quarta-feira, 4 de junho de 2008
Gânsgster Van-Goghiano
Encontrei-o no metrô e já estava faltando um pedaço da orelha. Bem aqui, sabe, no altinho. Aqui ó: nessa parte durinha. Havia um corte diagonal, perfeito, e faltava um pedaço no alto. Arriscaria dizer que levaram embora um quarto da sua orelha, não sei não. O homem tem cara de quem usava um piercing ali, uma argola, um brilhante, mas agora não pode mais usar. O talho era perfeito, reto, profissionalmente cirúrgico, parece que foi feito com uma serra elétrica de fatiar o pernil de Natal. Quando o encontrei ele estava de pé, parado na porta do trem com o olhar fixo nas coisas que passavam velozes do lado de fora. Todos ali ao redor olhavam curiosos a sua orelha sem pedaço e reconstruíram em silêncio um filme privado na mente. Talvez ele já tenha nascido assim, mutação genética mesmo. Ou então o piercing que usava na orelha inflamou, cancronou e tiveram que arrancar o pedaço zuado. Para boxeador o sujeito não tem porte e dizer que morderam um pedaço da sua orelha no ring não convence. A autopenitência ao cortar a própria orelha como Van Gogh, é possível, não descarto. Mas se tenho que escolher, de todas as possibilidades narrativas fico com o filme de gânster e na minha tela gigante (wall to wall) esse personagem é ligado à Camorra e aquilo ali foi tortura...
domingo, 1 de junho de 2008
Eu no quadro de Gauguin
Improvisadamente aconteceu que de roteirista passei à atriz do curta-metragem que rodamos esta semana. Uma história ambientada em um camping, personagens icônicas, mitológicas, quadros fixos coloridos, mundo pictórico. Meu amigo Pasquale, o diretor, possui o imaginário Pasolini-felliniano. Bellissimo! Escrevemos o roteiro em um processo amistosamente colaborativo no qual participamos: dois roteiristas, o diretor e o montador. No set, o fotógrafo reclamou da presença inútil dos roteiristas. O montador também no set. Raridade! “Mah che cazzo! A che servono questi?”. E a trupe unida não arredava o pé. E eis que a atriz que faria a mulher saindo da barraca não veio, e sobrou para mim! Assim como o ator que faria o bêbado não compareceu e sobrou para o outro roteirista interpretá-lo, resultando uma personagem incrível.
A câmera Arri 35mm apontada na minha cara, dezenas de pessoas ao redor me olhando. Minha primeira imagem estampada em 35, improvisada. A claquete. Azione! Realizamos o curta no Parco dell’Acquedotto onde Pasolini filmou o Mamma Roma há mais de quarenta anos. Eu estava ali no set utilizado uma vez pelo meu ídolo-amado-sagrado. Meu coração debandado. Eu deveria estar olhando o camping que amanhecia em um dia de sol. Improvisei um chiclete, o galhinho de grama era a minha distração, inventei alguém que passava e meu olhar matinal que a acompanhava, me lembro do vento e da minha vontade tímida de rir.
Funcionou, o pessoal gostou. Sério mesmo? Perguntei insegura. Disseram que a composição da imagem parecia um quadro do Gauguin. E então refleti sobre esse meu não fazer nada que resultou num gesto minimalista espontâneo, e que deu certo. O minimalismo é para mim a grande força no cinema. Estar ali foi uma experiência particular de pensar, através da vivência, no detalhe na imagem em um plano próximo: cada pequeno gesto pode ser um exagero, e o diretor que trabalha com um ator na chave do “agora vamos interpretar” é aquele que mata o cinema. Depois que eu e o Andrea substituímos os atores ausentes, Pasquale ainda brincou com o fotógrafo que reclamou da nossa presença no set: “É, viu, até que é útil haver roteiristas no set”. E todos riram.
(Foto de Mauro Rossi)
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Brasileiro sim Sinhô!
Sexta-feira acalorada, o verão disfarçado de primavera. Estávamos em seis amigos tomando uma cerveja na tradicional cervejaria de Roma: Peroni. Estávamos animados conversando sobre cinema e os filmes italianos indicados este ano à Palma de Ouro em Cannes. Em determinado momento escutei o som do português. Ao meu lado, um senhor de uns 65 anos pedia à minha amiga a toalha de papel que cobria a nossa mesa porque nela estava estampada a história daquele lugar, com fotos e tudo o mais. “io quero esto papel! Quero fare um quadro com ele!”. Eu me virei imediatamente para olhá-lo no rosto. “Posso signorina, pegare esta toalha come lembrança?”... Aquele som do português... há algum tempo não o ouvia assim, pela rua, por acaso. Eu olhava aquele rosto e aquele som... demorei a compreendê-lo, a acreditar nele. Edward Said que analisa em seu ensaio “reflexões sobre o exílio” a emoção e o estranhamento característicos quando dois estrangeiros de uma mesma nacionalidade se encontram no exterior (depois de algum tempo de “exílio”).
Abre parênteses: no primeiro de maio italiano houve um show para os trabalhadores organizado pelos sindicatos nacionais. Eu não estava muito a fim de ir porque não queria nem assistir aos artistas da televisão subindo ao palco para fazer discurso proletário nem escutar a típica música enlatada destinada a tais eventos representativos da política do pão e circo (como a festa da Força Sindical em SP, por exemplo). Mas em determinado momento, mesmo sem ter conferido a programação, decidi dar um pulo na festa para ver, afinal, como era. Chegando à Piazza San Giovanni senti ecoando uma voz conhecida cantando samba-rock. Em Roma? Não, não, estou delirando. Isso se chama saudade... Pensei. Dois dias antes havia acontecido em São Paulo a Virada Cultural em que Jorge Benjor, meu ídolo-amado, havia feito um show inesquecível, super alto-astral, que soube porque li nos jornais. Como eu queria ter estado na Virada Cultural. E neste show! Enquanto eu me aproximava do palco montado na Piazza San Giovanni aquele samba-rock ficava cada vez mais alto, e contraditoriamente, mais incompreensível para mim. Até que no telão vi projetado em close-up o rosto do meu herói com aqueles óculos escuros redondos, seu charme! Cantava moro, num país tropical... “Meu Deus, mas esse cover é mesmo fantástico”, pensei. “Mas será possível que seja ele mesmo?”. “Mas esses óculos escuros, é a sua cara!”. “Essa voz...Meus Deus! É mesmo o Jorge Benjor!!!!” .... E então pulei, dancei, me acabei no chão daquela praça romana.
Fecha parênteses. Assim como demorei a acreditar naquele brasileiro que cantava na festa do primeiro de maio, demorei a entender o senhor ao meu lado que pedia a toalha à minha amiga. “Mi scusi signore, ma da dove viene?” perguntei-lhe, porque poderia ser que viesse de Portugal, quem sabe. “Do Brasil”, me respondeu! “Eu também sou brasileira!”, disse-lhe entusiasmada e então tudo virou festa! Ele estava de saída, a esposa parada na porta com o casal de amigos esperava que resolvesse logo o lance da toalha de papel. Mas naquele momento o senhor havia tido uma crise histérica de alegria, queria um copo para brindar conosco, exalava brasilidade, disse que mora no bairro da Lapa, em São Paulo. Naquele momento o garçom chegou com as cervejas que havíamos solicitado há pelo menos meia hora atrás. O senhor insistiu que queria um copo para brindar conosco. “Mah, siete brasiliani?”, perguntou-nos o garçom cabo-verdiano. “Sim, sim, somos!”, respondemos-lhe. “Ecco! Sono brasiliani, sono brasiliani!” e de repente do meio do salão chegou um garçom italiano que fez um batuque na nossa mesa enquanto o garçom cabo-verdiano cantava um samba do Cartola, com seu sotaque português de Portugal: “Aconteceu, eu não esperava mas aconteceu, todo o bem que fiz se quiser esquecer...”. Ali, de repente, no canto da mesa do tradicional Peroni em Roma um samba acontecia, realizado por brasileiros, italianos e um cabo-verdiano. Improvisado, inusitado, excêntrico. Depois do último acorde, os garçons retomaram o serviço, o senhor se despediu alegre e partiu esquecido da toalha de papel. Na mesa, o silêncio. Todos restamos com a melancolia daquela suspensão espaço-temporal interrompida. Estávamos novamente diante de nossas cervejas para falar de cinema. Então Guido tomou a decisão: “Dopo di questo ragazzi, vi propongo un brinde al Brasile, a questa terra meravigliosa!”. E assim, brindamos.
Abre parênteses: no primeiro de maio italiano houve um show para os trabalhadores organizado pelos sindicatos nacionais. Eu não estava muito a fim de ir porque não queria nem assistir aos artistas da televisão subindo ao palco para fazer discurso proletário nem escutar a típica música enlatada destinada a tais eventos representativos da política do pão e circo (como a festa da Força Sindical em SP, por exemplo). Mas em determinado momento, mesmo sem ter conferido a programação, decidi dar um pulo na festa para ver, afinal, como era. Chegando à Piazza San Giovanni senti ecoando uma voz conhecida cantando samba-rock. Em Roma? Não, não, estou delirando. Isso se chama saudade... Pensei. Dois dias antes havia acontecido em São Paulo a Virada Cultural em que Jorge Benjor, meu ídolo-amado, havia feito um show inesquecível, super alto-astral, que soube porque li nos jornais. Como eu queria ter estado na Virada Cultural. E neste show! Enquanto eu me aproximava do palco montado na Piazza San Giovanni aquele samba-rock ficava cada vez mais alto, e contraditoriamente, mais incompreensível para mim. Até que no telão vi projetado em close-up o rosto do meu herói com aqueles óculos escuros redondos, seu charme! Cantava moro, num país tropical... “Meu Deus, mas esse cover é mesmo fantástico”, pensei. “Mas será possível que seja ele mesmo?”. “Mas esses óculos escuros, é a sua cara!”. “Essa voz...Meus Deus! É mesmo o Jorge Benjor!!!!” .... E então pulei, dancei, me acabei no chão daquela praça romana.
Fecha parênteses. Assim como demorei a acreditar naquele brasileiro que cantava na festa do primeiro de maio, demorei a entender o senhor ao meu lado que pedia a toalha à minha amiga. “Mi scusi signore, ma da dove viene?” perguntei-lhe, porque poderia ser que viesse de Portugal, quem sabe. “Do Brasil”, me respondeu! “Eu também sou brasileira!”, disse-lhe entusiasmada e então tudo virou festa! Ele estava de saída, a esposa parada na porta com o casal de amigos esperava que resolvesse logo o lance da toalha de papel. Mas naquele momento o senhor havia tido uma crise histérica de alegria, queria um copo para brindar conosco, exalava brasilidade, disse que mora no bairro da Lapa, em São Paulo. Naquele momento o garçom chegou com as cervejas que havíamos solicitado há pelo menos meia hora atrás. O senhor insistiu que queria um copo para brindar conosco. “Mah, siete brasiliani?”, perguntou-nos o garçom cabo-verdiano. “Sim, sim, somos!”, respondemos-lhe. “Ecco! Sono brasiliani, sono brasiliani!” e de repente do meio do salão chegou um garçom italiano que fez um batuque na nossa mesa enquanto o garçom cabo-verdiano cantava um samba do Cartola, com seu sotaque português de Portugal: “Aconteceu, eu não esperava mas aconteceu, todo o bem que fiz se quiser esquecer...”. Ali, de repente, no canto da mesa do tradicional Peroni em Roma um samba acontecia, realizado por brasileiros, italianos e um cabo-verdiano. Improvisado, inusitado, excêntrico. Depois do último acorde, os garçons retomaram o serviço, o senhor se despediu alegre e partiu esquecido da toalha de papel. Na mesa, o silêncio. Todos restamos com a melancolia daquela suspensão espaço-temporal interrompida. Estávamos novamente diante de nossas cervejas para falar de cinema. Então Guido tomou a decisão: “Dopo di questo ragazzi, vi propongo un brinde al Brasile, a questa terra meravigliosa!”. E assim, brindamos.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
As 140 ovelhas
Eu passeava pelo Parco dell’Appia Antica quando de repente no meio do meu caminho vi dezenas de ovelhas. Este parque é uma grande reserva arqueológica em que adultos que fazem esportes diários convivem com crianças que brincam nos playgrounds e animais que pastam no capim: vacas, cavalos, carneiros. É o parque mais heterogêneo e surpreendente de Roma, e nos finais de semana ensolarados as famílias se reúnem ali para um pic-nic, e os homens, para a partida de futebol. E naquele dia em que eu passeava distraída pelo gramado do parque me deparei com cento e quarenta ovelhas.
