao público através de eventos cinematográficos e musicais, debates, mostras, etc. O ano passado o Focus foi a Índia e este ano esta sendo a vez do Brasilzão mostrar a sua cara para os gringos. Vai que é sua Brasil il il il ! Sejamos claros: em poucas palavras, esta sessão se mostra interessada em revelar o exotismo de países emergentes com quem a Itália mantém relações econômicas, sociais e culturais. Aliás, quantos imigrantes indianos existem no país? E brasileiros? A escolha da nação homenageada na sessão Focus não é, portanto, algo casual. Além disso, propõe de maneira ostensiva um olhar comercialmente vulgar sobre a vitalidade, a criatividade e a contemporaneidade na produção artística de nações classificadas como terceiro-mundistas. Não é à toa, portanto, que tais iniciativas sejam taxadas pelo próprio público europeu como “evento étnico” (termo inventado pelos anglo-saxões para deslegitimar as manifestações artísticas da periferia do capital).

Voltando ao Focus sul Brasilzão: qual seria a previsibilidade em um evento dedicado ao Brasil no exterior? Quais seriam as temáticas predominantes que se consideram dignas de serem as nossas porta-vozes internacionais? Futebol, favelas, samba, carnaval, bossa-nova e candomblé? Acertou. Além disso, Caetano Veloso para os mais cults. Esta é a festa do Brasil na Festa do Cinema de Roma. Predominantemente banal e financiada pelo Ministério da Cultura brasileiro e Ancine.

No que diz respeito ao cinema. Perante o quadro da produção cinematográfica abundante e plural que caracteriza nossos últimos anos (sábado foi publicado na "Folha de SP" que só a Mostra de Cinema de SP este ano está exibindo 70 filmes brasileiros), a curadoria romana, auxiliada pelos críticos brasileiros Pedro Butcher e José Carlos Avellar, priorizou documentários sobre nossos artistas e intelectuais. De 22 filmes selecionados para representar o Brasil em Roma, 15 são documentários dentre os quais 12 são focados em expoentes de nossa música popular brasileira e de nossa produção intelectual. Não pretendo de maneira alguma deslegitimar tais documentários de representarem dignamente o nosso cinema, e tampouco questionar as suas qualidades artísticas. A questão que merece ser apontada nesta seleção é a sua abominável ideologia: escolhas que explicitam o caráter didático e mercantilista da curadoria tendo por fim a exportação da música popular brasileira, principalmente, e a reiteração de nossos estereótipos culturais. Uma curadoria, portanto, que não pretendeu estimar o cinema brasileiro, que passou longe de Beto Brant, Karim Aïnouz, Marcelo Gomes e Lais Bodansky, para citar alguns nomes importantes da cena contemporânea, e preferiu investir na divulgação vulgar de expoentes (ainda que magistrais) da nossa cultura. Para se camuflar a sessão recebeu o timbre de Retrospectiva e está ostentando nas telas italianas todos os nossos estigmas, com a funesta desculpa de querer educar o público ignorante. A lista é farta: documentário sobre futebol, sobre Tom Jobim, sobre a bossa-nova, sobre Vinícius de Moraes; documentário sobre Paulinho da Viola, sobre Nelson Freire, sobre Sérgio Buarque de Holanda, sobre Tom Zé; documentário sobre o tal império baiano: Caetano Veloso, que também realizou um show na cidade, sobre Maria Bethânia e outro ainda sobre os Doces Bárbaros (além da ficção “Ó Pai Ó”, puro axé e exotismo no Pelourinho, produzido pela ex-mulher de Caetano, Paula Lavigne, que também assina a produção do documentário sobre o ex-marido); tem também documentário sobre Oscar Niemayer e sobre o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger, que apesar de tudo, é merecidamente homenageado com a exposição de suas fotografias realizadas no nordeste brasileiro nos anos 40 e 50.

Sei que vivo a contradição do meu nacionalismo. Não posso negar a ostensiva emoção que sinto ao reassistir a estes documentários em sala estrangeira, seja porque admiro a qualidade de seus discursos estéticos, seja porque revivo com eles a minha história cultural. Não posso ignorar o orgulho que experimento quando presencio a divulgação de meus ídolos conterrâneos em território internacional. Mas apesar de nacionalista não sou estúpida. Não posso concordar com a instrumentalização do cinema brasileiro, com a sua subjugação por uma curadoria pouco disposta a valorizá-lo e muito interessada em estigmatizá-lo. Apesar de patriota não posso consentir que fortaleçamos para as consciências internacionais o retrato do colonizado, como o define Albert Memmi em seu ensaio “O retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador”. Neste sentido, esta mesma curadoria possui duas inexoráveis facetas. Uma é a italiana, que reproduz o retrato do colonizador e não se constrange por isso. Ao contrário, faz questão de sublinhar o caráter étnico do evento. A outra faceta, no entanto, é mais grave: é aquela representada pelos membros brasileiros cujos nomes foram anteriormente citados. Essa curadoria tropical revela em si uma nociva e mítica contradição: ao selecionar obras que divulgam nossos artistas e nossa cultura no velho continente, ou seja, a ação quimérica de tentar extinguir nosso anonimato e nos inserir no centro do capital, tragicamente reproduziu o retrato do colonizado. O que esta curadoria fez através do nosso cinema foi enfatizar os estereótipos culturais que nos mantém atrelados à condição de nação colonizada, subdesenvolvida, e, portanto, à margem do capital. Na festa do Cinema de Roma o Brasil comemora o seu complexo de dependência, sua colonizabilidade. No carnaval do cinema de Roma não é dia de festa não senhor!

(Imagem: Urutu. Tarsila do Amaral, 1928)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

"Mamma Roma"


Mamma Roma. Pier Paolo Pasolini, 1962.

Um filme humanista

Mamma Roma é um filme notoriamente humanista que personifica na figura de uma prostituta e seu filho o drama do subproletariado italiano dos anos 60. A prostituta é Mamma Roma, interpretada por Anna Magnani. Uma mulher enérgica, explosiva, que sonha se libertar da opressão de seu cafetão e reaver um relacionamento profundo com seu filho Ettore. Mamma Roma saiu do campo e foi para capital romana. Lá trabalha numa banca de legumes e de vez em quando se prostitui por exigência de Carmine, o gigolô. Todo seu investimento financeiro e emocional é voltado para Ettore: matricula-o num colégio, arranja-lhe trabalho, compra-lhe presentes, dá-lhe dinheiro, cuidado, amor. Mamma Roma é a mãe apaixonada que se sacrifica por seu filho.
Ettore é um garoto abandonado de si mesmo. Não se interessa por nada que o mundo lhe possa oferecer. Larga a escola e o emprego que a mãe lhe arranjou. Caminha pela cidade com seu grupo de adolescentes marginais. A única coisa que mobiliza a personagem é a paixão que sente por Bruna, uma garota sexualmente liberada.

A narrativa se desenrola a partir da relação mãe e filho, dos conflitos, sentimentos e expectativas que surgem desse embate, considerando, evidentemente, tratar-se de personagens de baixos estratos sociais.

A história se passa na periferia de Roma. As personagens, assim como aquelas dos filmes neo-realistas, perambulam pelas ruas. Nessa perambulação, a câmera focaliza detalhes arquitetônicos e sociais da cidade: cortiços, ruas, praças, monumentos, comércio, etc. Alguns registros são quase documentais. É o caso, por exemplo, da cena em que Ettore vende os discos da mãe num comércio ilegal: o cenário naturalista e o modo como o comerciante negocia a mercadoria com o garoto ilustram uma realidade existente na então periferia de Roma.

O humanismo no filme transita entre a denúncia social e a busca de um sentido existencial para o homem. A denuncia social é explicitada pelas más condições de trabalho, moradia e assistencialismo que todas as personagens enfrentam. Seja Mamma Roma, sejam Biancafiore, os amigos de Ettore ou Carmine, todos são condenados por sua classe social. São marginais fadados ao sofrimento, à miséria, à morte. Por outro lado, o filme também apresenta um humanismo filosófico que, alicerçado na concepção de sacralidade, busca significados existenciais para o ser humano. A personagem que mais transita por essa investigação é Ettore. Ele é dono de uma pureza mítica, uma personagem desinteressada dos jogos e necessidades do mundo. Sua candura e romantismo atingem significado quando se envolve com Bruna e tenta protegê-la. Para Ettore, um possível sentido que sua vida possa ter está na paixão que sente pela garota. A cena mais representativa desse humanismo filosófico é a que Ettore dá a Bruna um colar de ouro. Após roubar os discos de sua mãe e vendê-los no comércio, Ettore compra o colar prometido para Bruna. Ao recebê-lo a garota olha o pingente e diz: “Nossa Senhora e o menino Jesus!” e o coloca no pescoço. Um plano próximo de seu colo mostra sua blusa decotada e parte dos seios aparecendo. Bruna é uma garota sexualmente liberada. “Todos conhecem a Bruna, até no Japão já ouviram falar dela”, comenta um amigo de Ettore. No entanto, o garoto em sua inocência simbólica entrega-lhe a Nossa Senhora com o Menino. Essa sacralização da personagem ilustra a visão que Pasolini tem dos marginais: embora veja neles a resultante mortificada das lutas sociais, reconhece, no entanto, que nesta aparente deterioração existe uma peculiar sacralidade.

A estética

O primeiro plano do filme é um plano médio de três porcos arrumados com laços e chapéu sendo empurrados por uma vassoura pelas mãos de uma mulher: é Mamma Roma, que em over diz: “Carmine!”. O plano seguinte é um geral da mesa da festa de casamento de Carmine em que se vêem muitos convidados. A voz over continua: “Carmine, mostra a sua esposa aos nossos irmãos!”. Então, Mamma Roma apresenta os porcos. Carmine responde: “Tá! Os irmãos da Itália?”. Mamma Roma ironiza: “Quê? Qual Itália?”. Essa primeira seqüência é contundente e de um teor político-ideológico forte. Os porcos são apresentados como parentes do noivo. Isso permite uma caracterização animalizada dos camponeses italianos. No entanto, em seguida, os porcos são apresentados como irmãos da Itália e a ironia que se estabelece no diálogo permite associar os animais a figuras de poder italianas. Mas essa idéia ainda é embrionária. Em 1970, Pasolini realizará Pocilga, onde vai relacionar diretamente os porcos à elite nazista (e fascista italiana).

