sábado, 19 de janeiro de 2008

Meu encontro com Fernando Birri


Uma amiga brasileira está finalizando um curta-metragem que, para usar uma expressão italiana, è bello da morrire. Quando li o roteiro pela primeira vez, que aliàs foi um dos projetos contemplados pelo edital da prefeitura de São Paulo (o famoso PAC), lui mi ha colpito e enxerguei na proposta de Moara Passoni uma idéia original e revolucionária, um olhar investigativo porta-voz da minha geração perdida e nostálgica.

Em poucas linhas resumo o curta: um documentário que propõe o encontro entre dois personagens-símbolos da Resistência e da Esperança Latino-Americanas: Fernando Birri, cineasta e poeta argentino, foi um dos fundadores da escola de cinema de Cuba e é um dos grandes nomes do movimento do Novo Cinema Latino Americano dos anos 60. E Tilden Santiago, ex-padre operário ligado à teologia da Libertação, sempre atuou ao lado dos movimentos sociais brasileiros e foi nomeado embaixador do Brasil em Cuba durante o primeiro governo Lula. “O Sonho de Tilden” é um filme que reúne essas duas figuras históricas numa capela em Cuba e depois as leva à Praça do Vaticano, em Roma; um filme que fala de cinema, de política, de poesia, de fé, e não deixa de ser uma reflexão sobre a geração anos 60, e mais especificamente, sobre as trajetórias desses dois homens.

Em Roma encontrei-me com Fernando Birri a pedido de Moara, a minha amiga, que precisava de uma sua fala para finalizar o filme. Birri mora em Roma há alguns anos, e vez ou outra retorna para sua residência em Buenos Aires. Fui encontrá-lo. O dia estava chuvoso e fazia um frio de 5 graus. Devido ao caótico trânsito romano demorei duas horas e meia até chegar ao escritório de Birri, que me esperava ao lado de sua esposa Carmen e vestia um casaco peludo e uma touca de lã. Ao deparar-me com esta figura profética, mística, com seus 80 anos de idade, carregando nos ombros o peso da história e da vanguarda latino-americana fui acometida por uma emoção indescritível – a barba branca, o sorriso, a curvatura própria da velhice, o olhar afetuoso e finalmente as falas plenas de humanidade, sonho e poesia foram os aspectos desse artista que simplesmente me atravessaram a alma e me acompanham desde então: certamente nortearão minhas escolhas e orientarão a minha trajetória profissional e humana.

La registrazione audio era ormai finita, entretanto continuamos a conversar por um tempo. Disse a ele que eu vim a Roma estudar roteiro no Centro Sperimentale di Cinematografia, lugar este, aliás, que Birri também esteve, mas nos anos 60 – período em que diversos realizadores latino-americanos estudaram no Centro Sperimentale, como os brasileiros Paulo César Sarraceni e Gustavo Dahl. Birri foi aluno de Vittorio de Sica e também seu assistente de direção no filme “O Teto”, exibido na mostra de cinema neo-realista no CCBB de São Paulo em 2007. Falamos sobre muita coisa, desde a temperatura invernal de Buenos Aires até a hospitalidade do brasileiro, desde “Los Inundados" até “Natale in Crociera” (comédia tipo Globo Filmes que está em cartaz atualmente por aqui). Confrontamos nossas gerações, falamos de Zavattini, e tentamos entender as diferenças existentes no âmbito das perspectivas político-culturais dos alunos do Centro Sperimentale de hoje em dia em relação àquelas de sua época.

Meu encontro com Birri terminou num longo abraço em que ele me disse que eu sou a esperança do cinema latino americano. Naquele momento não fui apreendida por sentimentos de orgulho ou vaidade, entendi a frase como um encorajamento próprio dos guerreiros. Birri a disse a mim, como diria a qualquer outro jovem latino-americano estudante de cinema, um seu desejo, que é também esperança, aquilo que não posso, ou não deveria esquecer: que tenho responsabilidade com o meu cinema de origem. Isso veio como um golpe de injeção de ânimo num momento em que eu vivenciava o "sentimento do exílio” de que nos fala Edward Said, o conflito inerente a quem está imerso na cultura estrangeira e ainda tentando se adaptar a ela. Meu encontro com Birri reforçou minha latinidade, minha identidade. Com esse sentimento de integridade compareci a esta primeira semana de aula no Centro Sperimentale di Cinematografia.

2 comentários:

Milena Magalhães disse...

Puxa, que encontro este! Parabéns! Encontrar gente assim e poder conversar são daquelas emoções que se guarda para sempre. Mais sorte ainda por ai!

Anônimo disse...

Obrigada por compartilhar esse encontro, transformando-o em onda que me inunda e atrai para novas aproximações. "O teto" ficou para sempre marcado em mim como uma cena paulistana no espaço romano. Avani