Bééééé... Começavam a trocar sinais entre elas. Bééééé... O que deveriam fazer? Eu é que pergunto. Será que continuo meu caminho, indiferente a tudo isso, e atravesso pelo meio do grupo ou é possível que alguma delas me ataque em legítima defesa? Bééééé... Claro que era uma aventura para mim, aquele amontoado de bola de lã impedindo a minha passagem e eu tendo que tomar fôlego para assoprá-los, com medo de que o vento acabasse por trazê-los de volta. Bééééé... Quando movi o primeiro passo levantaram as cabeças, acentuaram o grito e se aproximaram para me atacar. Bééééé... É agora! Pensei. Mas para a minha surpresa esses animais estavam, na verdade, abrindo alas para eu passar: ovelhas, carneiros e carneirinhos estavam todos trepidantes e agrupados abrindo uma pequena fresta no caminho para que eu os deixasse em paz.
Enquanto eu passava pelo meio das cento e quarenta ovelhas percebi que o som do seu balido é semelhante ao som do lamento de uma criança. Béééé... quase um choro. A ovelha é um animal amedrontado, geneticamente submisso. O processo histórico da espécie é marcado pela opressão e violência, e como conseqüência esses animais já têm incorporados em si o susto e a hesitação. O corpo que se movimenta em atinada fuga e o típico olhar com o rabo do olho é a expressão mecanizada do antigo alarme de sua espécie. Naquele momento senti pena das ovelhas e dos seus corpos carentes de qualquer elemento de defesa (chifre, crista, dentes afiados). Recordei-me da galinha do conto da Clarice Lispector, que depois de sua fuga corajosa e atrapalhada, e de se tornar a adorada rainha na casa daquela família, acaba tendo o fim tìpico de uma galinha, cuja espécie também é mecanicamente amedrontada: na panela.
Bééééé... Começavam a trocar sinais entre elas. Bééééé... O que deveriam fazer? Eu é que pergunto. Será que continuo meu caminho, indiferente a tudo isso, e atravesso pelo meio do grupo ou é possível que alguma delas me ataque em legítima defesa? Bééééé... Claro que era uma aventura para mim, aquele amontoado de bola de lã impedindo a minha passagem e eu tendo que tomar fôlego para assoprá-los, com medo de que o vento acabasse por trazê-los de volta. Bééééé... Quando movi o primeiro passo levantaram as cabeças, acentuaram o grito e se aproximaram para me atacar. Bééééé... É agora! Pensei. Mas para a minha surpresa esses animais estavam, na verdade, abrindo alas para eu passar: ovelhas, carneiros e carneirinhos estavam todos trepidantes e agrupados abrindo uma pequena fresta no caminho para que eu os deixasse em paz.
Enquanto eu passava pelo meio das cento e quarenta ovelhas percebi que o som do seu balido é semelhante ao som do lamento de uma criança. Béééé... quase um choro. A ovelha é um animal amedrontado, geneticamente submisso. O processo histórico da espécie é marcado pela opressão e violência, e como conseqüência esses animais já têm incorporados em si o susto e a hesitação. O corpo que se movimenta em atinada fuga e o típico olhar com o rabo do olho é a expressão mecanizada do antigo alarme de sua espécie. Naquele momento senti pena das ovelhas e dos seus corpos carentes de qualquer elemento de defesa (chifre, crista, dentes afiados). Recordei-me da galinha do conto da Clarice Lispector, que depois de sua fuga corajosa e atrapalhada, e de se tornar a adorada rainha na casa daquela família, acaba tendo o fim tìpico de uma galinha, cuja espécie também é mecanicamente amedrontada: na panela.
domingo, 18 de maio de 2008
As janelas abertas
(Trigêmeas. Anahí Borges, 15.05.2008)
(Melancolia. Anahí Borges, 15.05.2008)
(Estação do trenzinho urbano no Quarticciolo. Anahi Borges, 15.05.2008)
(Roupas com vento. Anahí Borges, 15.05.2008)
As duas mulheres não paravam de falar um minuto sequer: era Giuseppe que estava namorando uma moça de má índole, era a prima que começou a freqüentar os ambientes grosseiros das discotecas romanas, e depois passou a ser Francesca que havia se tornado rebelde e não queria mais ir à missa. Mah, quella crede di non essere più cattolica, vedi! Mãe e filha, 60 e 30 anos de idade, uma já tem os cabelos brancos enquanto a outra tem alguns quilos a mais. Conversavam alto, sentadas na calçada, enquanto todos os demais passageiros aguardavam impacientes a chegada do ônibus que já estava quinze minutos atrasado. Finalmente o 451 saiu da Piazza Cinecittà, lotado de gente, e seguiu sentido Quarticciolo, bairro da periferia de Roma. Durante todo o trajeto, mãe e filha continuavam em bom tom o seu discurso sobre a vida alheia e sobre a vizinha que havia engravidado de um rapaz que não queria assumir a criança. Em determinado momento esta mãe se desentendeu verbalmente com uma senhora sentada ao seu lado, fato que chamou a atenção de um rapaz que de sopetão interferiu na situação a fim de apaziguar as partes. A mãe se alterou ainda mais e começou a xingar o rapaz, afinal, nem italiano ele era e que direito havia de se intrometer na discussão entre senhoras italianas? Pouco depois a filha interveio para defender a mãe do rapaz que não era italiano e que a acusou de ser racista. Pena ele não haver compreendido logo que as mulheres tinham razão, diziam elas, pois tanto a filha como a mãe nasceram na Itália e ele, ao contrário, veio da Romênia, além disso, disse a filha, sua família abita naquela região desde os tempos de Mussolini, quando o avô veio do sul para trabalhar na cidade. Assim, o Quarticciolo é o seu lar, extensão da sua própria casa, fato este que legitima, segundo o direito natural à propriedade, a interferência seja da mãe seja da filha nas dinâmicas presentes naquele espaço físico-urbano. Na parada Molfeta, quase coração do bairro-Quarticciolo, as duas mulheres saíram do ônibus sem olhar para trás. Conversavam ainda de modo enérgico, como já haviam feito na Piazza Cinecittà, mas naquele momento não se sabia exatamente o assunto, se era sobre o rapaz romeno que as acusou de racismo dentro do 451 ou sobre o filho de Antonello que virou traficante, colaborando para a decadência do bairro.
Esta situação aconteceu ontem à tarde, enquanto eu pegava o ônibus para andar até este bairro para tirar fotografias. Assim, o Quarticciolo possui na figura destas duas mulheres uma possibilidade de síntese representativa do que poderia ser definido como a sua dinâmica sociológica provinciana. Apartamentos colados, separados por paredes finas através das quais todas as vozes e todos os sons atravessam tranquilamente, convivendo juntos, formando teias de comunicação direta e indireta entre os moradores, informações que extrapolam qualquer conceito de fronteira e privacidade. As senhoras conversam entre si debruçadas em suas janelas, trocam confidências e utensílios domésticos, emprestam o ouvido para a vizinha que precisa desabafar um problema ou um pouco de açúcar para que faça uma torta. Sons, olhares, objetos e falas perpassam paredes e janelas das cores e formas do Quarticciolo, fazendo da comunidade um corpo único formado por dinâmicas consolidadas, valores sociais estabelecidos e o desejo de poder e controle sobre o outro como potencialidade a ser exercida por cada membro desta rede social.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
África - 68
Hoje começou a 61ª edição do Festival Cannes. E de pensar que exatamente há 40 anos este mesmo festival foi interrompido à metade em razão do apoio de cineastas como Godard e Truffaut à greve geral de estudantes e trabalhadores em Paris. Maio de 68: a baliza contemporânea de contestações e mudanças em escala mundial. Quando se fala neste período brilha o protagonismo europeu, seguido daquele ianque, do latino-americano e do asiático. Mas e a África? Por que quase não se fala do Maio de 68 neste continente? Como se manifestou no cinema africano, por exemplo, essa nova onda revolucionária?
No momento em que no ocidente se questionava os antigos valores culturais e, sob o entusiasmo do existencialismo, um marxismo mais contestatório repensava a cultura ocidental, da outra parte do Mediterrâneo novas sociedades estavam empenhadas em construir e não em desconstruir as suas tradições. Uma África neocolonizada, neomassacrada, neodividida, estava consolidando sua independência e a definição de uma identidade se apresentava como a sua maior urgência. Marrocos e Tunísia (independentes em 1956), Argélia (sanguinária guerra de libertação em 1962). O cinema africano nasceu militante, num acerto de contas com a dominação européia e acenando aos novos governos nacionais, às novas democracias.
A maior parte dos países, do Senegal à Mauritânia, da Costa do Marfim à Nigéria, do Camarões ao Congo, vê nascer seu próprio cinema nacional, em contornos e estilos ainda incertos e precários. Cinematografias que redesenham as suas mitologias, que problematizam o social, que reiventam seus discursos políticos. O recém-nascido cinema africano maghrebino nos anos 60 e 70 justifica sua linguagem retórica e precária (no quesito tecnológico e de construção do discurso narrativo consolidado há então 50 anos) ao fato de ter sido instrumentalizado pelos novos Estados em seus projetos institucional-nacionalistas.
Muitos autores da África sub-sahariana, entretanto, foram influenciados pela revolução cultural do Ocidente, visto que estudaram na França ou na União Soviética, ou mesmo a experiência da imigração constituiu por si só um estágio cultural. “África sobre o Senna”, filme realizado em 1955 por Paulin Soumanou Vieyra com alguns amigos senegaleses é considerado o primeiro filme feito por um africano. A obra conta a história de vida de um grupo de estudantes africanos em Paris, construindo questionamentos sobre os choques culturais. De temática semelhante é o filme “Concerto para um exílio”, 1968, de Desiré Ecaré, da Costa do Marfim. O cineasta mais renomado deste período foi Sembene Ousmane, escritor senegalese que se tornou o pai do cinema africano. Sembene emigrou para Paris muito jovem, trabalhando muito tempo em sub-empregos até filiar-se ao Partido Comunista Francês em meados dos anos 50 e depois consolidar sua carreira artística. Menos cerebral que seus colegas franceses engajados, o cinema de denúncia de Sembene é pautado pela linguagem da parábola com narrativa linear intencionada a mobilizar o espectador para a tomada de consciência sobre a desigualdade social. O seu “Borom Sarret”, 1963, foi o primeiro curta-metragem realizado por um cineasta africano na África e conta a história de um comerciante pobre denunciado à polícia por ter atravessado a fronteira proibida de um bairro rico na cidade de Dakar. Seu filme “Xala”, de 1975, é uma comédia-crítica sobre a elite africana do pós-colonialismo, cínica e oportunista. E com “Le mandat”, Sembene ganhou uma menção honrosa no Festival de Veneza de agosto de 1968 (festival este que em outro texto pretendo resgatar os episódios particulares de contestação).
Neste momento global de resgate dos acontecimentos de Maio de 68 em ocasião do seu aniversário de 40 anos acredito que seria um passo importante para o progresso de sua re-leitura e re-escritura uma significativa ampliação da grande circunferência cujo epicentro é a França. Sair do centro, validar as culturas periféricas do capitalismo para entender a real abrangência do movimento cultural de 68 está sendo um grande desafio para mim.