Ainda na seqüência do casamento Pasolini constrói um diálogo a base de cantos. Quando Mamma Roma comenta que a missa católica deveria ser cantada, alguém diz: “Mamma Roma, cante alguma coisa”. Inicia-se então um diálogo cantado entre Mamma Roma, Carmine e Clementine, sua noiva. É um diálogo de ameaças, desabafos e provocações pessoais. É interessante que Pasolini, no início dos anos 50, escreveu um livro chamado “Il sogno di uma cosa” (publicado somente em 62) no qual recria numa linguagem poética o universo camponês, onde a canção tem um papel fundamental. A seqüência comentada acima resgata um pouco desse universo romântico e idealizado que Pasolini construía sobre o campo, presente em muitos poemas oferecidos à sua mãe (camponesa, nascida em Friuli).

A decupagem de Pasolini não valoriza a construção espacial. Em alguns momentos o espectador perde a noção do espaço da cena e a localização das personagens nesse espaço. É o caso da cena do casamento em que diversos planos próximos de pessoas conversando são intercalados com o plano geral do salão. Os planos próximos ficam soltos no espaço e não conseguimos localizar as personagens quando o quadro abre para o geral. No filme é recorrente a continuidade do discurso ser simultânea à descontinuidade espacial...
Outra característica marcante da decupagem de Pasolini é a valorização de closes nas personagens e o seu isolamento no quadro. Com exceção de alguns planos conjuntos, a maioria dos diálogos se dá em campo-contra-campo. São poucos os planos em que as personagens conversam no mesmo quadro. Essa característica, aliada a descontinuidade espacial, torna a montagem um elemento importante e fortemente presente na narrativa do filme. É o caso da cena em que Mamma Roma vai buscar seu filho no parque de diversões. De um lado existem os planos da mãe, e de outro, os do filho. Ela o vê e o segue. Ele anda e conversa com os amigos. Em seguida, mãe e filho conversam em campo-contra-campo. O fundo do quadro nunca é o mesmo. Mamma Roma e Ettore parecem, em diversos momentos, estarem em lugares diferentes. Não há sequer um plano em toda a seqüência que abarque conjuntamente ambas a personagens, situando-as no espaço. A montagem de Nino Baragli é estilizada e evidente. Em meados dos anos 60 Pasolini desenvolve o conceito de “cinema de poesia”, que, grosso modo, seria o cinema que transparecesse a sua linguagem, que evidenciasse seus mecanismos, principalmente a câmera e a montagem. Esta teoria foi proclamada pela primeira vez no Festival de Cinema de Pesaro em 1965 e está contida no seu livro “Empirismo Eretico”. Mamma Roma, no entanto, realizado em 1962, já é um filme poético. A montagem de Nino Baragli salta aos olhos, ainda que busque uma linearidade narrativa.

Uma seqüência importante do ponto de vista da linguagem fílmica e da construção dramática é a que Mamma Roma e Ettore dançam tango no quarto. É uma seqüência que se preocupa com a construção espacial, visto que as personagens percorrem todo o quarto. A maioria dos enquadramentos possui mãe e filho num mesmo plano, elemento escasso no filme, e dessa forma os diálogos se dão com as personagens abraçadas, próximas. É um momento de intimidade, amizade e cumplicidade entre elas. A música tema do filme, “Violino Cigano” na voz de Joselito, colabora para transformar essa seqüência num momento de lirismo e poesia.

Um plano-seqüência ímpar no filme é quando Mamma Roma sai às ruas para se prostituir. Ela está sentada com seu grupo de amigas quando impulsivamente se levanta e diz que vai embora. Mamma Roma começa andar e é acompanhada por Biancafiore. Depois Biancafiore se despede e se afasta. Entra no quadro um policial, que ocupa o lugar da amiga que se foi, ambos andam e conversam. Mamma Roma lhe conta a sua vida e em seguida o policial é substituído por outro homem, que caminha ao lado da personagem, continuando a conversa já iniciada. Por último, um grupo de quatro pessoas substitui o último homem e caminha com Mamma Roma até que a seqüência acabe. Durante todo o trajeto, enquanto Mamma Roma caminha e as personagens entram e saem de quadro, a câmera realiza travellings de afastamento e movimentos circulares que se aproximam de uma dança. O plano-seqüência dura quatro minutos e meio. A elaboração pictórica de Pasolini é ostensiva: as personagens, no primeiro plano, são iluminadas e destacadas de um fundo negro. Nesse fundo, dezenas de pontos luminosos provenientes dos postes de luz formam desenhos abstratos. A composição espacial é abolida. Conforme a câmera baila, o fundo do quadro parece adquirir liberdade e adquire movimentos ora mais velozes ora menos, com os flashes de luzes rabiscando no espaço fantástico. Essa é uma seqüência que faz jus ao conceito de “cinema de poesia”, já comentado acima.

O sagrado como condição ou destino de suas personagens é um traço marcante na obra de Pasolini e, especialmente, em Mamma Roma, Accattone, A Ricota, O Evangelho Segundo São Mateus, Gaviões e Passarinhos, O que são as nuvens?, A Terra Vista da Lua e A Sequência da Flor de Papel. Como já foi dito, Pasolini vê no subproletariado a resultante mortificada das lutas sociais aliada a uma pureza simbólica. Este sentimento do sagrado é explicitado por alguns elementos estéticos. A fotografia extremamente luminosa de Tonino Delli Colli é um deles ( Tonino também fez a fotografia de O Evangelho Segundo São Mateus, utilizando-se dos mesmos princípios de iluminação). O sagrado-figurativo também é evidenciado pelos enquadramentos que enfocam as personagens como figuras de arte sacra, como por exemplo, a cena do casamento de Carmine. O plano geral enquadra a mesa comprida com os convidados. A parede, ao fundo, possui uma decoração que simula uma porta ou um vitral circular típicos de Igrejas Católicas. É exagero dizer que o quadro ilustra a Santa Ceia, mas não é errado dizer que há uma sacralização na imagem. O momento de maior apelo metafísico é a última seqüência do filme, em que Ettore morre. O garoto foi pego em flagrante, roubando. Por isso vai para a prisão. Como está doente, fica numa ala para recuperação. Ao ouvir um homem cantando “violino cigano”, Ettore se emociona e reage impulsivamente querendo sair do lugar para se encontrar com sua mãe. Como punição pelo mau comportamento, o garoto é preso em uma solitária, onde passa a noite inteira. Ettore é amarrado deitado, com os braços abertos e as pernas unidas, lembrando Cristo na cruz. A sala é escura, e pela janela entra luz suficiente para iluminar a criatura, que grita, lamenta e chama por sua mãe. “Mamma , estou morrendo... por quê eles fizeram isso comigo?”. A montagem intercala planos de Ettore agonizando e planos de Mamma Roma pensando no filho preso. Na solitária, a câmera realiza três movimentos semelhantes que valorizam a composição sacralizada da imagem: ela sai de um plano fechado no rosto de Ettore e num trevelling de afastamento cria uma imagem da cruz em perspectiva e faz uma referência explícita à pintura quatrocentista de Andrea Mantegna: “Cristo Morto”. A cada movimento da câmera de Pasolini a condição física, psíquica e emocional do garoto é diferente, até que no último movimento Ettore já está morto. A trilha sonora de Vivaldi sacraliza ainda mais o momento. O espectador se sente comovido, apiedado. Ettore foi apresentado como um garoto carismático, dono de uma candura emblemática. A estrutura repressivo-social o eliminou, assim como fez com Jesus Cristo. O último plano do filme é Mamma Roma, desesperada com a morte do filho, olhando pela janela de seu apartamento a cidade de Roma. O que vê? Um plano geral fixo mostra prédios e construções romanas, uma cidade que está se expandindo para as periferias. Mas no centro do quadro, afirma-se impotente a Catedral de São Pedro. E Mamma Roma a olha com uma expressão desesperada, é como se questionasse sua fé ao mesmo tempo em que se resigna diante de Deus e do destino que lhe confiou.
É muito comum na obra de Pasolini o uso da alegoria e da metáfora. Em Mamma Roma se poderia dizer que a personagem que leva o nome do filme é a personificação da cidade de Roma, cujos filhos morrem como Ettore, oprimidos pela miséria e injustiça social.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A propósito de liberdade

O filme era de ficção, com roteiro definido e tudo o mais. Todavia, Pasquale possui um talento incrível para improvisar e roubar da realidade um material precioso. Fiz assistência de direção no seu filme que rodamos na Sicília no mês passado. Uma história de amor tragicômica que ironiza o catolicismo, mas não só. Um filme de humor cínico: dois losers, Maria e Manlio, são voluntários em uma paróquia e levam a hóstia à casa de velhinhos doentes. Eles vivem aventuras, descobrem o rock, a beleza. Surge entre eles uma história de amor torta. Em uma manhã, enquanto tomávamos o café, Pasquale decidiu: Vamos à casa de uma querida amiga. Se chama Betsy e tem 80 anos. Levamos a câmera e apenas um refletor de 1000. Vamos ver o que acontece. Chegando à casa de Betsy descobri que apesar de ser cega, manca, viúva e de morar sozinha, se vira melhor do que muito idoso por aí. Mas a solidão encontra sempre uma ocasião de esquive e a nossa presença ali destampou em Betsy a vontade de falar, falar, falar. Contar causos, cantar músicas, era um espetáculo de si própria feito a um público que ela não vê. Mamma mia, que personagem.

No filme, Maria, a protagonista loser, está apaixonada por Manlio, que a despreza. Quando vai à casa de Betsy entregar-lhe a hóstia e rezar a Ave Maria, Maria cai em prantos e pede conselho à velha senhora. Betsy foi orientada: finja que é realidade, que Maria é uma sua amiga e que está te contando um problema. Tente ajudá-la.