“Aquilo que me interessa é expor os problemas do povo ao qual pertenço. Não me interessa fazer cinema para os meus amigos ou para um pequeno círculo de iniciados. Para mim o cinema é um meio de ação política. Se eu abandonei a literatura pelo cinema é porque acredito que um filme, mais do que um livro, possa cristalizar uma tomada de consciência”. (Sembene Ousmane)
No momento em que no ocidente se questionava os antigos valores culturais e, sob o entusiasmo do existencialismo, um marxismo mais contestatório repensava a cultura ocidental, da outra parte do Mediterrâneo novas sociedades estavam empenhadas em construir e não em desconstruir as suas tradições. Uma África neocolonizada, neomassacrada, neodividida, estava consolidando sua independência e a definição de uma identidade se apresentava como a sua maior urgência. Marrocos e Tunísia (independentes em 1956), Argélia (sanguinária guerra de libertação em 1962). O cinema africano nasceu militante, num acerto de contas com a dominação européia e acenando aos novos governos nacionais, às novas democracias.
A maior parte dos países, do Senegal à Mauritânia, da Costa do Marfim à Nigéria, do Camarões ao Congo, vê nascer seu próprio cinema nacional, em contornos e estilos ainda incertos e precários. Cinematografias que redesenham as suas mitologias, que problematizam o social, que reiventam seus discursos políticos. O recém-nascido cinema africano maghrebino nos anos 60 e 70 justifica sua linguagem retórica e precária (no quesito tecnológico e de construção do discurso narrativo consolidado há então 50 anos) ao fato de ter sido instrumentalizado pelos novos Estados em seus projetos institucional-nacionalistas.
Muitos autores da África sub-sahariana, entretanto, foram influenciados pela revolução cultural do Ocidente, visto que estudaram na França ou na União Soviética, ou mesmo a experiência da imigração constituiu por si só um estágio cultural. “África sobre o Senna”, filme realizado em 1955 por Paulin Soumanou Vieyra com alguns amigos senegaleses é considerado o primeiro filme feito por um africano. A obra conta a história de vida de um grupo de estudantes africanos em Paris, construindo questionamentos sobre os choques culturais. De temática semelhante é o filme “Concerto para um exílio”, 1968, de Desiré Ecaré, da Costa do Marfim. O cineasta mais renomado deste período foi Sembene Ousmane, escritor senegalese que se tornou o pai do cinema africano. Sembene emigrou para Paris muito jovem, trabalhando muito tempo em sub-empregos até filiar-se ao Partido Comunista Francês em meados dos anos 50 e depois consolidar sua carreira artística. Menos cerebral que seus colegas franceses engajados, o cinema de denúncia de Sembene é pautado pela linguagem da parábola com narrativa linear intencionada a mobilizar o espectador para a tomada de consciência sobre a desigualdade social. O seu “Borom Sarret”, 1963, foi o primeiro curta-metragem realizado por um cineasta africano na África e conta a história de um comerciante pobre denunciado à polícia por ter atravessado a fronteira proibida de um bairro rico na cidade de Dakar. Seu filme “Xala”, de 1975, é uma comédia-crítica sobre a elite africana do pós-colonialismo, cínica e oportunista. E com “Le mandat”, Sembene ganhou uma menção honrosa no Festival de Veneza de agosto de 1968 (festival este que em outro texto pretendo resgatar os episódios particulares de contestação).
Neste momento global de resgate dos acontecimentos de Maio de 68 em ocasião do seu aniversário de 40 anos acredito que seria um passo importante para o progresso de sua re-leitura e re-escritura uma significativa ampliação da grande circunferência cujo epicentro é a França. Sair do centro, validar as culturas periféricas do capitalismo para entender a real abrangência do movimento cultural de 68 está sendo um grande desafio para mim.
“Aquilo que me interessa é expor os problemas do povo ao qual pertenço. Não me interessa fazer cinema para os meus amigos ou para um pequeno círculo de iniciados. Para mim o cinema é um meio de ação política. Se eu abandonei a literatura pelo cinema é porque acredito que um filme, mais do que um livro, possa cristalizar uma tomada de consciência”. (Sembene Ousmane)
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Tristeza poética-picasso

Não sei o que fazer com a melancolia de domingo
Com a pontualidade da melancolia de domingo
O insistente déjà vu
De me sentir o Arlequim de Picasso
Sentado com uma fantasia colorida
Olhando com uns olhos sorumbáticos
O tempo, o silêncio, a respiração
De uma tarde dominical regular
Começo a pensar como seria
Uma revolução popular melancólica
Trabalhadores e artistas com olhares-arlequins
Defendendo os ideais de fraternidade e liberdade
Acho que nesta revolução não existiria a violência
E o sangue se transformaria nas tintas coloridas
Da geração de Montparnasse
Foujita, Kisling, Picasso, Soutine, Chagall, Matisse, Modigliani
A graça poética e o maneirismo velado pela nostalgia
Que marcaram os ares parisienses dos anos vinte
Preciso urgentemente de uma linguagem
Que me ajude a traduzir a minha melancolia
E as periódicas tardes de domingo de sol
(Imagem: Paul como um arlequim. Pablo Picasso, 1924.)
sexta-feira, 9 de maio de 2008
A punk de Paris
Paulo Emílio Salles Gomes refletindo as razões do subdesenvolvimento do cinema brasileiro constatou a nossa característica de imitadores do cinema americano. Uma das razões para tal inclinação é a nossa condição de tradição fundada, combinada, construída por diversas outras tradições colonizadoras. Salles Gomes indica a nossa ausência de uma cultura original ancestral: nada nos é estrangeiro, pois tudo o é. Temos assim a nossa dominação em partes nomeada.
Uma das maiores críticas de Pier Paolo Pasolini à Itália em meados dos anos 60 dizia respeito ao efeito perverso da globalização no país. Uma nação que vivia o seu “milagre econômico”, sustentada por grossos investimentos do capital americano, desfrutava a lógica do consumo desenfreado: de carros, de roupas, de filmes. A indústria cultural americana invadiu o país, e Pasolini viu aí uma perigosa equação: imperialismo americano somado à nova burguesia consumista italiana seria igual ao aniquilamento das tradições culturais itálicas, e o surgimento de uma nova categoria social homogeneizada e americanizada.
Mais de três décadas nos separam das reflexões de Salles Gomes e de Pasolini. O Brasil continua dominado. A Itália está dominada. O Império Americano violentamente se impõe mundo afora. E em Paris eu vi uma menina punk que radicalmente me ensinou, sem nem mesmo perceber, a possibilidade do Resistir.
Esperávamos o metrô na estação Notre-Dame. Ela estava concentrada na música alta do seu mp3 enquanto eu lia em seu corpo o seu gesto político natural. Os punks, como qualquer outra etiqueta social, possuem determinados códigos que estabelecem a sua classificação: usam roupas pretas, apetrechos de metal prateado (colares, brincos, piercing, cintos), podem ter os cabelos coloridos, despentados, pontudos, podem ter tatuagem, podem usar coturno ou all star... Como uma etiqueta contemporânea universal, os punks que vi em São Paulo eram iguais aos que vi em Buenos Aires, que por sua vez eram iguais aos que eu vi em Roma, que eram iguais ao que eu vi em Madrid, e por aí vai. Mas os punks em Paris são diferentes.
A punk que observei no metrô usava roupa preta, brincos, piercing e cinto de metal, e tinha o cabelo vermelho despenteado, elementos que certamente a enquadram nessa etiqueta social do movimento punk, aliás, fortemente atrelada ao imaginário cultural americano. Entretanto, havia algo que a protegia da cultura da normalização: esta garota usava, além de uma faixa adornada nos cabelos, uma luva de seda, de um azul turquesa escandaloso decorado com rendas brancas que se estendiam sobre os dedos. Eu admirava a beleza daquela luva azul que relampagomente comunicou sua nacionalidade francesa. Tecido, desenho, detalhes, a elegância. . . signos de uma cultura. Afinal, a garota é parisiense. Naquele momento entendi o conceito de Resistência Cultural, não como discurso, mas como valor socialmente enraizado, e reflexo de uma política cultural de Estado consciente e eficaz, comprometida com a valorização e preservação da memória e das tradições históricas. Mas para além dos descontos em museus, teatros, cinemas. Para além dos programas e atividades oferecidas para crianças e jovens nas bibliotecas, cinemateca, galerias de arte. O que vi naquela punk parisiense foi a expressão concreta de um valor político daquela sociedade, um sentimento nacional imediato e inconsciente, porque historicamente consolidado.
Enquanto eu residia no meu tempo de epifania, a garota ouvia o seu mp3 sem perceber que ao seu redor algo novo acontecia: uma jovem de nação opressa entendeu a linguagem de uma Resistência. Recordei-me de Salles Gomes e de Pasolini, e de mundos devastados pela dominação ianque. A luva de seda azul turquesa foi prontamente transportada ao meu estoque conceitual de arma sacra, tal como a espada de ouro do rei-cavaleiro-medieval conservada na sala de armas do castelo até o dia em que deveria ser erguida em punho para enfrentar a guerra.
Uma das maiores críticas de Pier Paolo Pasolini à Itália em meados dos anos 60 dizia respeito ao efeito perverso da globalização no país. Uma nação que vivia o seu “milagre econômico”, sustentada por grossos investimentos do capital americano, desfrutava a lógica do consumo desenfreado: de carros, de roupas, de filmes. A indústria cultural americana invadiu o país, e Pasolini viu aí uma perigosa equação: imperialismo americano somado à nova burguesia consumista italiana seria igual ao aniquilamento das tradições culturais itálicas, e o surgimento de uma nova categoria social homogeneizada e americanizada.
Mais de três décadas nos separam das reflexões de Salles Gomes e de Pasolini. O Brasil continua dominado. A Itália está dominada. O Império Americano violentamente se impõe mundo afora. E em Paris eu vi uma menina punk que radicalmente me ensinou, sem nem mesmo perceber, a possibilidade do Resistir.
Esperávamos o metrô na estação Notre-Dame. Ela estava concentrada na música alta do seu mp3 enquanto eu lia em seu corpo o seu gesto político natural. Os punks, como qualquer outra etiqueta social, possuem determinados códigos que estabelecem a sua classificação: usam roupas pretas, apetrechos de metal prateado (colares, brincos, piercing, cintos), podem ter os cabelos coloridos, despentados, pontudos, podem ter tatuagem, podem usar coturno ou all star... Como uma etiqueta contemporânea universal, os punks que vi em São Paulo eram iguais aos que vi em Buenos Aires, que por sua vez eram iguais aos que eu vi em Roma, que eram iguais ao que eu vi em Madrid, e por aí vai. Mas os punks em Paris são diferentes.
A punk que observei no metrô usava roupa preta, brincos, piercing e cinto de metal, e tinha o cabelo vermelho despenteado, elementos que certamente a enquadram nessa etiqueta social do movimento punk, aliás, fortemente atrelada ao imaginário cultural americano. Entretanto, havia algo que a protegia da cultura da normalização: esta garota usava, além de uma faixa adornada nos cabelos, uma luva de seda, de um azul turquesa escandaloso decorado com rendas brancas que se estendiam sobre os dedos. Eu admirava a beleza daquela luva azul que relampagomente comunicou sua nacionalidade francesa. Tecido, desenho, detalhes, a elegância. . . signos de uma cultura. Afinal, a garota é parisiense. Naquele momento entendi o conceito de Resistência Cultural, não como discurso, mas como valor socialmente enraizado, e reflexo de uma política cultural de Estado consciente e eficaz, comprometida com a valorização e preservação da memória e das tradições históricas. Mas para além dos descontos em museus, teatros, cinemas. Para além dos programas e atividades oferecidas para crianças e jovens nas bibliotecas, cinemateca, galerias de arte. O que vi naquela punk parisiense foi a expressão concreta de um valor político daquela sociedade, um sentimento nacional imediato e inconsciente, porque historicamente consolidado.
Enquanto eu residia no meu tempo de epifania, a garota ouvia o seu mp3 sem perceber que ao seu redor algo novo acontecia: uma jovem de nação opressa entendeu a linguagem de uma Resistência. Recordei-me de Salles Gomes e de Pasolini, e de mundos devastados pela dominação ianque. A luva de seda azul turquesa foi prontamente transportada ao meu estoque conceitual de arma sacra, tal como a espada de ouro do rei-cavaleiro-medieval conservada na sala de armas do castelo até o dia em que deveria ser erguida em punho para enfrentar a guerra.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Novos ares velhos


Curiosamente, em italiano dizer
“cinema político” remete à idéia de filme panfletário, um discurso óbvio a serviço de determinada ideologia sem grandes pretensões artísticas e que veicula mensagens ao público. Ao contrário do termo “cinema de engajamento social” (cinema di impegno sociale), que define filmes cujos enunciados são temas sociais, mas o discurso político se intercepta com o discurso estético, algo de urgente se conta, mas através de elaboração estética: a política é o meio, não o fim.