Pronto. Betsy, que não é atriz profissional, mas uma idosa em final de vida que se esquivou da solidão na ocasião, interpretou um personagem estupendo que, na verdade, era si mesma. Foi incrível. Era como se a ação de interpretar a libertasse da responsabilidade de seu próprio caráter. Como se a sua intimidade real legitimada pela câmera do cinema fosse transportada espontaneamente ao campo da ficção. Veio fora um diálogo impressionante e inesperado:

- Maria, você é uma pessoa doce, maravilhosa, sensível. Imagino o quanto está sofrendo por aquele cretino. Manlio! Que nome! Esse Manlio aí vale a pena é? Eu acho que não. Aposto que ele é duro de coração. É isso. Duro de coração! E quando um homem é duro de coração só tem uma saída: dar-lhe uma porrada e bye bye. Enche esse Manlio de porrada e vai embora cantando: Tu non sei l’amore... non sei l’amore... (uma canção italiana antiga muito popular).

Em outra cena, Maria está feliz porque Manlio a convidou para uma viagem que para ela é como se fosse uma lua de mel – fazer uma peregrinação com uma velha que está para morrer. E então Betsy lhe diz com a sua voz aguda de quem tem oitenta anos e usa dentadura:

- Ah Maria, que lindo. Uma viagem com Manlio! Estou contenta por você. Olha, faça a peregrinação direitinho e chegando lá agradeça a Nossa Senhora viu? Lembre-se de rezar e agradecê-la por tudo. Mas olha, vou te contar uma coisa: é claro que em uma peregrinação o sentimento cristão é o que interessa, rezar, agradecer a Nossa Senhora, mas sabe Maria, você não pode se esquecer que o sexo também é muito importante. É... sexo... sobre esse tal de sexo as pessoas nunca falam, você já percebeu? Nós, mulheres somos muito mal informadas sobre sexo você não acha? E as esposas então, coitadas, tenho dó! Na verdade o sexo é uma coisa muito importante Maria... claro, não é que eu saiba muito sobre ele. É uma pena! Sabe, na China existem laboratórios de sexo em que as mulheres vão e recebem informações, explicações, tudo! Aqui o que temos? Nada! Se eu fosse jovem eu pegaria imediatamente um avião para a China e voltaria para cá experiente, praticamente uma professora!

Foi um momento hilariante para todos nós, inesperado, vivo. Betsy foi aplaudida durante minutos, assovios e tudo o mais. Ela sorria, estava contente de ter interpretado, de ter sido reconhecida, nossa musa. E com timidez altiva nos revelou o sonho não realizado de ter sido atriz...

Entretanto, no dia seguinte, a velhinha nos ligou. Por telefone ponderou: Sabe, estava pensando que ontem fui incoerente no meu diálogo com Maria. Maria estava sofrendo porque Manlio não a amava. Mas não é com violência que se resolve essas coisas do coração. Não acho que Maria deve espancá-lo, mas tratá-lo com amor e respeito... Deve cantar assim pra ele: "non mi lasciare, amore, amore... dovunque andare ti cercherò..."( não me deixe, amor, aonde você for te procurarei... - uma música antiga italiana). E mesmo o sexo, penso que seja algo sagrado, ligado ao matrimônio... E por aí foi... Betsy, que não é atriz, mas uma idosa em final de vida que se esquivou da sua solidão naquela ocasião, estava em culpa de ter interpretado a si própria, decodificando improvisadamente a sua ideologia reprimida. Mas nesta contradição do ser, coabitando-se autor e personagem, Betsy optou por não legitimar-se. Pois é, terreno intricado para uma senhora: depois de oitenta anos de vida afrontou os valores culturais da sua sociedade. Não agüentou. A liberdade é um osso duro de roer...

sábado, 11 de outubro de 2008

dança (música)


MixwitMixwit make a mixtapeMixwit mixtapes

dança (texto)

A caixinha de música ficava ali, imóvel sobre a cabeceira da sua cama. Bastava que Margarida a abrisse para pegar alguma jóia nela guardada que Gymnopedie escapava, assim, apressada, sem nem pedir licença. Gymnopedie livre compassava o bailar do casal de madeira que rodava sobre o pequeno salão circular, isolado da realidade por uma estufa de vidro. Aprisionados, dançavam: ela em um vestido longo vermelho, ele em fraque. Quando menina Margarida assistia aos dançarinos esboçando neles o desatino de tornar-se bailarina. O defeito da perna. Não deu.

Margarida cresceu. Acreditava que teria por amante um homem elegante como o boneco de fraque que girava no salão da sua caixinha de música. Mesmo manca de uma perna sentia-se apta a dançar com ele por toda a vida. Gymnopedie lhes faria resvalar, ir, voltar, virar, revolver na enorme sala de vidro. Não deu. Gymnopedie traiçoeira, nefária, maldita.

Margarida envelheceu solteira com a caixinha de música sobre a cabeceira da cama. Foram setenta anos de longas noites em que a abria buscando distração: Gymnopedie fugida a conduzia por lugares quiméricos. Gymnopedie alquimista, utópica, fascinadora.

Naquela noite de menos três graus Margarida não conseguia dormir. Tossia, suava, passava, sozinha. Com a cabeça escorada em medos resolveu abrir a caixinha. Ela usava um vestido vermelho rodante. Um homem elegantemente a tomou nos braços, girando com ela pelo salão de vidro. A claridade cintilava nos detalhes do seu vestido que se agitava alforriado. Gymnopedie emancipada, bendita, serenava. A velha senhora não existia mais.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Pequenina


A menina agitada
Sente-se injustiçada
Quando lhe dão chá
Para se acalmar.
Não é de chá que ela precisa,
Nem maracujá ou homeopatia.
A menina deseja se tocar
Brincar com a mangueirinha do chuveiro.
O banho é o momento sagrado
Para a pequena
Se acalmar
Se conhecer
Se conquistar.


(Imagem: O Galo. Chagall, 1929)

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Parti para a Sicília depois de brindar com Birri


Reencontrei Fernando Birri, cineasta visionário, poeta, alquimista, idealista argentino que dedicou sua vida a fazer com que a América Latina pudesse (re)criar no cinema o seu próprio imaginário. Reencontrei-o depois de oito meses...entreguei-lhe a cópia do curta-metragem "O Sonho de Tilden", de Moara Passoni, em que Birri foi um dos protagonistas e eu dei uma força à produção na Itália. Depois de Veneza, da mediocridade em Veneza 2008, a utopia de Veneza 68, reencontrei Fernando Birri. Um encontro que me encheu de entusiasmo e fortaleceu minha identidade latino-americana. Do festival de Veneza trago as lembranças de Pasolini, Kiarostami, Denis e Agnès Varda, principalmente. "Les Plages d'Agnès" (As praias de Agnès), filme apresentado fora de concurso, explodiu Veneza em cores rebeldes. Filme vital, poético, político. Do Lido de Veneza ao bar Equador em Roma. Da ousadia de Agnès Varda à doçura e sabedoria de Birri. Dois idosos-juvenis, dois artistas políticos, a francesa do cabelo bicolor e o argentino da barba longa branca. Ela, mãe da nouvelle vague francesa, ele, pai do cinema novo latino-americano. De um salto à outro, encontrei algumas respostas, transfigurei em mim sensibilidades...
Birri me presenteou com seu último livro: "O Alquimista Democrático - por um novo, novo, novo cinema latino-americano". 35 anos de escritos teóricos e poéticos... Eu e Birri no bar Equador em Roma. A América do Sul em Roma. Não existe pecado do lado de baixo do Equador...Conversamos, dividimos, brindamos.
E agora estou partindo para a Sicília. Farei assistência de direção no filme do meu amigo Pasquale. Agnès e Birri: injeção de ânimo na veia. É a energia artística, intelectual, transgressiva, política e poética que o cinema tanto precisa.

PS - EM RAZÃO DAS FILMAGENS, VOLTAREI A POSTAR NO BLOG NO DIA 7 DE OUTUBRO
PS 2 - PARA LER A COBERTURA QUE REALIZEI EM VENEZA PARA A CINEQUANON, COM TEXTOS SOBRE O EVENTO, FILMES DE PASOLINI, KIAROSTAMI, AGNÈS VARDA, CLAIRE DENIS, ETC, E O BALANçO FINAL DO FESTIVAL CLIQUE AQUI: http://www.cinequanon.art.br/ E SEGUIR NO LINK FESTIVAIS E MOSTRAS

(Na foto, Fernando Birri no curta-metragem "O Sonho de Tilden", de Moara Passoni, exibido na ùltima edição do "é tudo verdade")


quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Parti para o Festival de Veneza

Estou partindo para a Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza com alguns amigos do Centro Sperimentale di Cinematografia. Parto munida de uma credencial “Industry Professional” que dentre alguns privilégios, tais como acesso ao Industry Office e descontos em restaurantes, proporciona acesso prioritário a diversas exibições e eventos do festival...

... Será um esquema alternativo de hospedagem: ficaremos acampados em Lido mesmo, em um camping não muito longe do complexo de salas da Biennale d’Arte...

...O que estou indo buscar em Veneza em 2008? Um diálogo com Veneza-68, que foi um marco significativo na história do cinema italiano e é um tema de estudo que particularmente me atrai...

PARA LER O ARTIGO NA ÍNTEGRA ACESSE O SITE: http://www.cinequanon.art.br/.
FAREI UMA COBERTURA DO FESTIVAL PARA A CINEQUANON O QUE SIGNIFICA QUE NÃO ATUALIZAREI O BLOG NESTES DIAS.
PARA ACOMPANHAR A COBERTURA CLIQUE: http://www.cinequanon.art.br/
Um abraço!

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Guimarães Rosa tinha razão


"Vaca no pasto é cachorro mastigando chiclete". Anahí Borges. Julho, 2008.