Dessa forma, o dito “cinema italiano de engajamento social”, produção fértil dos anos 60 e 70, permanece sendo uma das cerejas do bolo dos tempos áureos do cinema europeu de “maio de 68 e arredores” : Elio Petri, irmãos Taviani, Bernardo Bertolucci, Pier Paolo Pasolini, Francesco Rosi, Giuliano Montaldo, Marco Bellochio, Francesco Maselli, para citar alguns dos nomes imortalizados por esse período. Mais ainda as suas obras: “A Classe Operária Vai Ao Paraíso”, “Pai, Patrão”, “Antes da Revolução”, “Teorema”, “O Bandido Giuliano”, “Giordano Bruno”, “Os Punhos Cerrados”, “Carta Aberta em um Jornal da Tarde”, etc., etc. Filmes que marcaram a história do cinema, que refletiram questões políticas e valores libertários próprios à sua época, que invadiram salas no mundo inteiro, conquistando o gosto da crítica e sendo sucesso de público.
Certo que, parafraseando Godard - um cinema político deve ser feito politicamente - tendo a desconfiar de muitas dessas obras citadas como políticas, sendo que no plano lingüístico, de construção do discurso estético, permanecem sendo conformistas e moralizantes e, portanto, oportunistas porque se valem de personagens e situações históricas plausíveis para uma constituição de imagem-discurso libertária e não o fazem libertariamente. Ao contrário. Na maioria das vezes, essas obras além de manipular nocivamente a impressão de verdade que o tema possui, são transformadas em verdadeiros dramas burgueses (no sentido estrito do conceito) em que a História ganha dimensões privadas e o ato individual heróico é louvado enquanto o coletivo, negado. Individualização de processos históricos. Utilitarismo. Conformismo. Odeio!
Bem, tudo para dizer que não obstante tal passado glorioso, o cinema italiano anda mal das pernas, ou melhor, da cabeça (mas bem de bolso... porque afinal faz boas, quando não excelentes, bilheterias). A Itália vive um período de centralização cinematográfica (as maiores produtora e distribuidora de cinema, por exemplo, pertencem a Berlusconi) somado ao fato do aumento crescente dos filmes italianos televisivos (realizados para irem ao ar pelas emissoras nacionais. Parênteses: Berlusconi é dono de 3 canais de televisão e agora na condição de Presidente do Conselho, administrará ainda mais 3 canais estatais: RAI 1, 2 e 3). Ou seja, resumindo: a linha cultural da produção audiovisual italiana é berlusconiana, fato que preocupa muito a intelectualidade nacional. Ou seja, tendencialmente prevalece o filme de amor, a comédia besteirol, ou filme policiesco-mafioso.
Mas eis que na semana passada uma onda de otimismo atingiu os cinéfilos: dois filmes italianos foram selecionados para a competição ao Festival de Cannes – “il divo”, de Paolo Sorrentino, e “Gomorra”, de Matteo Garrone (além de terem sido selecionados mais dois filmes para serem exibidos fora da competição). Ambos cineastas under-40 considerados entre os melhores talentos contemporâneos. Sorrentino já está, de fato, entre os meus preferidos da jovem guarda, ao lado de Savério Costanzo ("Private", "in memoria di me"). O seu penúltimo filme, “Le consequenze dell’amore”, é de uma originalidade e pertinência cinematográfica inquestionável (até o uso da trilha sonora é impecável, construído como um discurso estético, e não um complemento emotivo à história). Enfim, fato é que ambos os filmes, "il divo" e "Gomorra", possuem o mesmo ator como protagonista (Toni Sevillo – para mim um dos maiores contemporâneos, inesquecível seu personagem em “Le consequenze dell’amore”), ambos os filmes retratam uma Itália devastada, ambos os filmes são definidos como políticos. “Il divo”, de Sorrentino, conta a história de Giulio Andreotti, grande personagem da vida pública italiana ligado à máfia, e “Gomorra”, de Garrone, conta a máfia do sul da Itália. Em um contexto em que, como já foi dito, a linha cultural do país é berlusconiana, é esperado que o reconhecimento de tais filmes venha acompanhado de uma quase histeria da parte da imprensa esclarecida, na esperança de que a ida a Cannes seja o sinal de que apesar dos pesares a Itália poderá reconquistar o seu histórico prestígio na sétima arte. E mais ainda se este lugar está no pódio do cinema de engajamento social dos anos 60 e 70, que foi compartilhado por todos os chamados mestres do cinema itálico. Eu, particularmente, não assisti ainda a nenhum desses dois filmes (a previsão de estréia em Roma é para depois de maio) e estou curiosa para vê-los. Quero verificar os seus frescores, e problematizar se são obras feitas politicamente ou se são conformistas, se são filhas de “Teorema” ou irmãs dos filmes biográficos da RAI, ainda que os seus motes sejam urgentemente políticos de serem afrontados. Mas fato è que confio em Sorrentimo e Garrone...esperemos que eu não sinta ácaros pelo ar...
Imagens: à dir. Matteo Garrone (filme "Gomorra") e à esq. Paolo Sorrentino (filme "il divo")
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Like a virgen
Eu contava animada ao meu colega da faculdade como foi que me livrei da aula chata do professor convidado:
- Pois é, enquanto ele ajustava o projetor, eu saí à francesa... Fala a verdade, ninguém tá na vida para perder tempo com babaquice. O problema foi que andando pelo corredor, eu trombei com o diretor!
Paolo se afundou em um mar de gargalhadas
- che cosa? Me perguntou em lágrimas de alegria
- io camminavo nel corridoio quando ho trombato con il direttore
E Paolo ria, ria e ria. Do que ria? Do meu drama ou da cara do velho diretor de quase oitenta anos de idade?
E só depois fui entender que o verbo trombare em italiano significa trepar, to fuck! E nunca mais cabulei aula nenhuma, nem cruzei com ninguém pelo corredor. Vivendo e aprendendo... o idioma.
- Pois é, enquanto ele ajustava o projetor, eu saí à francesa... Fala a verdade, ninguém tá na vida para perder tempo com babaquice. O problema foi que andando pelo corredor, eu trombei com o diretor!
Paolo se afundou em um mar de gargalhadas
- che cosa? Me perguntou em lágrimas de alegria
- io camminavo nel corridoio quando ho trombato con il direttore
E Paolo ria, ria e ria. Do que ria? Do meu drama ou da cara do velho diretor de quase oitenta anos de idade?
E só depois fui entender que o verbo trombare em italiano significa trepar, to fuck! E nunca mais cabulei aula nenhuma, nem cruzei com ninguém pelo corredor. Vivendo e aprendendo... o idioma.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Pasolini, Duras, e tantas dúvidas
Estou tentando entender maio de 68. Se Marguerite Duras disse que em maio de 68 o sexo corria solto pelas ruas, dignificando assim uma conquista libertária do movimento social da época, Pier Paolo Pasolini corajosamente publicou, em razão de uma manifestação em Roma, um texto na revista L’Espresso (de grande circulação ) no qual fez uma severa crítica ao que para ele seria uma falsa revolução de jovens burgueses. Ambos intelectuais marxistas, artistas de vanguarda, expulsos do autoritário e machista Partido Comunista (Italiano e o Francês). Como não creditar Pasolini? E como não aderir a Duras? Tanta efervescência, tantos nuances de cinza. Para mim ainda é muito difícil compreender maio de 68...
O PCI aos jovens! (Notas em verso para um poema em prosa), Pier Paolo Pasolini
(selecionei alguns trechos)
Sinto muito. A polêmica contra
o PCI tinha que ser feita na primeira metade
da década passada. Vocês meus filhos, estão atrasados.
E não importa que vocês não tivessem ainda nascido...
Agora os jornalistas do mundo inteiro (inclusive os da televisão)
ficam puxando (como acho que ainda se diz na linguagem das universidades)
o saco de vocês. Eu não, meus amigos.
Vocês têm cara de filhos de papai.
Odeio vocês como odeio seus pais.
Filho de peixinho, peixinho é.
Vocês têm o mesmo olhar maligno.
São medrosos, inseguros, desesperados
(ótimo!), mas também sabem como ser
prepotentes, chantagistas, convencidos, descarados:
prerrogativas pequeno-burguesas, meus amigos.
Ontem no Valle Giulia, quando vocês brigavam
com os policiais,
eu simpatizava com os policiais!
Porque os policiais são filhos de gente pobre.
Vêm das periferias, rurais ou urbanas que sejam.
Quanto a mim, conheço muito bem
seu jeito de terem sido crianças e rapazes,
as preciosas mil liras, o pai que também continuou sendo um rapaz,
por causa da miséria, que não confere autoridade.
A mãe calejada como um carregador, ou delicada,
devido a alguma doença, como um passarinho;
os irmãos todos;
(...)
E depois vejam como os vestem: como palhaços,
com aquele pano grosseiro que fede a rancho,
caserna e povo. O pior de tudo, naturalmente,
é o estado psicológico a que são reduzidos
(por umas quarenta mil liras ao mês):
nem um sorriso mais,
nem amizade alguma com o mundo,
separados,
excluídos (numa exclusão que não tem igual);
humilhados pela perda da qualidade de homens
em troca da de policiais (ser odiado faz odiar).
Têm vinte anos, a idade de vocês, meus caros e minhas caras.
Estamos obviamente de acordo contra a instituição da polícia.
Mas voltem-se contra a Magistratura, e vocês vão ver!
Os jovens policiais
que vocês por puro vandalismo (de nobre tradição
herdada do Risorgimento) de filhos de papai, espancaram
pertencem a outra classe social.
No Valle Giulia, ontem, tivemos assim um fragmento
de luta de classes: e vocês, meus amigos (embora do lado da razão)
eram os ricos, enquanto os policiais (que estavam do lado errado)
eram os pobres.
Bela vitória, portanto, a de vocês! Nestes casos,
aos policiais se dão flores, meus amigos.
Popolo e Corriere della Sera, Newsweek e Monde
Puxam o saco de vocês. Vocês são os filhos deles,
a sua esperança, o seu futuro...
(...)
É isso, caros filhos, que vocês sabem.
E que aplicam através de dois sentimentos irrevogáveis:
a consciência dos seus direitos (como se sabe a democracia
só leva em conta vocês) e a aspiração
ao poder.
Sim, as suas palavras de ordem versam sempre
sobre a tomada do poder.
(...)
Vocês ocupam as universidades,
mas suponham que a mesma idéia ocorra
a jovens operários.
Nesse caso,
o Corriere delle Sera e Popolo, Newsweek e Monde
procurariam com a mesma solicitude
compreender os problemas deles?
A polícia se limitaria a levar umas pancadas
dentro de uma fábrica ocupada?
Trata-se de uma observação banal;
e constrangedora. Mas sobretudo inútil:
porque vocês são burgueses
e portanto anticomunistas...
(...)
Falando assim,
vocês pedem tudo com palavras,
ao passo que com os atos, vocês pedem só aquilo
a que têm direito (como bons filhos da burguesia que são):
uma série de reformas inadiáveis
a aplicação de novos métodos pedagógicos
e a renovação de um organismo estatal.
Bravo! que nobres sentimentos!
Que a boa estrela da burguesia proteja vocês!
(...)
O PCI aos jovens! (Notas em verso para um poema em prosa), Pier Paolo Pasolini
(selecionei alguns trechos)
Sinto muito. A polêmica contra
o PCI tinha que ser feita na primeira metade
da década passada. Vocês meus filhos, estão atrasados.
E não importa que vocês não tivessem ainda nascido...
Agora os jornalistas do mundo inteiro (inclusive os da televisão)
ficam puxando (como acho que ainda se diz na linguagem das universidades)
o saco de vocês. Eu não, meus amigos.
Vocês têm cara de filhos de papai.
Odeio vocês como odeio seus pais.
Filho de peixinho, peixinho é.
Vocês têm o mesmo olhar maligno.
São medrosos, inseguros, desesperados
(ótimo!), mas também sabem como ser
prepotentes, chantagistas, convencidos, descarados:
prerrogativas pequeno-burguesas, meus amigos.
Ontem no Valle Giulia, quando vocês brigavam
com os policiais,
eu simpatizava com os policiais!
Porque os policiais são filhos de gente pobre.
Vêm das periferias, rurais ou urbanas que sejam.
Quanto a mim, conheço muito bem
seu jeito de terem sido crianças e rapazes,
as preciosas mil liras, o pai que também continuou sendo um rapaz,
por causa da miséria, que não confere autoridade.
A mãe calejada como um carregador, ou delicada,
devido a alguma doença, como um passarinho;
os irmãos todos;
(...)
E depois vejam como os vestem: como palhaços,
com aquele pano grosseiro que fede a rancho,
caserna e povo. O pior de tudo, naturalmente,
é o estado psicológico a que são reduzidos
(por umas quarenta mil liras ao mês):
nem um sorriso mais,
nem amizade alguma com o mundo,
separados,
excluídos (numa exclusão que não tem igual);
humilhados pela perda da qualidade de homens
em troca da de policiais (ser odiado faz odiar).
Têm vinte anos, a idade de vocês, meus caros e minhas caras.
Estamos obviamente de acordo contra a instituição da polícia.
Mas voltem-se contra a Magistratura, e vocês vão ver!
Os jovens policiais
que vocês por puro vandalismo (de nobre tradição
herdada do Risorgimento) de filhos de papai, espancaram
pertencem a outra classe social.
No Valle Giulia, ontem, tivemos assim um fragmento
de luta de classes: e vocês, meus amigos (embora do lado da razão)
eram os ricos, enquanto os policiais (que estavam do lado errado)
eram os pobres.
Bela vitória, portanto, a de vocês! Nestes casos,
aos policiais se dão flores, meus amigos.
Popolo e Corriere della Sera, Newsweek e Monde
Puxam o saco de vocês. Vocês são os filhos deles,
a sua esperança, o seu futuro...
(...)
É isso, caros filhos, que vocês sabem.
E que aplicam através de dois sentimentos irrevogáveis:
a consciência dos seus direitos (como se sabe a democracia
só leva em conta vocês) e a aspiração
ao poder.
Sim, as suas palavras de ordem versam sempre
sobre a tomada do poder.
(...)
Vocês ocupam as universidades,
mas suponham que a mesma idéia ocorra
a jovens operários.
Nesse caso,
o Corriere delle Sera e Popolo, Newsweek e Monde
procurariam com a mesma solicitude
compreender os problemas deles?
A polícia se limitaria a levar umas pancadas
dentro de uma fábrica ocupada?
Trata-se de uma observação banal;
e constrangedora. Mas sobretudo inútil:
porque vocês são burgueses
e portanto anticomunistas...
(...)
Falando assim,
vocês pedem tudo com palavras,
ao passo que com os atos, vocês pedem só aquilo
a que têm direito (como bons filhos da burguesia que são):
uma série de reformas inadiáveis
a aplicação de novos métodos pedagógicos
e a renovação de um organismo estatal.
Bravo! que nobres sentimentos!
Que a boa estrela da burguesia proteja vocês!
(...)
terça-feira, 29 de abril de 2008
Amor de passarinho

A velhinha tricotava no banco do parque com o seu radinho de pilha ligado quando avistou um passarinho distraído:
- Ô passarinho...psi psi... vem aqui vem...
Ela jogou um pedacinho de pão pro passarinho que se avizinhou. Fizeram amizade.
Até que o radinho da velhinha anunciou a chegada de uma frente fria no final de semana, e o passarinho, preocupado, roubou o novelo de lã da senhora e voou às pressas para o ninho.
Ficaram de mal...
(Imagem: Mujer, Pájaro y Estrella. Joan Miró, 1942)
sábado, 26 de abril de 2008
Triste ironia
O aniversário de 63 anos da Libertação da Itália do domínio nazi-fascista foi comemorado neste 25 de abril em traje inédito. Pela primeira vez na história do país a data assistiu ao Parlamento em seu momento histórico mais dramático: ausência absoluta de qualquer representação da esquerda - que na Resistência ao nazi-fascismo encontra um de seus valores fundadores. ( Na última eleição não houve sequer um candidato da coligação de esquerda eleito pelo povo...)
Na Piazza del Campidoglio algumas bandeiras vermelhas balançaram com o sopro da direita que importunamente tentou apagar as chamas remanescentes das velas comunistas do bolo itálico. Ainda assim, foi dia de festa...
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Olé toro!

Tambores, clarinetes, trompetes. A banda começa a tocar, inaugurando o desfile dos personagens. Cada função uma fantasia diversa: estampas, tecidos, chapéus, fitas de pano, bastões e lanças. Tudo muito colorido, folclórico, uma mistura de comédia dell’arte com arte circense em um contexto de desfile oficial-nacional. Todos caminham em círculo: a Plaza de Toros em Madrid tem a forma do Coliseu Romano
Quando o touro entra na arena parece um cachorro correndo atrás da bola. Ele procura os panos rosa choque que os senhores enfeitados lhe exibem de diversos pontos e corre atrás para pegar. Que estilo, que porte, esbelto, suntuoso. Às vezes marchando, às vezes correndo. Olha para um lado. Olha para o outro
- Olé toro!
Um homem vem vindo cavalgando – pocotó, pocotó, pocotó. O cavalo embalado em espumas, panos bordados e acessórios dourados para se proteger dos chifres do rival
O cavaleiro enfia a lança no cupim do touro
- Olé toro!
E mais uma!
- Olé toro!
O touro fica parado tentando entender as regras do jogo
Vem vindo o homem com a roupa bufa de estampa xadrez! Vem vindo fazendo graça e malabarismos com bastões coloridos cheios de fitas. Parece o bobo da corte que tanto humor trouxe à nobreza nos tempos da monarquia. Ele se aproxima por detrás do touro distraído e zás! Joga-lhe sobre as costas os bastões cujos ganchos fincados fazem o animal sangrar
- Olé toro!
As fitas coloridas dos bastões encravados balançam com o vento: azul, vermelho, amarelo, branco. O touro pensativo parece ainda não ter entendido que a dinâmica do duelo é desigual
E vem vindo o toureiro! O toureiro em sua elegância principesca!
- Que belo homem, magro, ereto em seu traje todo bordado de dourado. Vem caminhando... como se vira, como finaliza o passo.... o movimento... Tem a postura de um bailarino este toureiro
O pano vermelho! O touro vermelho: mudou de cor!
- ¿Es rabia, señor?
- No hija, es dolor...
O sangue do touro mancha a arena enquanto o toureiro lhe balança o pano - os vermelhos oscilantes se misturam. A tourada é ruiva! A tourada é ruiva!
- Olé toro!
Os dois dançam na Plaza de Toros de las Ventas em Madrid
O bicho parece estar cansado, renunciando a tentativa de entender as normas do combate
- O touro está desistindo! O touro está desistindo!
O bailarino agita novamente o pano vermelho, e na outra mão segura a lança prateada, brilhante. E tudo está brilhando, girando, zumbindo na cabeça do touro: o sol, o vento, a areia e a espada do cavaleiro medieval
- Venga toro!
O último passo do baile termina com a lança que atravessa o animal: das costas atinge o coração. Silêncio. Ele fica parado, ponderando tristemente, com cara de cachorro que tenta entender a dor de barriga. E então gira, desgira, rodopia e cai, vencido
- Olé toro!
O bailarino se curva para agradecer o aplauso tímido do homem do século vinte e um. O touro permanece curvado no chão e faz pouco caso aos agradecimentos. Dizem que eles são assim mesmo, arrogantes, birrentos, e não sabem lidar com derrotas...
A banda recomeça a sonar. Tambores, clarinetes e trompetes. Pocotó, pocotó, pocotó. Os cavalos arrastam o corpo amarrado, enquanto os homens de verde cobrem com areia o vermelho pelo chão. Como um carimbo o desenho do bicho caído ainda fica gravado na arena
- ¿Qué se passa, hija?¿Estás a llorar?
- Estoy intentando olvidarme, señor...
Na tourada que vi em Madrid espectadores se levantaram antes do fim. A maioria era turista e de espanhóis mesmo, só os senhores mais tradicionais. O Olé atravessou solitário o Coliseu Espanhol lembrando-nos de que o homem se transformou e que a tradição das “corridas” já tem prazo de validade
Estou tentando esquecer a tourada que vi em Madrid
O touro é um cachorro grande com chifres que corre atrás do pano pensando que é uma bola
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Lamento de sinistra

Roma amanheceu cinzenta
Estranho, se é ainda primavera...
Berlusconi venceu a eleição
E deixou a cidade cinza
Uma garoa fina caiu a tarde toda
Limpando a tristeza da primavera que já nasceu morta
Lamento di sinistra
Roma si è svegliata grigia
Strano perché é ancora primavera...
Berlusconi ha vinto l'elezione
E ha lasciato la città grigia
C'è stata una pioggerella tutto il pomeriggio
Che puliva la tristezza della primavera che ormai è nata morta
domingo, 13 de abril de 2008
Sobre cinema e porcos
Se verdade ou imitação
Fato é que o cinema me desestabiliza
E o exercício analítico-racional tão indispensável ao meu ofício
Existe em mim como aptidão, ternura, mas também necessidade - a necessidade de me proteger da emoção do cinema
Nas cenas de dor, tortura e morte
Preciso encontrar na tela os sinais da representação (e, portanto do que é falso naquilo que vejo)
Para que minha angústia seja acalmada
E a experiência de fruição melhor dimensionada
Por quê sofrer, afinal?
Sou assim desde criança: acredito e vivo em diversos níveis de realidade, utilizando como meio e suporte a arte, a política, a filosofia e a religião
E preciso sempre me proteger do suspense e da dor do cinema
Vigiando na tela a respiração do ator
que interpreta a personagem assassinada
Analisando o vermelho artificial do sangue irrompido
Decompondo o organismo formal das cenas de perseguição
Tento desconstruir o cinema para me proteger da emoção do cinema
Fracassei
"A árvore dos tamancos” ,filme de Ermanno Olmi ambientado na região campesina italiana de Bergamo:
Na cena em que as personagens matam um ganso
Consegui ver que ele era feito de pano
Era real no início
E depois virou de pano para que lhe cortassem a cabeça
Mas na cena do porco não consegui ver nada
Ele morreu gritando, desesperado
A faca atravessada no peito
O seu choro não era falso
A cor do sangue não era falsa
A dor do porco não era falsa
E desde que vi o assassinato do porco no filme de Ermanno Olmi
Não consigo comer carne suína
Porque o meu sofrimento também foi real
Fato é que o cinema me desestabiliza
E o exercício analítico-racional tão indispensável ao meu ofício
Existe em mim como aptidão, ternura, mas também necessidade - a necessidade de me proteger da emoção do cinema
Nas cenas de dor, tortura e morte
Preciso encontrar na tela os sinais da representação (e, portanto do que é falso naquilo que vejo)
Para que minha angústia seja acalmada
E a experiência de fruição melhor dimensionada
Por quê sofrer, afinal?
Sou assim desde criança: acredito e vivo em diversos níveis de realidade, utilizando como meio e suporte a arte, a política, a filosofia e a religião
E preciso sempre me proteger do suspense e da dor do cinema
Vigiando na tela a respiração do ator
que interpreta a personagem assassinada
Analisando o vermelho artificial do sangue irrompido
Decompondo o organismo formal das cenas de perseguição
Tento desconstruir o cinema para me proteger da emoção do cinema
Fracassei
"A árvore dos tamancos” ,filme de Ermanno Olmi ambientado na região campesina italiana de Bergamo:
Na cena em que as personagens matam um ganso
Consegui ver que ele era feito de pano
Era real no início
E depois virou de pano para que lhe cortassem a cabeça
Mas na cena do porco não consegui ver nada
Ele morreu gritando, desesperado
A faca atravessada no peito
O seu choro não era falso
A cor do sangue não era falsa
A dor do porco não era falsa
E desde que vi o assassinato do porco no filme de Ermanno Olmi
Não consigo comer carne suína
Porque o meu sofrimento também foi real
domingo, 30 de março de 2008
GULA ou a resistência alla romanesca
Sabe-se que os italianos em geral gostam de comer bem e em grande quantidade. O romano é um caso especial - estende seu apetite até sobre o vocabulário, devorando as sílabas e palavras da própria gramática. Dessa forma, uma oração como “Che cosa sta facendo?”, se transforma subitamente em “Ch’ sta a fà?”, “Cosa sta dicendo” em “Ch’sta a dì” e “Andiamo a mangiare” em “annamo a magnà”. O dialeto romanesco é assim, faminto, devora tudo, vogais, verbos, objetos diretos e indiretos, substantivos, todas as palavras que Mussolini, durante seu regime fascista nos anos 30, impôs aos italianos como idioma oficial, autoritário, para unificar a nação e aniquilar as línguas regionais tradicionais.