Vínhamos pelo Caminho de Santiago, deixando para trás o pequeno vilarejo rural, todo feito de pedras. A terra batida respondia ao excesso de sol levantando uma poeira densa feito farinha de rosca. Caminhávamos silenciosos quando encontramos a dita cuja. Uma senhora vaca, assim preta, assim grande, que espiava curiosa por entre as fendas do curral os peregrinos que passavam por ali. Os bezerros já estavam grandes o suficiente para estarem no canto por conta própria, a vaca queria mesmo é se socializar, mexer com aqueles que passavam ali a sua frente. Pecado que caminhavam apressados, não lhe davam atenção... os peregrinos do século vinte e um já são geneticamente motorizados. Nós paramos, e ali me lembrei de Guimarães Rosa.

Enquanto eu acariciava a cabeça da vaca percebi que ela parecia um cachorro... os cachorros que são assim, mexem a cabeça de um lado para o outro, para a frente, para trás, como se dissessem “Mais para cá”, “Agora mais para aqui”, “Isso, aí!”, orientando o trajeto das nossas mãos no gesto de afago e estampando na cara um prazer incontrolável. A vaca começou a me lamber: uma lambida de cachorro, alegre, afetuosa, histérica. Uma língua áspera que na ponta faz uma voltinha para fisgar o capim! Upa! A língua da vaca laçou o meu braço! Olé! E neste instante de comunhão ela me olhou, e dos seus olhos escorriam lágrimas em fluxo contínuo. “Felipe! Olha só aqui! A vaca está chorando!”. E Felipe, abandonando os bezerros que também estavam muito disponíveis para amizade, veio olhar a vaca que chorava. “Putz! É mesmo!”. E a vaca chorava, chorava, chorava...

Em “Sagarana”, de Guimarães Rosa, no conto “O Burrinho Pedrês”, um dos vaqueiros conta a história de um fazendeiro muito ruim chamado Madureira. Quando ele morreu, na noite do velório, os bovinos ficaram a noite inteira chamando no curral:

Os bois: “Ô Madureira, Madureira!”

As vacas respondiam: “Foi pros inferno, foi pros inferno!”

E assim repetiam durante toda a noite do velório. “Ô Madureira, Madureira!”, “Foi pros inferno, foi pros inferno!”

A vaca que conheci no Caminho de Santiago também se comunicava. Pela fenda do curral chamava amizades. E no íntimo de sua melancolia e abandono típicos da espécie, o ser se sentiu cachorro afagado, domesticado. Ser habitado. Chorou de emoção. E eu também chorei...

domingo, 10 de agosto de 2008

AVISO 2

CAROS,
DESCULPEM-ME, MAS ESTAREI SEM ACESSO à INTERNET ATé O DIA 24 DE AGOSTO...
UM ABRAçO!

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Samba da Compostela

"Entre as flores de Cacabelos", Anahí Borges, julho de 2008.

*Compostela: é um certificado no qual consta que tu peregrinaste à Santiago por motivos de piedade e devoção. É outorgado na Oficina do Peregrino se tu reúnes as condições para recebê-la. Será uma lembrança da tua peregrinação e do compromisso adquirido com Deus de ajudar a construir seu Reino.

(Definição presente no panfleto de informações ao peregrino distribuído pela Oficina do Peregrino junto à Catedral de Santiago de Compostela)

Tantas são as vivências, reflexões e questionamentos do indivíduo que faz o Caminho de Santiago. Possivelmente em outro texto desenvolverei algumas questões plurais e contraditórias que encontrei no percurso. Por ora, resta o samba que fiz para ironizar a mercantilização explícita deste caminho secular. Lojas de peregrinos que vendem o bastão do peregrino, o chapéu do peregrino, a camiseta do peregrino; restaurantes oferecendo o menu do peregrino. Os albergues lotados, as trilhas lotadas. A galera dos 100 km (para pegar a “Compostela” é obrigatório percorrer o mínimo de 100 km). Enfim, eu escrevi esta letra enquanto a revolta batia no peito feito tambor de escola de samba, e cantava-a para recuperar o alto-astral ameaçado. Pois é... É o ecoturismo mascarado aí gente! Vamos lá, é a galera Compostelense na avenida!

Samba da Compostela*

Compostela
Eu acordo, caminho, durmo pensando nela
O sol nem raiou e eu já estou na janela
Espiando as pessoas se vêm caminhando
Seguindo os rabiscos da flecha amarela

Compostela
Eu levanto apressado e já saio marchando
Quero ser o primeiro do bando andando
Vou de braços abertos pra ti
Compostela

Compostela
Faço dez, faço vinte ou trinta quilômetros
Paro só quando sinto o ronco no estômago
Paro para comer o menu do peregrino

São dez contos
Presuntinho, salame, tortinha e batata
De segundo vem um filezinho na chapa
Tem ainda o vinho e a sobremesa

Compostela
Eu mastigo, eu engulo só pensando nela
Pago logo la cuenta e já saio fudido
Quero recuperar este tempo perdido

Vou correndo
Com o meu mochilão, oito quilos nas costas
Quero ultrapassar a multidão ansiosa
Que veio pro Caminho na última etapa

Só pra ter
O tal certificado de participação
Ter você, Compostela, de Santiagão
Isto aqui é um negócio: peregrinação

E ainda
Se já não bastasse todo este esforço
Eu caminho, eu rezo, eu rogo, eu torço
Encontrar uma vaga para descansar

No albergue
São três contos, caminha e banho quentinho
Dormir cedo de noite e sonhar com anjinho
Para depois acordar só pra ti
Compostela

Compostela
Eu caminho, caminho, só pensando nela
Toda a cara suada
E o pé já com bolha
Minha pele queimada
Este sol tá lascado

E se chove
Isto aqui vira um caos
Água, vento e lama
Mas tu sabes fiel que é fiel não reclama
Vou de braços abertos pra ti
Compostela

quinta-feira, 17 de julho de 2008

AVISO

CAROS,
APROVEITANDO QUE AS REFORMAS TRABALHISTAS AINDA NÃO ENGOLIRAM DE VEZ O NOSSO DIREITO NATURAL E MORAL AO DESCANSO, INFORMO QUE ESTOU ENTRANDO EM FÉRIAS. PARTO PARA A VIA LÁCTEA, DE BUÑUEL, E ESTAREI SEM ACESSO À INTERNET... DE QUALQUER FORMA, VOLTAREI A POSTAR NO BLOG NO DIA 4 DE AGOSTO.
UM ABRAÇO!

terça-feira, 15 de julho de 2008

Projeção interrompida

O peito acossado, o coração debandado: é a tirania do belo. Já não posso mais. Não suporto mais amar ininterruptamente a beleza de Rita Hayworth.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

De Glauber Rocha


"Uma obra de arte revolucionária, um filme do Cinema Novo, deveria não só agir de modo imediatamente político, mas também promover a reflexão filosófica criando uma estética do eterno movimento humano em direção à unidade cósmica"

segunda-feira, 7 de julho de 2008

A carta-radical de Bertolucci


A Mostra Internacional de Veneza em agosto de 1968 foi um verdadeiro campo de batalha da classe cinematográfica italiana (e internacional), intelectuais, estudantes, artistas e jornalistas contra a entidade Biennale d’Arte e o então diretor da Mostra, Luigi Chiarini. O Festival de Cannes havia sido interrompido em maio em apoio à greve geral de trabalhadores e estudantes. Protestos, greves e contestações aconteciam na Europa e no mundo. Em Veneza, o denominador comum das declarações dos sindicatos e associações de cineastas e produtores, órgãos de jornalistas e instâncias representativas de estudantes era a reforma moral da Mostra de Veneza. Ou seja, a base dos protestos consistia no repúdio ao aspecto comercial-empreendedor do evento ( o oportunismo no desenvolvimento do turismo da cidade, o festival como ponto de encontro do capital financeiro internacional para o qual o aspecto cultural é apenas um álibi, o luxo do evento, etc). Além disso, as reivindicações assinalavam para a revisão do estatuto da Mostra (datada ainda dos anos do fascismo), para a superação do caráter litúrgico de premiação (ou seja, a ideologia mercantilista da competição) e para o desenvolvimento de uma linha cultural de vanguarda, de tutela e promoção ampla e efetiva do cinema de autor. Dentre tantas medidas políticas adotadas pelos manifestantes, o boicote de cineastas ao envio de filmes ao festival foi uma das mais polêmicas.

Diversas foram as ações, os momentos e as declarações neste período. Para hoje decidi postar no blog a carta que Bernardo Bertolucci publicou no jornal “L’Italia”, em 24 de agosto de 1968. Neste ano o seu filme “Partner” havia sido selecionado para ser exibido na Mostra. Uma texto franco e hostil, que representou a cisão do cineasta com o movimento cinematográfico italiano de então. Ao lê-la se entende que não é a toa que Bertolucci não seja tão admirado pelo público italiano, ainda que seja um ídolo para muita gente no exterior...

“Eu sempre considerei suicida e autopunitivo o fervor com que muitos de meus colegas decidiram contestar a Mostra impedindo a projeção de filmes. Impedir a projeção a Veneza sempre me pareceu um gesto grave, como queimar livros nas praças. Agora que a ANAC (Associazione Nazionale Autori Cinematografici) com o seu último comunicado alargou o horizonte dos seus objetivos, redimensionando aquele representado somente da Mostra de Veneza, agora que a ANAC fez da Mostra a plataforma para uma luta muito mais vasta, agora me declaro solidário com a ANAC. Não sei como reagirá Chiarini: que ele aceite ou não é somente graças à inteligência e à paixão de sua gestão que permitiu aos autores programarem uma ocupação de trabalho dentro do festival, em que poderão debater os seus problemas sem um clima policiesco. No mesmo momento, junto com o meu filme (Partner), entrego à ANAC a minha demissão enquanto sócio da Associação. As razões da minha demissão são muitas, mas posso resumi-las em duas:

1) O cinema italiano no seu todo é o mais qualquer coisa do mundo: não o amo, ao contrário, detesto-o. Por isso não posso fazer parte de uma associação que o consagra e lhe organiza as pouquíssimas qualidades e todos os defeitos;

2) Odeio com todas as forças qualquer forma associativa de tipo corporativista. Por que o cinema italiano, do qual eu também faço parte, junto com as instituições e com as estruturas não começa a contestar a si mesmo, isto é, o seu profundo provinciano-naturalismo pequeno burguês?”