Ora. Sono bravi questi romani! Mangiate ragazzi, subito, tutte le parole, finchè non ci sia più nessuna! Ricostruiamo l’idioma italiano! Ricreiamolo, dai, più libero! Fuori la destra autoritaria ed americanizzata! Fuori Berlusconi-Mussolini. Buon appetito a tutti quanti! – é como se de repente eu escutasse o eco da voz inesistente de Pasolini, assim, enérgica e apaixonada. Ele que em pleno fascismo publicou "Poesie a Casarsa", um livro de poesias em dialeto friuliano
(língua falada na região camponesa de Friuli), numa clara atitude em defesa da livre expressão e de resistência ao projeto mussoliniano de homogeneização da massa. È como se eu ouvisse o seu grito isolado atravessando o séc. vinte e um....
Ora. Sono bravi questi romani! Mangiate ragazzi, subito, tutte le parole, finchè non ci sia più nessuna! Ricostruiamo l’idioma italiano! Ricreiamolo, dai, più libero! Fuori la destra autoritaria ed americanizzata! Fuori Berlusconi-Mussolini. Buon appetito a tutti quanti! – é como se de repente eu escutasse o eco da voz inesistente de Pasolini, assim, enérgica e apaixonada. Ele que em pleno fascismo publicou "Poesie a Casarsa", um livro de poesias em dialeto friuliano
(língua falada na região camponesa de Friuli), numa clara atitude em defesa da livre expressão e de resistência ao projeto mussoliniano de homogeneização da massa. È como se eu ouvisse o seu grito isolado atravessando o séc. vinte e um....
quarta-feira, 12 de março de 2008
Arroz, Feijão e Doces Bárbaros!

Acredito que um papel fundamental do forasteiro em terra estrangeira é aquele de portar a sua própria cultura a esta sociedade. Apresentá-la. Desesteriotipá-la. Estimá-la. Encorajá-la. Repensá-la a partir dos contrastes culturais e históricos que convive diariamente na experiência imigrante, e depois, enriquecendo-se, também a enriquece, porque lhe pode acrescentar, quando retorna à sua Nação, seus conhecimentos adquiridos no exterior. Foi com este sentimento que cheguei a Roma, portando comigo 20 DVDs brasileiros, além de músicas, temperos, feijão, boldo, partituras de chorinho para piano e idéias. O portar a cultura deveria ser o além do natural (a pessoa em si já é a expressão da sua cultura original), e alcançar o patamar de consciência da responsabilidade em ser o microcosmo de um país, um representante de sua terra-mãe.
Há quem rejeite sua origem, se envergonhe dela, não se identifique, ou que não sente necessidade de portá-la, ou melhor, pronunciá-la durante sua experiência no exterior. Legítimo, por que não? Cada um sabe onde o calo aperta. Mas como o meu sapato é folgado e eu não tenho calos, assumi o papel de ragazza-embaixadora-por-
vocação-e-paixão da cultura brasileira. Gosto de falar do meu país, de aniquilar nossos estereótipos, de exibir filmes nacionais, comentá-los, indicar nomes de escritores brasileiros que admiro, de colocar CDs brasileiros para tocar, enfim, não à toa meus amigos que não conheciam nada, ou quase nada de Brasil, me pedem para gravar CDs de músicas para eles, DVDs brasileiros, querem conversar sobre o cinema nacional, sobre “Tropa de Elite” que ganhou Berlim, acessam sites que indico, me dizem que leram no jornal que está tendo uma epidemia de febre amarela em São Paulo, perguntam o que eu acho de Chávez e da América Latina, compram traduções de Clarice Lispector, me perguntam como se diz determinada expressão em português, e um colega apareceu dia desses com um manual de português pedindo para eu ensiná-lo o “brasiliano”.
Quando tem amor, verdade e liberdade eu fico feliz.
Na última quarta-feira realizei um jantar brasileiro em casa. Na véspera não consegui dormir direito, tamanha era a ansiedade, o sentimento de responsabilidade: seria a primeira vez que meus amigos comeriam uma comida brasileira. E se eles não gostarem? E se der dor de barriga neles? Ai meu Deus, meu Brasil! Mas a quarta-feira amanheceu com sol. Depois da aula vim pra casa e cozinhei para 10 pessoas: feijão preto com bacon, arroz com alecrim, salada e frango cozido com batatas - colorau, açafrão, coentro e pimenta do reino. Fazia tempo que não sentia o perfume da comida brasileira. Que alegria. Na sala, Clara Nunes sambava! Na cozinha eu dançava com as panelas, tudo era diversão. Esperemos agora para ver o que meus colegas dirão.
Nove horas da noite. Começaram a chegar. Cervejinha, salaminho, azeitonas e provolone abriam alas ao apetite. E a bossa-nova rolando solta no saloto. Bate-Papo. Depois cheguei com as panelas. Perfume. Hummmm. Açafrão, coentro, feijão. Mangiare!!! Silêncio. Todos comiam com tanto prazer que nos primeiros minutos não podiam sequer falar. Cartola sambava na sala, sozinho. Os elogios foram surgindo: “Madonna! Che saporito!”, “Voglio andare in Brasile!”, “Mamma Mia, buonissimo!”. E aos poucos voltaram a falar, conversar, mas sempre resgatando o motivo do encontro: “Che bel mangiare! Grazie!”, “Madonna, com’é diverso, che buono!”, diziam, repetiam o verbo e o prato, interrompiam o discurso de alguém. Eu, àquela altura, estava nas nuvens, satisfeita, tranqüila, contente que haviam gostado da comida brasileira. E evidentemente, estava feliz por mim, de comer eu mesma a comida do meu país, depois de dois meses e meio de pasta, pasta e mais pasta.
Exibi trechos do show dos Doces Bárbaros (realizado em ocasião da comemoração de 25 anos do primeiro show do grupo) e de Ney Matogrosso (um show enérgico, com repertórios de Rita Lee, Cazuza, Pedro Luís, etc). Tenho um projetor em casa e os exibi grandes, na parede, o som alto. A exceção de Caetano Veloso que é muito conhecido por aqui, e um pouco a Gal Costa, dos demais não se sabia a existência, ou então, já se tinha ouvido falar muito pouco. Resultado: delìrio. Sucesso – de público e de crítica! Ney Matogrosso com toda a sua sensualidade transgressiva e colorada; Os Doces Bárbaros com todo o mito de Caetano, Gil, Gal e Bethânia, as cores, os afoxés, os afetos. Parênteses: não significa que me esqueci que Caetano é amiguinho do Fernando Henrique Boca de Pudim! Anzi, fiz questão de sublinhar, para a surpresa da galera, a opção polìtica do baiano. Fecha parênteses. De todas as músicas-cenas, a que mais marcou a serata foi a lendária “Esotérico”, interpretada por Bethânia e Gal entre olhares ambíguos, enquanto Gil toca o violão e Caetano se debruça em seu ombro, num gesto de doce afetividade. O clímax. Aplausos. Alto-astral coinvolgente!
A noite prosseguiu com bate-papo. Jorge Ben dançava na sala e desta vez alguns italianos tentavam acompanhá-lo em seu swing. O jantar acabou tarde, quatro e meia da madrugada. E no dia seguinte, ninguém foi à aula da manhã. À tarde, o professor perguntou a razão das ausências matinais. E nada hesitantes meus colegas responderam: culpa da brasiliana professore! Do frango, do feijão e dos Doces Bárbaros!
“Com amor no coração, preparamos a invasão. Cheios de felicidade, entramos na cidade amada...” (“Os mais doces bárbaros”, Caetano Veloso).
terça-feira, 4 de março de 2008
As sete cores de Franco Zeffirelli



Na última terça-feira foi celebrada no Centro Sperimentale di Cinematografia a abertura do ano acadêmico. Um evento um pouco tardio, afinal, as aulas jà começaram hà quase dois meses, mas a razào desse atraso foi a crise política então instalada no país com a queda do governo Prodi.
Na cerimônia estavam presentes algumas figuras pùblicas significativas, tais quais Francesco Alberoni, presidente da Fundação Centro Sperimentale, Giuseppe Cereda, diretor da Scuola Nazionale di Cinema e Francesco Rutelli, atual ministro no Ministério per i Beni Culturali e provável próximo sindaco (prefeito) de Roma. Alguns ex-alunos que marcaram a história do cinema e da televisão italianas foram homenageados, recebendo, cada um deles, um diploma de reconhecimento e realizando um pequeno discurso para um auditório com cerca de 400 pessoas. Foram: Elli Parvo, atriz que marcou o cinema dos anos 40 e 50; Raffaela Carrà, atriz do cinema dos anos 60 que se transformou em uma das mais modernas showgirls da televisão italiana sendo considerada hoje uma diva; Arnoldo Foà, mítico ator italiano de origem judaica que possui no currìculo mais de 100 filmes e peças tatrais realizados desde os anos 30; Carlo Lizanni, grande nome do cinema neo-realista e político italiano e por fim, Franco Zeffirelli, diretor-pupilo de Luchino Visconti, que consolidou sua carreira nos Estados Unidos e realizou dentre tantas obras, o clàssico “Romeu e Julieta”, “A Paixào de Cristo” e “Irmào Sol, Irmà Lua”.
Franco Zeffirelli, em seu discurso, denunciou o isolamento que sofreu nos anos 60, quando iniciou sua carreira cinematográfica na Itália: “Eu fui expulso da Associação Italiana de Autores porque eu propunha outro tipo de cinema, diverso daquele que então era feito. Eu era contra o cinema político-ideológico e pornográfico, meu cinema era de poesia, um cinema que resgatava o princípio do amor e da pureza”. Depois de continuar a sua fala agressiva e um pouco ambígua, onde não se compreendia se elogiava ou ironizava diversas figuras da cena cinematográfica contemporânea, Zeffirelli abalou os alicerces do cerimonial tocando no assunto sexualidade. A origem deste desenlace foi a apresentação inicial de seu breve currículo feita pelo mestre de cerimônias, a qual em determinado momento dizia que este cineasta é antes de tudo um grande artista, que teve significativa atuação além do cinema, em outras duas linguagens artìsticas, o teatro e a ópera, e que, portanto, poderia se dizer que Zeffirelli é um apaixonado que possui 3 mulheres. E eis que Zeffirelli, nos momentos finais de seu discurso de agradecimento, resgatou esse comentário inicial do mestre de cerimônias para desestabilizar uma mesa composta por senhores sérios, aparentemente católicos, heterossexuais na cama e centro-direita na política, quando não direita total, digamos assim. “Eu gostaria de comentar que quando fui apresentado como um artista apaixonado que possui 3 mulheres, quem disse que são mulheres? É preciso deixar claro os seus sexos”. O público de jovens caiu na gargalhada e os senhores à mesa, e mesmo aqueles à platéia imergiram em um profundo constrangimento, mudando até a cor da cara. Vermelho. Silêncio. Zeffirelli prossegue: “O teatro é masculino. A ópera é feminina. E o cinema, tutti e due”. Mais risadas juvenis contrapesadas com o silêncio mumificado das meia e terceira idades cristãs. O cinema è bissexual! O cinema è bissexual!
Zeffirelli agradeceu e voltou ao seu lugar, acompanhado por aplausos calorosos. E foi assim que descobri que uma cerimônia formal de centro-destra pode ser abalada por piccolas questões de foro íntimo. E aprendi também que bicha em italiano é “frocio”.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Amirós
Como uma pessoa ecumênica que sou, ou seja, que estima e crê concomitantemente em diversos discursos religiosos por acreditar que estes sejam dialógicos e complementares entre si, negando, dessa forma, qualquer supremacia de um sobre o outro, vou contar uma experiência divertida que me aconteceu.
Em 2004 adquiri uma pintura mediúnica da qual gosto bastante, e que cumpre, digamos assim, a sua função curativa e energética: reequilibrar o humor e as emoções. É um quadro colorido composto por formas abstratas, pintado com giz de cera em papel cartão A3. O seu único problema, digamos assim, é ter sido assinado por Miró. Nada contra os espíritas kardecistas, mas certa mania de grandeza que muitos deles têm è da rompere i coglioni, per dire una espressione italiana. Por què muitos kardecistas se remetem freqüentemente a grandes nomes da humanidade, na arte, na filosofia e na política, para traçar o passado reencarnatório de um determinado espírito, ou justificar a autoria de determinada obra? Por què tantos espíritos são a reencarnação de Cleópatra, de Júlio César, de Nero, Napoleão, para dizer alguns nomes, e não de Mariazinha, José e Joana de tal? Por què quem assina os quadros mediúnicos são sempre Monet, Dalí, Miró, Renoir, Picasso, nomes conhecidos e banalizados pela burguesia consumista que sempre tem em suas salas de estar e consultòrios reproduções grotescas de suas obras, sendo que subitamente se reconhece que sequer os traços desses artistas as pinturas mediúnicas possuem? Enfim, a referência a nomes importantes registrados na história da arte e da humanidade podem significar uma mania de grandeza e até uma necessidade de credibilidade a qual recorre muitas pessoas que se auto denominam kardecistas. Esta é uma prática que faz com que eu sinceramente questione o espiritismo pequeno burguês que vem sendo praticado em muitos centros pelos quais eu passei no Brasil.
Mas voltando ao Miró que ficava na parede do meu quarto em São Paulo. O fato foi que queria trazer este quadro comigo para Roma, para colocá-lo no meu quarto caso eu necessitasse de sua energia terapêutica nos momentos de dificuldades. Mas aquela assinatura de Miró, Mamma Mia, che palle! Cada vez que eu a olhava simplesmente não ci poteva credere! E imaginei che casino que seria eu em Roma tendo que explicar aos meus amigos católicos que aquele quadro foi pintado em uma sessão mediúnica espírita, por um espírito que se diz chamar Miró, mas que nem eu mesma acreditava ser o real Miró dos livros de arte. O que? Espírito? O que é uma pintura mediúnica? A minha explicação começaria desde o princípio porque por aqui ninguém nunca ouviu falar em Kardec. Enfim, para poupar a fadiga, e para evitar a minha própria indignação diária ao ler a assinatura de Miró naquele papel cartão A3, eu simplesmente fiz um pequeno ajuste no quadro. Junto com uma amiga, pensamos uma saída: pegamos um giz de cera preto e zás, duas letras resolveram o impasse e a assinatura passou de Miró para AMIRÓS. Amirós! Agora sim! Nada mais me disturba, pelo contrário, arranjei um toque a mais de humor para imprimir sobre o quadro, colaborando, de alguma forma, com o efeito esperado de suas qualidades energético-curativas. E é isso o que importa, não é?
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Minha declaração de amor a Roma

(Família de bicicleta. Anahí Borges, 09.02.2008)
(Inverno colorido. Anahí Borges, 10.02.2008)

(A sedutora. Anahí Borges, 09.02.2008)
(Fahrenheit 451. Anahí Borges, 06.02.2008)
(Serenata contemporânea. Anahí Borges, 05.02.2008
(Senhores no Parco Appia Antica. Anahí Borges, 08.02.2008)

(O ditador. Anahí Borges, 09.02.2008)
(Stazione metro Cipro. Anahí Borges, 04.02.2008)

(Mulheres mortas. Anahí Borges, 10.02.2008)
(Azul. Anahí Borges, 07.02.2008)
(Do Circo Massimo. Anahí Borges, 06.02.2008)
(Final de filme. Anahí Borges, 10.02.2008)
PS - Para ver mais fotos clicar: 12 fotos para um pseudo-calendário romano)
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
O sentimento do exìlio
Reflexòes sobre o exìlio, Edward Said
" Os nacionalismos dizem respeito a grupos, mas, num sentido muito agudo, o exìlio è uma solidào vivida fora do grupo... O exìlio, ao contràrio do nacionalismo, è fundamentalmente um estado de ser descontìnuo. Os exilados estào separados das raìzes, da terra natal, do passado ".
" O exilado sabe que, num mundo secular e contingente, as pàtrias sào sempre provisòrias...".
" Embora seja verdade que toda pessoa impedida a voltar para casa è um exilado, è possìvel fazer algumas distinçòes entre exilados, refugiados, expatriados e emigrados..."
" Ver o mundo inteiro como um terra estrangeira possibilita a originalidade da visào. A maioria das pessoas tem consciència de uma cultura, um cenàrio, um paìs; os exilados tèm consciència de ao pelo menos dois desses aspectos, e essa pluralidade de visòes dà origem a uma consciència de visòes simultàneas, uma consciència que è contrapontìstica. Para o exilado os hàbitos de vida, expressào ou atividade no novo ambiente ocorrem inevitavelmente contra o pano de fundo da memòria dessas coisas em outro ambiente. Assim, ambos os ambientes sào vìvidos, reais, ocorrem juntos como no contraponto."
"Nas palavras de Wallace Stevens, o exìlio è uma "mente de inverno" em que o phatos do verào e do outono, assim como o potencial da primavera, estào por perto mas sào inatingìveis".
" Os nacionalismos dizem respeito a grupos, mas, num sentido muito agudo, o exìlio è uma solidào vivida fora do grupo... O exìlio, ao contràrio do nacionalismo, è fundamentalmente um estado de ser descontìnuo. Os exilados estào separados das raìzes, da terra natal, do passado ".
" O exilado sabe que, num mundo secular e contingente, as pàtrias sào sempre provisòrias...".
" Embora seja verdade que toda pessoa impedida a voltar para casa è um exilado, è possìvel fazer algumas distinçòes entre exilados, refugiados, expatriados e emigrados..."
" Ver o mundo inteiro como um terra estrangeira possibilita a originalidade da visào. A maioria das pessoas tem consciència de uma cultura, um cenàrio, um paìs; os exilados tèm consciència de ao pelo menos dois desses aspectos, e essa pluralidade de visòes dà origem a uma consciència de visòes simultàneas, uma consciència que è contrapontìstica. Para o exilado os hàbitos de vida, expressào ou atividade no novo ambiente ocorrem inevitavelmente contra o pano de fundo da memòria dessas coisas em outro ambiente. Assim, ambos os ambientes sào vìvidos, reais, ocorrem juntos como no contraponto."
"Nas palavras de Wallace Stevens, o exìlio è uma "mente de inverno" em que o phatos do verào e do outono, assim como o potencial da primavera, estào por perto mas sào inatingìveis".
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Romantismo ingênuo
A gentileza dos homens italianos é culturalmente enraizada, se revela em todas as faixas etárias e nas situações mais prosaicas possíveis: no refeitório da faculdade pode esperar que um seu amigo freqüentemente se oferece para levar a sua bandeja, ao caminhar pelos corredores você sempre terá preferência para passar por qualquer porta pois este seu mesmo amigo, caminhando ao seu lado, quando não te abre a porta , certamente pára até que você passe primeiro. Ou então, se você está na fila da cantina para pegar um café, na primeira distração o balconista acaba te entregando dois cafés porque o primeiro o seu amigo já pagou para você.
E então li um aviso aos passageiros dentro do trem: “Deixe os assentos livres para que se sentem os inválidos, as pessoas idosas e as mulheres”.
Machismo mascarado, desavergonhado! Um processo histórico católico e conservador. A sociedade de apenas um sobrenome: o paterno. O valor sagrado de família e do casamento heterossexual monogâmico. Grande semelhança com os valores sociais brasileiros. Costumo dizer que nossa sociedade brasileira antes de ser cordial, é machista. Aliás, segundo uma pesquisa norte-americana sobre relações de gênero nos países (li sobre esta pesquisa no livro “O Novo Cinema Iraniano”, de Alessandra Meleiro), dentro de uma escala 0 a 100% de desigualdade sexual, o Brasil se situa em 55%. Que vergonha! Mas, voltando ao anúncio no trem: este serviu para estimular em mim a reflexão sobre as muitas facetas do pseudo-gesto elegante que uma sociedade machista oferece às mulheres. E mais dissimulado do que ele próprio, está a emoção ingênua que nós mulheres manifestamos diante de um gesto elegante de machismo. Estou falando de raízes culturais intrínsecas em povos conservadores. Complicada esta questão, ainda que as relaçòes de gênero estejam se modificando, lentamente.
E foi assim que descobri a ontologia da palavra cavalheirismo.
E então li um aviso aos passageiros dentro do trem: “Deixe os assentos livres para que se sentem os inválidos, as pessoas idosas e as mulheres”.
Machismo mascarado, desavergonhado! Um processo histórico católico e conservador. A sociedade de apenas um sobrenome: o paterno. O valor sagrado de família e do casamento heterossexual monogâmico. Grande semelhança com os valores sociais brasileiros. Costumo dizer que nossa sociedade brasileira antes de ser cordial, é machista. Aliás, segundo uma pesquisa norte-americana sobre relações de gênero nos países (li sobre esta pesquisa no livro “O Novo Cinema Iraniano”, de Alessandra Meleiro), dentro de uma escala 0 a 100% de desigualdade sexual, o Brasil se situa em 55%. Que vergonha! Mas, voltando ao anúncio no trem: este serviu para estimular em mim a reflexão sobre as muitas facetas do pseudo-gesto elegante que uma sociedade machista oferece às mulheres. E mais dissimulado do que ele próprio, está a emoção ingênua que nós mulheres manifestamos diante de um gesto elegante de machismo. Estou falando de raízes culturais intrínsecas em povos conservadores. Complicada esta questão, ainda que as relaçòes de gênero estejam se modificando, lentamente.
E foi assim que descobri a ontologia da palavra cavalheirismo.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Qual a cor da velhice?
Ciao Fiorella! Come stai bella?
Há quanto tempo não nos falamos... Resolvi te escrever porque me recordei de você enquanto revia as fotografias do casamento de Raffaello. Cá entre nós, você está linda naquele vestido azul e te confesso que demorei 68 anos para compreender isso. Tem uma foto em que você está ao lado de Michele com a cabeça baixa, como se estivesse conferindo se o seu sapato estava justo, ou sujo, não sei, e que vestido lindo o seu, que caimento aquele tecido, e que tonalidade...
Cara, como estão todos por aí? Giuseppe, Andrea, Paolo? Mande lembranças a eles por mim.
Aqui as coisas estão bem, só não estão melhores porque a minha dor nas costas não permite que estejam. Madonna! Tem noites que não consigo pregar os olhos um minuto sequer. Ma va bene, 92 anos de idade pesam mesmo e apesar de tudo, minha lucidez ainda me permite existir.
O Quarticciolo tornou-se um bairro de idosos. As famílias que aqui moram utilizam o bairro como dormitório e de manhã cedo, pais e mães retomam as suas rotinas proletárias junto aos grandes centros romanos. Os jovens assim que começam a estudar se mudam para as zonas mais centralizadas e dividem apartamentos com os amigos da faculdade. Aqui restamos nós, a esperar as visitas de domingo.
O Centro dos Idosos (Centro Anziani del Quarticciolo) mudou de lugar, não é mais ali ao lado da igreja, agora é uma casa nova, grande, toda pintada de bege e com as janelas verdes. Fica ao lado do mercado de frutas, sabe, ali perto da praça? Pois é, com a mudança de ares o local está ficando cada vez mais freqüentado e as atividades, mais interessantes. Todas as tardes nos reunimos para jogar cartas, ouvir música, conversar. As quintas e sábados à noite realizamos bailes que costumam encher, são 150 a 200 idosos dançando liscio, tango, valsa, jazz e até música latino-americana. Está sendo ótimo porque vivemos nossa velhice com dignidade, com velocidade. Os dias passam mais rapidamente e tudo parece mais interessante, tão interessante quanto escapar das missas aos domingos.