(Declaração de Bernardo Bertolucci publicada no jornal “L’Italia”, 24 de agosto de 1968).

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Amor de passagem


“Calma aí! Tem uma senhora aqui!”. “Oh pessoal, cuidado com a velhinha!”. Já passava da uma da manhã e o ônibus, abarrotado, parecia estar cumprindo seu rush retardatário. Jovens retornavam de bares, turistas, do passeio, torcedores desanimados comentavam a derrota do time no campeonato continental. Em cada parada, novos passageiros forçavam a entrada, exaustos de haver esperado a ocasião de poder regressar a casa. Em cada novo ponto de ônibus, o discurso coletivo se repetia dentro do veículo: “Cuidado com a senhora!”, “Atenção aqui amigo, ôôu!”, e uma voz sufocadamente bem-humorada intervinha: “Hei gente, estou aqui embaixo, me vêem?”. No meio da multidão motorizada uma velhinha de 78 anos se tornou a protagonista de todos os afetos transitórios. Cabelos brancos presos com fivela, vestido florido e bolsa à tira colo. De tão pequena não atingia sequer a altura do meu busto. O ônibus ia apressado porque o motorista também havia esperado o dia todo para voltar a casa. Naquele anseio coletivo de retorno ao lar, um tombava sobre o outro, e nas curvas improvisadas todos pendiam em coreografia para o mesmo lado. E a velhinha ali embaixo, no centro do ônibus, todo o tempo a falar e rir em plongée. Fez-me recordar a minha avó, na fala e no gesto, e no regozijo tímido de se tornar o núcleo das atenções. A ternura me veio como picada de borrachudo e rapidamente se espalhou pelo corpo numa titilação de puerilidade. Durante todo o trajeto conversamos e nos divertimos, trocamos olhares e cuidados com cumplicidade familiar. Quando chegou o momento de eu descer, experimentei a tristeza de despedir-me de uma avó desconhecida, mas conhecida. Já na calçada, olhei o ônibus que se afastava e me arrependi de não ter pedido à velhinha o seu número de telefone, ou mesmo de não lhe ter perguntado sobre netos e as visitas de domingo. Enquanto o ônibus partia, percebi que já sentia saudades daquela senhora e entendi que o amor de passagem me transportou a outros viveres nostálgicos. Dentro do ônibus vi partir pela segunda vez a minha avó...

(Imagem: Women Running on the Beach. Pablo Picasso, 1924)

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Dos homens de temperamento sórdido


O império chinês está chegando...
Autoritário, neurótico, inumano.
São os filhos da Revolução Cultural de Mao Tse-Tung
e dos carros armados que comandaram, em Pequim,
o massacre na Praça Tienanmen em 4 junho de 89:
ao menos 1300 estudantes mortos.
As Mães da Praça de Tienanmen
lutam para que o governo revele o exato número de vítimas
e a versão oficial dos fatos daquela noite
que 19 anos depois ainda são tidos como segredos de Estado.

O reich chinês está chegando...
São os filhos do Socialismo de Mercado,
da mão-de-obra semi-escravista,
e da mais-valia rebatizada.
Estão ocupando as grandes cidades mundiais.
Comprando apartamentos, investindo em negócios vários.
Paris, Madrid, Roma, Berlim, Londres, Sidney, São Paulo, N.Y.
A neurose da rentabilidade e a histeria do consumo
caracterizam os filhos ocidentalizados da China Miliária.
Eles caminham pelo mundo com all star no pé e filmadora na mão,
capturam tudo o que vêem, devoram imagens e mercadorias.

No reich chinês o mandarim não será a língua oficial
porque os jovens filhos da Revolução Cultural de Mao Tse-Tung
querem mesmo é ser ocidentais.
O império chinês será o filho insurgente do império americano, que
preocupado, já está tentando desmoralizá-lo.
Por isso a liderança na campanha internacional a favor do Tibet.
Há sempre que desconfiar dos discursos libertatórios norte-americanos porque as reais entrelinhas são sempre metonimizadas:
Bin Laden, Saddam Hussein, Hugo Cháves, Farc’s, Irã nuclear...e Tibet.

O reich chinês será o filho insurgente do império americano;
E Bush, a bucha de canhão dos tanques armados dirigidos
contra os futuros protestos estudantis nas praças internacionais.

(Imagem: clássica foto de um rapaz à frente dos tanques a caminho da Praça Tienanmen, em Pequim)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O incesto simbólico de Pasolini


“Édipo Rei” de Pasolini, filme realizado em 1967, pretende ser fundamentalmente a elaboração de uma lenda, e não a ilustração de um mito. Esta lenda que Pasolini intenta construir em seu filme é a sua própria história, uma auto-biografia simbólica. Figurinos e cenários idealizados, constantes referências de uma cultura popular campesina, paisagens da região de Friuli, onde Pasolini passou a sua infância, e depois Bolonha, onde o artista começou a escrever os seus primeiros poemas. “Édipo Rei” evoca simultaneamente o mito (fatalidade) e o complexo freudiano (amor pela mãe) que são criações culturais cronologicamente distintas, mas que Pasolini sintetiza para resolver as suas contradições. Em “Édipo Rei” Pasolini se confronta com a literatura e a psicanálise, e com o seu próprio complexo de Édipo. O amor puro, obsessivo e mítico pela mãe é um dos sentimentos pasolinianos que mais me emocionam. A escolha do artista em ter a mãe interpretando a Virgem Maria em seu filme "O Evangelho Segundo São Matheus" é a metaforização explícita do seu afeto por ela. Um sentimento exposto tantas vezes, em diversas linguagens, mas infinitamente incompreendido pela sociedade italiana de então, catolicamente provinciana. Erotismo sacro e modernidade lingüística são marcas deste artista acossado, porque profético, humanista e homossexual.

Eu comentei sobre o filme para introduzir outra obra em que Pasolini declara seu amor incestuosamente sagrado pela mãe: é o poema “Supplica a mia madre”, presente no livro “Poesia in forma di rosa”, lançado pela primeira vez na Itália em 1964. Abaixo transcrevo o poema (traduzi ao português, mas deixo-o também em italiano, caso algum leitor o deseje ler na língua original). Com esta postagem cumpro a homenagem que há tempos queria dedicar ao sentimento incompreendido deste artista que admiro tanto.

Súplica a minha mãe, de Pier Paolo Pasolini

É difícil dizer com palavras de filho
aquilo que no coração se parece bem pouco comigo.

Tu és a única no mundo que sabe daquilo que no meu coração
existiu sempre, antes de qualquer outro amor.

Por isso devo dizer-te aquilo que é horrível reconhecer:
é na tua graça que nasce a minha angústia.

És insubstituível. Por isso é condenada
à solidão a vida que me deste.

E não quero ser sozinho. Tenho uma infinita fome
de amor, do amor de corpos sem alma.

Porque a alma está em ti, és tu, mas tu
és minha mãe e o teu amor é a minha escravidão:

Passei a infância escravo deste sentimento
elevado, irremediável, de uma diligência imensa.

Era o único modo de sentir a vida
única tinta, única forma: agora terminou.

Sobrevivemos: e é a desordem
de uma vida renascida fora da razão

Suplico-te, ah, suplico-te: não queiras morrer.
Estou aqui, sozinho, contigo, em um futuro abril
...

(Tradução: Anahí Borges. Imagem: Pasolini com a mãe)

Supplica a mia madre

É difficile dire com parole di figlio
ciò a cui nel cuore ben poco assomiglio.

Tu sei la sola al mondo che sa, del mio cuore,
ciò che è stato sempre, prima d’ogni altro amore.

Per questo devo dirti ciò ch’è orrendo conoscere:
è dentro la tua grazia che nasce la mia angoscia.

Sei insostituibile. Per questo è dannata
alla solitudine la vita che mi hai data.

E non voglio esser solo. Ho un’infinita fame
d’amore, dell’amore di corpi senza anima.

Perché l’anima è in te, sei tu, ma tu
sei mia madre e il tuo amore è la mia schiavitù:

ho passatol’infanzia schiavo di questo senso
alto, irrimediabile, di un impegno immenso.

Era l’unico modo per sentire la vita,
l’unica tinta, l’unica forma: ora è finita.

Sopravviviamo: ed è la confusione
di una vita rinata fuori dalla ragione.

Ti supplico, ah, ti supplico: non voler morire.
Sono qui, solo, con te, in un futuro aprile...

domingo, 22 de junho de 2008

Fim de romance



Era final de tarde. Havia um vento forte, daqueles que te faz perder o centro do passo. Levanta a saia, despenteia os cabelos, vira as páginas do livro carregado no braço. Eu caminhava titubeante quando vi um corvo que voava esquivando-se do tráfico aéreo de andorinhas. Na primavera mediterrânea as andorinhas se divertem em quotidianos malabarismos atmosféricos. O tal do corvo voava tranqüilo, as asas abertas e aplainadas estavam preparadas para uma eventual aterrissagem de emergência. Os corvos são animais sérios,frequentemente mal-humorados, e sempre em alerta. Naquele caos aéreo de andorinhas, o corvo se apaixonou por uma "corva" que vinha em sentido diagonal ao seu. Amor à primeira vista. Eu vi o seu esforço em tentar alcançá-la, mas o vento forte parecia boicotá-lo: o corvo ia, subia, descia, pendulava. A "corva" também se entusiasmou, mas igualmente não conseguia chegar até o seu companheiro. Eu vi quando os dois corvos ansiosamente apaixonados batiam as asas velozmente, agitadas, mas parados no lugar a menos de um metro de distância um do outro porque o vento forte os rebatia. Olhavam-se frente a frente e lutavam contra a ventania que instituía uma barreira transparente e autoritária na atmosfera primaveril. Até que desistiram, resignados, e cada um seguiu seu vôo. As andorinhas-acrobáticas se divertiam com o vento mediterrâneo. A primavera italiana é uma época lúdica, ligeira, perfeita à folia das andorinhas. Não é a estação propícia ao amor bem-composto dos corvos.

(Imagem: Campo de trigos com corvos. Van Gogh, 1890)

quinta-feira, 19 de junho de 2008

O tal luxo de Maria Rita Kehl

Claro que sinto saudades do Brasil! Mas se existe algo que categoricamente afirmo ser melhor aqui do que lá é: a possibilidade de estar tranqüilo pela rua. Mamma mia! Mesmo com as notícias bombásticas de violência diária promovidas pelos jornais de orientação berlusconiana para denegrir a imagem dos imigrados na Itália, fato é que em Roma existe a tranqüilidade em sair de casa. A cultura do medo e da violência que existe no Brasil é a minha escravidão, a neurose que inoportunamente disciplina a minha vida paulistana. Conversando com um amigo a respeito, que vivendo em Madrid também tem a mesma impressão, soube do texto de Maria Rita Kehl chamado "Você tem medo de quê?" no qual reflete sobre esta questão. É um texto essencial para se compreender como a tranqüilidade é considerada hoje um privilégio e que, na verdade, viver com medo que é uma grande humilhação. Abaixo transcrevo alguns fragmentos:

"Vou direto ao ponto: estive em Paris. Está dito e precisava ser dito, logo verão por quê. Mas é difícil escapar à impressão de pedantismo ou de exibicionismo ao dizer isto.
Culpa da nossa velha francofilia (...) Se eu disser “fui a Paris”, o interlocutor responderá sempre: “que luxo!”. E se contar: “fui assaltada em Paris”, ou “fui atropelada em Paris”, é bem provável que escute: “mas que luxo, ser assaltada (atropelada) em Paris!”".
(...)
"É um verdadeiro luxo, Paris. Não por causa do Louvre, da Place Vêndome ou dos Champs Élisées. Nem pelas mercadorias todas, lindas, chiques, caras, que nem penso em trazer para casa. Meu luxo é andar nas ruas, a qualquer hora da noite ou do dia, sozinha ou acompanhada, a pé, de ônibus ou de metrô (nunca de táxi) e não sentir medo de nada. Melhor: de ninguém. Meu luxo é enfrentar sem medo o corpo a corpo com a cidade, com a multidão".
(...)
"O artigo de luxo que eu traria de Paris para a vida no Brasil, se eu pudesse – artigo que não se globalizou, ao contrário, a cada dia fica mais raro e caro – seria este. O luxo de viver sem medo. Sem medo de que? De doenças? Da velhice? Da morte, da solidão? Não, estes medos fazem parte da condição humana".
(..)
"O luxo de viver sem medo a que me refiro é bem outro. O de circular na cidade sem temer o semelhante, sem que o fantasma de um encontro violento esteja sempre presente. Não escrevi “viver numa sociedade sem violência”, já que a violência é parte integrante da vida social. Basta que a expectativa da violência não predomine sobre todas as outras". (...)

PS – para ler o texto na íntegra clique: http://www.mariaritakehl.psc.br/resultado.php?id=175

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Caminho de Kiarostami


"Caminho de Kiarostami com cachorro no Parco Appia Antica". Anahí Borges, Roma, 09.06.2008

Passei pela Via Camilla e as ameixas ainda estavam lá, penduradas nos galhos da árvore. Por quê será que ninguém sobe no pé para colhê-las? Havia algumas que bastava só esticar o braço para pegar. O mesmo com a mexerica poncán e as amoras. Por Roma existem espalhadas diversas árvores de frutas: ameixeiras nas calçadas, amoreiras nas praças, nos parques, mexeriqueiras nos canteiros do meio das avenidas. Fruto carnudo, suculento, parece doce. Dão às pencas e o peso faz os galhos caírem na altura dos olhos de quem está caminhando por ali. Adultos que vão para o trabalho, jovens para a faculdade, crianças para a escola, idosos que passeiam no final da tarde com o cachorro: as pessoas passam e as frutas permanecem lá, intactas, abandonadas, apodrecidas. Não sei se esta é uma conduta cultural - a fruta na rua é enfeite da cidade e comida de passarinho -, ou se é um gesto-síntese da vida moderno-urbana, categoricamente divorciada da natureza, e que, portanto poderia se manifestar em qualquer outra metrópole. Se assim o é, ousaria dizer que não sou uma pessoa urbana, ou melhor, que a minha urbanidade há necessidade-imperativa da natureza. Talvez por isso goste tanto dos filmes de Abbas Kiarostami, porque conjugam melancolia bucolista com manifestações modernas (de urbanidade precária) – cidade, asfalto, cinema, automóvel. “O Vento nos Levará”, “Através das Oliveiras”, “O Gosto da Cereja”, “A Vida Continua”... Quando ando pelos lugares, volta e meia encontro um caminho de Kiarostami e começo a imaginar as personagens de seus filmes percorrendo-o a pé, correndo, ou dentro do automóvel contemporâneo. Nos enquadramentos de Kiarostami: o encontro do homem com a natureza.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Um americano em Roma


É, sem dúvida, uma comédia italiana inesquecível. Dirigida por Steno em 1954, “Um Americano em Roma” conjuga comicidade e afiada sátira de costumes. No Pós-Segunda Guerra Mundial, a Itália renasce com o capital americano. A imagem da força, riqueza e liberdade dos norte-americanos que desembarcaram na Itália no final da guerra permanecerá por anos na mente dos italianos, definindo um novo desenho para os costumes do país. A cultura itálica se americaniza e Alberto Sordi interpreta no filme a personagem hilariante de Nando, um italiano-americanizado, que na impossibilidade de se mudar para os Estados Unidos contextualiza os seus hábitos importados em Roma. Roupas, músicas, gestos, baseball, comida, Nando vive como um ianque, como se estivesse dentro de um filme hollywoodiano.

Um americano em Roma. 68 anos depois...

O Bucha de canhão chegou! O Bucha de canhão chegou!

O presidente dos Estados Unidos chegou a Roma esta manhã, o que gerou um caos por toda a cidade. Trânsito, bloqueios, polícia - medidas de proteção necessárias para o chefe de Estado mais detestado do mundo. Buzinas e apitos pareciam ser as armas de um enorme cortejo de manifestação contra a sua presença, mas rapidamente revelaram ser a impaciência do trabalhador-romano-médio parado tanto tempo no trânsito. Contestação? Até que teve, mas singela, grupo pequeno, simbólico. O italiano-médio, há 68 anos americanizado, votou em Berlusconi na eleição de abril, e por isso o Bucha de Canhão está em Roma: para formalizar as alianças entre ambos os países. O Corriere della Sera de hoje comentou sobre a antiga amizade e alinhamento entre Bush e o Berlusca. E, sinceramente, o premier italiano nunca escondeu seu talento em ser um americano-médio.

Um Bush em Roma está negociando com Berlusconi a “questão nuclear do Irã” e a manutenção do seu Império. Durante seu encontro com alunos italianos bolsistas na American Academy, o presidente ianque disse sobre seu país e sua política: “infelizmente existem muitas representações caricaturadas, muita ignorância e propaganda”. E prosseguiu: “A verdade é que somos um país solidário e aberto, e temos no coração o destino das pessoas...” (Publicado no Corriere della Sera). Esta frase caberia perfeitamente na boca de Alberto Sordi interpretando o presidente dos Estados Unidos em uma comédia italiana clássica. Mas infelizmente o Bucha de Canhão não é ficção, embora tudo o resto o seja: Bin Laden, a luta ao terrorismo, as justificativas para a atual intervenção na América Latina contra as Farc, a razão de ser do Plano Colômbia, a utilidade da 4ª frota na América Latina do Comando Sul das Forças Armadas dos EUA, etc. Tudo ficção, falsidade, manipulação... Tragédia! Melodrama! Ação! Suspense! Terror! O Bucha de Canhão não tem mesmo talento para comédias. . .

terça-feira, 10 de junho de 2008

Gay Pride 2008.d.C


A 14ª edição do Gay Pride romano aconteceu no último sábado e reuniu 500 mil pessoas. Durante toda a semana alguns focos de tensão pontuaram a relação das entidades de representação GLBTS com o novo governo de direita de Gianni Alemanno , candidato pela Coligação de Berlusconi e eleito prefeito de Roma em abril. Dentre algumas questões denunciadas por membros da organização do Gay Pride como medidas políticas retrógradas e moralistas desse novo governo estavam : a solicitação para que os manifestantes se comportassem bem na passeata, vestindo-se adequadamente, ou seja, nada de nudez e exageros cromáticos e a modificação do tradicional percurso do evento. A mudança de trajeto foi justificada pelo fato de que a Basílica Laterana, situada na Piazza San Giovanni, habitual ponto final da manifestação, realizaria uma apresentação do seu coral às 20.30h e, deste modo não cairia bem misturar os guetos.

Enfim, e apesar de tudo, o Gay Pride aconteceu. Manifestantes recordavam no alto falante dos carros de som que o Vaticano é um Estado autônomo dentro do território itálico, e que, portanto, a Itália deveria se libertar da escravidão católica. Caminhar aos gritos de liberdade e igualdade pela Via dei Fori Imperiali, atravessando as ruínas do antigo Império Romano, o Coliseu, templos, arcos, e tantos outros monumentos históricos é uma experiência peculiar, caótica, mística. Marchar ao som da música eletrônica e da aclamação política intercaladas com os sinos de tantas igrejas que badalam pontualmente às 17h e 18h é sem dúvida uma vivência insólita. Centenas de turistas nas calçadas, parados, obcecados em tirar fotos. Manifestantes e monumentos históricos eram uma coisa só aos olhos dos turistas consumidores de imagens. Europeus e chineses com suas câmeras fotográficas e filmadoras se misturavam com jornalistas e repórteres que transmitiam o evento ao vivo pela televisão. A passeata teve seu fim na Piazza Navona, onde inclusive está o palácio de estilo neo-clássico da Embaixada Brasileira. No palco montado, o evento foi encerrado por representantes de diversas organizações GLBTS que hastearam suas bandeiras de lutas e energicamente proclamaram discursos em defesa da paridade e dignidade sexuais e pela laicidade do Estado.

Jogado no chão, entre os paralelepípedos da praça, encontrei um flyer de uma organização chamada gaytoday. Transcrevo-o logo abaixo, exatamente como é, com as suas sete cores:

Todos os gays são sensíveis
Todas as lésbicas são caminhoneiras
Todos os gays são ricos
Todos os filhos de gays serão gays
Todas as trans são prostitutas
Todas as lésbicas têm as unhas curtas
Todos os gays são de esquerda
Todas as lésbicas jogam futebol
Os bissexuais não existem
Todos os homofóbicos são heteros
Todo Gay Pride é carnaval
Os gays [NÃO] são todos iguais!
E você, que gay é?

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Sobre "Gomorra"

O filme de Matteo Garrone adaptado do best-seller italiano "Gomorra", de Roberto Saviano, foi contemplado no último Festival de Cannes com o Grande Prêmio da Crítica. Na Itália o filme está sendo um fenômeno: até o último domingo, "Gomorra" já havia acumulado uma bilheteria de 6.630.000,00 euros.
Escrevi um artigo sobre o filme na Cinequanon.
Clique: http://www.cinequanon.art.br

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Gânsgster Van-Goghiano

Encontrei-o no metrô e já estava faltando um pedaço da orelha. Bem aqui, sabe, no altinho. Aqui ó: nessa parte durinha. Havia um corte diagonal, perfeito, e faltava um pedaço no alto. Arriscaria dizer que levaram embora um quarto da sua orelha, não sei não. O homem tem cara de quem usava um piercing ali, uma argola, um brilhante, mas agora não pode mais usar. O talho era perfeito, reto, profissionalmente cirúrgico, parece que foi feito com uma serra elétrica de fatiar o pernil de Natal. Quando o encontrei ele estava de pé, parado na porta do trem com o olhar fixo nas coisas que passavam velozes do lado de fora. Todos ali ao redor olhavam curiosos a sua orelha sem pedaço e reconstruíram em silêncio um filme privado na mente. Talvez ele já tenha nascido assim, mutação genética mesmo. Ou então o piercing que usava na orelha inflamou, cancronou e tiveram que arrancar o pedaço zuado. Para boxeador o sujeito não tem porte e dizer que morderam um pedaço da sua orelha no ring não convence. A autopenitência ao cortar a própria orelha como Van Gogh, é possível, não descarto. Mas se tenho que escolher, de todas as possibilidades narrativas fico com o filme de gânster e na minha tela gigante (wall to wall) esse personagem é ligado à Camorra e aquilo ali foi tortura...

domingo, 1 de junho de 2008

Eu no quadro de Gauguin


Improvisadamente aconteceu que de roteirista passei à atriz do curta-metragem que rodamos esta semana. Uma história ambientada em um camping, personagens icônicas, mitológicas, quadros fixos coloridos, mundo pictórico. Meu amigo Pasquale, o diretor, possui o imaginário Pasolini-felliniano. Bellissimo! Escrevemos o roteiro em um processo amistosamente colaborativo no qual participamos: dois roteiristas, o diretor e o montador. No set, o fotógrafo reclamou da presença inútil dos roteiristas. O montador também no set. Raridade! “Mah che cazzo! A che servono questi?”. E a trupe unida não arredava o pé. E eis que a atriz que faria a mulher saindo da barraca não veio, e sobrou para mim! Assim como o ator que faria o bêbado não compareceu e sobrou para o outro roteirista interpretá-lo, resultando uma personagem incrível.

A câmera Arri 35mm apontada na minha cara, dezenas de pessoas ao redor me olhando. Minha primeira imagem estampada em 35, improvisada. A claquete. Azione! Realizamos o curta no Parco dell’Acquedotto onde Pasolini filmou o Mamma Roma há mais de quarenta anos. Eu estava ali no set utilizado uma vez pelo meu ídolo-amado-sagrado. Meu coração debandado. Eu deveria estar olhando o camping que amanhecia em um dia de sol. Improvisei um chiclete, o galhinho de grama era a minha distração, inventei alguém que passava e meu olhar matinal que a acompanhava, me lembro do vento e da minha vontade tímida de rir.

Funcionou, o pessoal gostou. Sério mesmo? Perguntei insegura. Disseram que a composição da imagem parecia um quadro do Gauguin. E então refleti sobre esse meu não fazer nada que resultou num gesto minimalista espontâneo, e que deu certo. O minimalismo é para mim a grande força no cinema. Estar ali foi uma experiência particular de pensar, através da vivência, no detalhe na imagem em um plano próximo: cada pequeno gesto pode ser um exagero, e o diretor que trabalha com um ator na chave do “agora vamos interpretar” é aquele que mata o cinema. Depois que eu e o Andrea substituímos os atores ausentes, Pasquale ainda brincou com o fotógrafo que reclamou da nossa presença no set: “É, viu, até que é útil haver roteiristas no set”. E todos riram.

(Foto de Mauro Rossi)

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Brasileiro sim Sinhô!

Sexta-feira acalorada, o verão disfarçado de primavera. Estávamos em seis amigos tomando uma cerveja na tradicional cervejaria de Roma: Peroni. Estávamos animados conversando sobre cinema e os filmes italianos indicados este ano à Palma de Ouro em Cannes. Em determinado momento escutei o som do português. Ao meu lado, um senhor de uns 65 anos pedia à minha amiga a toalha de papel que cobria a nossa mesa porque nela estava estampada a história daquele lugar, com fotos e tudo o mais. “io quero esto papel! Quero fare um quadro com ele!”. Eu me virei imediatamente para olhá-lo no rosto. “Posso signorina, pegare esta toalha come lembrança?”... Aquele som do português... há algum tempo não o ouvia assim, pela rua, por acaso. Eu olhava aquele rosto e aquele som... demorei a compreendê-lo, a acreditar nele. Edward Said que analisa em seu ensaio “reflexões sobre o exílio” a emoção e o estranhamento característicos quando dois estrangeiros de uma mesma nacionalidade se encontram no exterior (depois de algum tempo de “exílio”).

Abre parênteses: no primeiro de maio italiano houve um show para os trabalhadores organizado pelos sindicatos nacionais. Eu não estava muito a fim de ir porque não queria nem assistir aos artistas da televisão subindo ao palco para fazer discurso proletário nem escutar a típica música enlatada destinada a tais eventos representativos da política do pão e circo (como a festa da Força Sindical em SP, por exemplo). Mas em determinado momento, mesmo sem ter conferido a programação, decidi dar um pulo na festa para ver, afinal, como era. Chegando à Piazza San Giovanni senti ecoando uma voz conhecida cantando samba-rock. Em Roma? Não, não, estou delirando. Isso se chama saudade... Pensei. Dois dias antes havia acontecido em São Paulo a Virada Cultural em que Jorge Benjor, meu ídolo-amado, havia feito um show inesquecível, super alto-astral, que soube porque li nos jornais. Como eu queria ter estado na Virada Cultural. E neste show! Enquanto eu me aproximava do palco montado na Piazza San Giovanni aquele samba-rock ficava cada vez mais alto, e contraditoriamente, mais incompreensível para mim. Até que no telão vi projetado em close-up o rosto do meu herói com aqueles óculos escuros redondos, seu charme! Cantava moro, num país tropical... “Meu Deus, mas esse cover é mesmo fantástico”, pensei. “Mas será possível que seja ele mesmo?”. “Mas esses óculos escuros, é a sua cara!”. “Essa voz...Meus Deus! É mesmo o Jorge Benjor!!!!” .... E então pulei, dancei, me acabei no chão daquela praça romana.

Fecha parênteses. Assim como demorei a acreditar naquele brasileiro que cantava na festa do primeiro de maio, demorei a entender o senhor ao meu lado que pedia a toalha à minha amiga. “Mi scusi signore, ma da dove viene?” perguntei-lhe, porque poderia ser que viesse de Portugal, quem sabe. “Do Brasil”, me respondeu! “Eu também sou brasileira!”, disse-lhe entusiasmada e então tudo virou festa! Ele estava de saída, a esposa parada na porta com o casal de amigos esperava que resolvesse logo o lance da toalha de papel. Mas naquele momento o senhor havia tido uma crise histérica de alegria, queria um copo para brindar conosco, exalava brasilidade, disse que mora no bairro da Lapa, em São Paulo. Naquele momento o garçom chegou com as cervejas que havíamos solicitado há pelo menos meia hora atrás. O senhor insistiu que queria um copo para brindar conosco. “Mah, siete brasiliani?”, perguntou-nos o garçom cabo-verdiano. “Sim, sim, somos!”, respondemos-lhe. “Ecco! Sono brasiliani, sono brasiliani!” e de repente do meio do salão chegou um garçom italiano que fez um batuque na nossa mesa enquanto o garçom cabo-verdiano cantava um samba do Cartola, com seu sotaque português de Portugal: “Aconteceu, eu não esperava mas aconteceu, todo o bem que fiz se quiser esquecer...”. Ali, de repente, no canto da mesa do tradicional Peroni em Roma um samba acontecia, realizado por brasileiros, italianos e um cabo-verdiano. Improvisado, inusitado, excêntrico. Depois do último acorde, os garçons retomaram o serviço, o senhor se despediu alegre e partiu esquecido da toalha de papel. Na mesa, o silêncio. Todos restamos com a melancolia daquela suspensão espaço-temporal interrompida. Estávamos novamente diante de nossas cervejas para falar de cinema. Então Guido tomou a decisão: “Dopo di questo ragazzi, vi propongo un brinde al Brasile, a questa terra meravigliosa!”. E assim, brindamos.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

As 140 ovelhas

Eu passeava pelo Parco dell’Appia Antica quando de repente no meio do meu caminho vi dezenas de ovelhas. Este parque é uma grande reserva arqueológica em que adultos que fazem esportes diários convivem com crianças que brincam nos playgrounds e animais que pastam no capim: vacas, cavalos, carneiros. É o parque mais heterogêneo e surpreendente de Roma, e nos finais de semana ensolarados as famílias se reúnem ali para um pic-nic, e os homens, para a partida de futebol. E naquele dia em que eu passeava distraída pelo gramado do parque me deparei com cento e quarenta ovelhas.

Bééééé... Começavam a trocar sinais entre elas. Bééééé... O que deveriam fazer? Eu é que pergunto. Será que continuo meu caminho, indiferente a tudo isso, e atravesso pelo meio do grupo ou é possível que alguma delas me ataque em legítima defesa? Bééééé... Claro que era uma aventura para mim, aquele amontoado de bola de lã impedindo a minha passagem e eu tendo que tomar fôlego para assoprá-los, com medo de que o vento acabasse por trazê-los de volta. Bééééé... Quando movi o primeiro passo levantaram as cabeças, acentuaram o grito e se aproximaram para me atacar. Bééééé... É agora! Pensei. Mas para a minha surpresa esses animais estavam, na verdade, abrindo alas para eu passar: ovelhas, carneiros e carneirinhos estavam todos trepidantes e agrupados abrindo uma pequena fresta no caminho para que eu os deixasse em paz.

Enquanto eu passava pelo meio das cento e quarenta ovelhas percebi que o som do seu balido é semelhante ao som do lamento de uma criança. Béééé... quase um choro. A ovelha é um animal amedrontado, geneticamente submisso. O processo histórico da espécie é marcado pela opressão e violência, e como conseqüência esses animais já têm incorporados em si o susto e a hesitação. O corpo que se movimenta em atinada fuga e o típico olhar com o rabo do olho é a expressão mecanizada do antigo alarme de sua espécie. Naquele momento senti pena das ovelhas e dos seus corpos carentes de qualquer elemento de defesa (chifre, crista, dentes afiados). Recordei-me da galinha do conto da Clarice Lispector, que depois de sua fuga corajosa e atrapalhada, e de se tornar a adorada rainha na casa daquela família, acaba tendo o fim tìpico de uma galinha, cuja espécie também é mecanicamente amedrontada: na panela.

domingo, 18 de maio de 2008

As janelas abertas


(Trigêmeas. Anahí Borges, 15.05.2008)


(Melancolia. Anahí Borges, 15.05.2008)


(Estação do trenzinho urbano no Quarticciolo. Anahi Borges, 15.05.2008)


(Roupas com vento. Anahí Borges, 15.05.2008)

As duas mulheres não paravam de falar um minuto sequer: era Giuseppe que estava namorando uma moça de má índole, era a prima que começou a freqüentar os ambientes grosseiros das discotecas romanas, e depois passou a ser Francesca que havia se tornado rebelde e não queria mais ir à missa. Mah, quella crede di non essere più cattolica, vedi! Mãe e filha, 60 e 30 anos de idade, uma já tem os cabelos brancos enquanto a outra tem alguns quilos a mais. Conversavam alto, sentadas na calçada, enquanto todos os demais passageiros aguardavam impacientes a chegada do ônibus que já estava quinze minutos atrasado. Finalmente o 451 saiu da Piazza Cinecittà, lotado de gente, e seguiu sentido Quarticciolo, bairro da periferia de Roma. Durante todo o trajeto, mãe e filha continuavam em bom tom o seu discurso sobre a vida alheia e sobre a vizinha que havia engravidado de um rapaz que não queria assumir a criança. Em determinado momento esta mãe se desentendeu verbalmente com uma senhora sentada ao seu lado, fato que chamou a atenção de um rapaz que de sopetão interferiu na situação a fim de apaziguar as partes. A mãe se alterou ainda mais e começou a xingar o rapaz, afinal, nem italiano ele era e que direito havia de se intrometer na discussão entre senhoras italianas? Pouco depois a filha interveio para defender a mãe do rapaz que não era italiano e que a acusou de ser racista. Pena ele não haver compreendido logo que as mulheres tinham razão, diziam elas, pois tanto a filha como a mãe nasceram na Itália e ele, ao contrário, veio da Romênia, além disso, disse a filha, sua família abita naquela região desde os tempos de Mussolini, quando o avô veio do sul para trabalhar na cidade. Assim, o Quarticciolo é o seu lar, extensão da sua própria casa, fato este que legitima, segundo o direito natural à propriedade, a interferência seja da mãe seja da filha nas dinâmicas presentes naquele espaço físico-urbano. Na parada Molfeta, quase coração do bairro-Quarticciolo, as duas mulheres saíram do ônibus sem olhar para trás. Conversavam ainda de modo enérgico, como já haviam feito na Piazza Cinecittà, mas naquele momento não se sabia exatamente o assunto, se era sobre o rapaz romeno que as acusou de racismo dentro do 451 ou sobre o filho de Antonello que virou traficante, colaborando para a decadência do bairro.

Esta situação aconteceu ontem à tarde, enquanto eu pegava o ônibus para andar até este bairro para tirar fotografias. Assim, o Quarticciolo possui na figura destas duas mulheres uma possibilidade de síntese representativa do que poderia ser definido como a sua dinâmica sociológica provinciana. Apartamentos colados, separados por paredes finas através das quais todas as vozes e todos os sons atravessam tranquilamente, convivendo juntos, formando teias de comunicação direta e indireta entre os moradores, informações que extrapolam qualquer conceito de fronteira e privacidade. As senhoras conversam entre si debruçadas em suas janelas, trocam confidências e utensílios domésticos, emprestam o ouvido para a vizinha que precisa desabafar um problema ou um pouco de açúcar para que faça uma torta. Sons, olhares, objetos e falas perpassam paredes e janelas das cores e formas do Quarticciolo, fazendo da comunidade um corpo único formado por dinâmicas consolidadas, valores sociais estabelecidos e o desejo de poder e controle sobre o outro como potencialidade a ser exercida por cada membro desta rede social.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

África - 68

Hoje começou a 61ª edição do Festival Cannes. E de pensar que exatamente há 40 anos este mesmo festival foi interrompido à metade em razão do apoio de cineastas como Godard e Truffaut à greve geral de estudantes e trabalhadores em Paris. Maio de 68: a baliza contemporânea de contestações e mudanças em escala mundial. Quando se fala neste período brilha o protagonismo europeu, seguido daquele ianque, do latino-americano e do asiático. Mas e a África? Por que quase não se fala do Maio de 68 neste continente? Como se manifestou no cinema africano, por exemplo, essa nova onda revolucionária?

No momento em que no ocidente se questionava os antigos valores culturais e, sob o entusiasmo do existencialismo, um marxismo mais contestatório repensava a cultura ocidental, da outra parte do Mediterrâneo novas sociedades estavam empenhadas em construir e não em desconstruir as suas tradições. Uma África neocolonizada, neomassacrada, neodividida, estava consolidando sua independência e a definição de uma identidade se apresentava como a sua maior urgência. Marrocos e Tunísia (independentes em 1956), Argélia (sanguinária guerra de libertação em 1962). O cinema africano nasceu militante, num acerto de contas com a dominação européia e acenando aos novos governos nacionais, às novas democracias.

A maior parte dos países, do Senegal à Mauritânia, da Costa do Marfim à Nigéria, do Camarões ao Congo, vê nascer seu próprio cinema nacional, em contornos e estilos ainda incertos e precários. Cinematografias que redesenham as suas mitologias, que problematizam o social, que reiventam seus discursos políticos. O recém-nascido cinema africano maghrebino nos anos 60 e 70 justifica sua linguagem retórica e precária (no quesito tecnológico e de construção do discurso narrativo consolidado há então 50 anos) ao fato de ter sido instrumentalizado pelos novos Estados em seus projetos institucional-nacionalistas.

Muitos autores da África sub-sahariana, entretanto, foram influenciados pela revolução cultural do Ocidente, visto que estudaram na França ou na União Soviética, ou mesmo a experiência da imigração constituiu por si só um estágio cultural. “África sobre o Senna”, filme realizado em 1955 por Paulin Soumanou Vieyra com alguns amigos senegaleses é considerado o primeiro filme feito por um africano. A obra conta a história de vida de um grupo de estudantes africanos em Paris, construindo questionamentos sobre os choques culturais. De temática semelhante é o filme “Concerto para um exílio”, 1968, de Desiré Ecaré, da Costa do Marfim. O cineasta mais renomado deste período foi Sembene Ousmane, escritor senegalese que se tornou o pai do cinema africano. Sembene emigrou para Paris muito jovem, trabalhando muito tempo em sub-empregos até filiar-se ao Partido Comunista Francês em meados dos anos 50 e depois consolidar sua carreira artística. Menos cerebral que seus colegas franceses engajados, o cinema de denúncia de Sembene é pautado pela linguagem da parábola com narrativa linear intencionada a mobilizar o espectador para a tomada de consciência sobre a desigualdade social. O seu “Borom Sarret”, 1963, foi o primeiro curta-metragem realizado por um cineasta africano na África e conta a história de um comerciante pobre denunciado à polícia por ter atravessado a fronteira proibida de um bairro rico na cidade de Dakar. Seu filme “Xala”, de 1975, é uma comédia-crítica sobre a elite africana do pós-colonialismo, cínica e oportunista. E com “Le mandat”, Sembene ganhou uma menção honrosa no Festival de Veneza de agosto de 1968 (festival este que em outro texto pretendo resgatar os episódios particulares de contestação).

Neste momento global de resgate dos acontecimentos de Maio de 68 em ocasião do seu aniversário de 40 anos acredito que seria um passo importante para o progresso de sua re-leitura e re-escritura uma significativa ampliação da grande circunferência cujo epicentro é a França. Sair do centro, validar as culturas periféricas do capitalismo para entender a real abrangência do movimento cultural de 68 está sendo um grande desafio para mim.

“Aquilo que me interessa é expor os problemas do povo ao qual pertenço. Não me interessa fazer cinema para os meus amigos ou para um pequeno círculo de iniciados. Para mim o cinema é um meio de ação política. Se eu abandonei a literatura pelo cinema é porque acredito que um filme, mais do que um livro, possa cristalizar uma tomada de consciência”. (Sembene Ousmane)