No Centro Anziani do Quarticciolo diversas pessoas se apaixonam, casamentos acontecem, e alguns são simplesmente amantes que tem suas respectivas vidas, famìlias e cònjuges e se encontram no baile, escondidos dos familiares, para namorar. Lembra-se de Piero e Grazia? Se casaram há um ano e ambos eram viúvos há mais de 10. Sergio e Ottavia também, fizeram até um jantar de celebração com os filhos e netos. Eu já conhecia Donato do antigo Centro, mas nosso relacionamento só foi acontecer de verdade nesta nova sede. Uma noite, depois do baile, ele me acompanhou até em casa e se declarou a mim, dizendo estar apaixonado. E eu, que sentia o mesmo, disse que aceitava a sua proposta de casamento. Um casamento diferente, inusitado, eu havia 89 anos e ele 87, todos os dois viúvos, mas de qualquer forma, uma ocasião da non perdere. Optamos por morar em casas separadas porque, afinal, quando somos jovens aprendemos a conviver com os defeitos do companheiro, mas na velhice os defeitos já estão tão marcados que a convivência beira o insuportável. De qualquer forma, é uma forma diferente de amor, e de matrimònio. É uma escolha importante esta de definir a pessoa que estará ao seu lado nestes momentos finais, mas também é eleger um sofrimento a mais para suportar: a insegurança de pensar diariamente quem partirá primeiro, e tudo é muito provisório neste sentido. Eu e Donato nos falamos todas as manhãs por telefone, às tardes ele me busca para irmos ao Centro Anziani, e às noites de quinta e sábado bailamos. Donato é muito gentil, tem os olhos azuis e uma boina de comunista. As senhoras do bairro sentem inveja do amor dele por mim. E eu, sinto ciúmes quando no baile ele tira outra mulher para dançar.
Esta semana um grupo de jovens estudantes de cinema do Centro Sperimentale apareceu no nosso baile em busca de histórias de amor. Disseram que estão fazendo um documentário sobre a memória do bairro para a faculdade. Eu lhes contei sobre minha vida, sobre meus filhos, netos, bisnetos e sobre Donato. Donato lhes contou sobre a guerra, sobre a ocupação nazista a Roma, sobre seus filhos, seus netos, seus bisnetos e também sobre mim. Os garotos filmaram tudo: a entrevista, o baile, os sapatos, os abraços, e ainda nos perguntaram sobre sexo. Veja se pode, essa juventude de hoje não tem vergonha na cara mesmo, e me esquivei da pergunta como me esquivo diariamente dos meus filhos pedindo dinheiro emprestado. Bem, os garotos disseram que retornarão para nos mostrar o filme pronto. Já pensou que maravilha se um dia passar na televisão?
Cara, termino por aqui senão a carta ficará muito longa. Me escreva quando puder. Estou te mandando também algumas fotografias do nosso baile para que veja como é animado, e uma foto minha com Donato, para que conheça o mais recente marido desta sua velha amiga. Ecco, bota velha nisso.
Um abraço sincero,
Maria Massara
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
As lágrimas de Ermanno Olmi

Hoje assisti à obra-prima de Ermanno Olmi, vencedora da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1978, intitulada “L’albero degli zoccoli”(a árvore dos tamancos). É um filme surpreendentemente belo que reconstrói de modo contemplativo e minimalista a vida dos camponeses da Provincia di Bergamo (norte da Itália) no final do séc. XIX. Aspectos de uma Itália ainda feudal, onde as relações de trabalho são pautadas pela servidão ao senhor das terras, chegam ao espectador através do olhar poético-biográfico do cineasta que nasceu nesta região. Olmi se aproxima um pouco de Pasolini neste sentido, ambos são cineastas de origem campesina que buscaram, em muitas de suas obras, religarem-se às tradições ou valores simbólicos provenientes do campo tais como a pureza de caráter, a humanidade e a sacralidade como condição primordial de suas personagens, o respeito pela natureza e a ingenuidade e beleza no viver dos humildes. E claro, no papel de militantes de esquerda, ambos os cineastas são fortemente atrelados ao conceito de cinema político e suas obras exibem a intercepção do discurso estético com o de crítica às relações sociais baseadas nas relações de poder entre o patrão e o camponês/operário.
Em “L’albero degli zoccoli”, a preferência de Olmi pela verdade na representação utilizando como atores os próprios habitantes da região, assim como as locações do lugar, a sua luz natural, etc, é a força dramática da obra. O dialeto do filme, bergamasco, é um italiano difícil de compreender e o seu ritmo me fez recordar da fala do gaúcho brasileiro com leves pitadas de francês.
Neste texto não pretendo me aprofundar mais, prefiro dar a voz ao cineasta-autor que além do roteiro e direção também assinou a direção de fotografia e montagem. Abaixo transcrevi um trecho da entrevista de Ermanno Olmi presente nos extras do DVD, que no Brasil foi lançado pela Versátil (mas não sei se no dvd brasileiro tem este extra). Uma entrevista comovente, na qual o cineasta tinha os olhos cheios de lágrimas (optei por deixá-la na lìngua original porque a beleza também está nas suas palavras como são). O que Olmi diz merece ser registrado, divulgado, destacado como sentenças de um artista de significativo gabarito e de um amor inenarrável pela Memória. “L’albero degli zoccoli”, para finalizar, é um filme-manifesto de rememoração e legitimação da cultura campesina milenar e carrega consigo as suas belezas plásticas e humanas contrastantes, feitas de dor e de cor, de sangue e perfume.
Depoimento de Ermanno Olmi – “L’albero degli zoccoli”, extra do dvd, 2001.
“Io non sono mai stato un cineasta per il cinema, direi che amo molto la vita, come tutti, e quindi amo rappresentare quella vita che mi appartene di piu, quella realtà che piu ha influenzato la mia esistenza. Io sono figlio di quella terra. E quindi, è come fare un ritratto della madre. La madre la riconosciamo davvero quando ormai è perduta. Quando l’ abbiamo accanto, la madre è una realtà che ci spetta e quindi non ne siamo del tutto consapevoli. E quando ci viene a mancare, allora cerchiamo nella memoria di ricomporre il suo volto, sentire le voci, avere addirittura una sensazione palpabile del ricordo. E questo somilglia molto al cinema”.
“Proprio perchè quella realtà è cosi marcadamento speciale, particolare, i protagonisti dovevano essere veri contadini, così come vera è la realtà scenografica, le stalle, la campagna, la luce. Non è la luce di un teatro di posa, ma è la luce delle stagione, proprio del fluire del tempo con le sue scansione naturali. Tutto questo per me ha un valore prioritario, al di sopra del cinema stesso, quindi il cinema è soltanto quello strumento che utilizziamo per poter stabilire un rapporto col pubblico e quindi per poter riferire al nostro destinatario quello che piu ci sta a cuore”.
“Dopo Cannes, il successo del film, il mondo contadino si è sentito riconosciuto e ho avuto anch’io la sensazione che anche in quel mondo intellettuale che viveva, sopratutto quel mondo di estrazione accademica, mantendendo delle distanze, con questo mondo considerato addirittura da alcuni non sufficientemente degno di essere una cultura, li, secondo me, molti argini si sono rotti, e molte mente illuminate hanno capito che il mondo contadino era depositario di una cultura millenaria”.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
A ùltima dos Taviani

"A Casa das Cotovias" (Le Masserie delle Allodole, 2007)
Paolo e Vittorio Taviani são fortemente ligados a causas sociais, à representação da arbitrariedade e poder de um indivíduo sobre outro, a eventos históricos que ilustram a crueldade a que pode chegar o ser humano frente aos seus desejos avarentos e individualistas. Os irmãos Taviani têm sua obra fortemente atrelada ao conceito de cinema político e com “A Casa das Cotovias” esses realizadores demonstraram que não perderam de vista o cinema que busca a liberdade do sujeito, mas infelizmente perderam, certamente, a mão que fazia os clássicos e premiados dramas sociais.
O belo “A Noite de São Lourenço”, filme realizado pela dupla em 1982, conta uma história situada na segunda guerra mundial quando os ocupadores nazistas pretendem massacrar a população do vilarejo de San Miniato, na Toscana. Diante dessa ameaça alguns moradores fogem do povoado em busca de sobrevivência e liberdade. O filme é uma narrativa épica que inicia com a narradora contando a história ao seu filho: a obra consiste em um único flashback. A história segue o ponto de vista da personagem que narra, entretanto, não se centra em protagonistas específicos, mas na pluralidade de trajetórias e conflitos dramáticos, fazendo com que o espectador se identifique e se emocione com os destinos de todos eles. Os personagens não existem em escala de importância, e ainda que vivenciem pequenos dramas individuais, o que está em foco é o rumo da comunidade, todos estão envolvidos em um projeto coletivo de libertação e justiça. Como proposta de retratação de um evento histórico, “A Noite de São Lourenço” consegue conjugar esses elementos épicos de forma primorosa e construir a trajetória coletiva do grupo social atingido pela violência da guerra.
Em “A Casa das Cotovias” o tom épico enunciado pelo conteúdo entra em contradição com o enunciado formal do filme, e a tragédia social do massacre dos armênios cometido pelos turcos durante a Primeira Guerra Mundial ganha dimensões privadas em que o ato individual heróico é louvado e o ato coletivo, negado. Formalmente a obra opta por individualizar processos históricos, além de inserir freqüentemente o sentimento do amor romântico e trágico: um filme em que a personagem má do capitão do exército turco/ partido da juventude turca é a responsável pela retaliação contra os armênios; é um filme em que “Romeu e Julieta” são atualizados na figura de uma dama armênia e um soldado turco; um filme em que a figura da heroína martirizada está na matriarca Sra. Avakian a quem todos procuram para pedir ajuda e sobre a qual a história é centrada (nela e na sua família); um filme em que em razão de uma personagem dedo-duro, o mendigo Nazim, o exército encontra os armênios escondidos na Casa das Cotovias. O mesmo Nazim, motivado pela culpa, posteriormente mobiliza forças para salvar as mulheres da família Avakian do acampamento turco; um filme que consegue criar uma história de amor no campo de concentração entre um soldado turco, Youssouf, e a prisioneira armênica Nunik. Youssouf, inclusive, após executar a ordem de matar Nunik, no final do filme é o herói que denuncia ao tribunal turco, durante o julgamento do massacre armênio, as atrocidades cometidas pelos soldados; “A Casa das Cotovias” aborda um evento histórico importante do qual ainda perduram as marcas na Turquia (os armênios constantemente exigem do Governo Turco o prosseguimento nos julgamentos pelo crime do massacre, há anos interrompido), mas sobre a ótica da personalização e banalização: na interpretação exageradamente dramática dos atores, no uso repetitivo da música grandiloqüente, na criação de situações dramáticas individuais, na valorização da vontade pessoal e do heroísmo do sujeito.
Diferentemente de “A Noite de São Lourenço”, em que a épica existe na forma e no conteúdo, “A Casa das Cotovias” é um equívoco, uma épica abortada e transformada em drama burguês. É uma pena que o projeto de cinema político dos Taviani tenha resultados como este, em que a intenção pelo engajamento social e pela liberdade coletiva são, na verdade, as cascas de um discurso individualista e burguês, no qual o ato heróico do indivíduo é favorecido em detrimento de uma perspectiva libertária do ato coletivo, próprio da épica.
Curiosidade: esta semana tive a oportunidade de conhecer os Taviani pessoalmente em um evento realizado no Centro Sperimentale. Muito gentis, sorridentes, brincalhòes, verdadeiros vovôs. Na ocasiào, perguntei-lhes sobre esta contradiçào de forma e conteùdo presente no seu ùltimo filme e, para a minha surpresa, responderam que nào haviam pensado sobre isso. Receberam minha pergunta com humildade e curiosidade, como se eu estivesse dizendo uma novidade. Entào eu que me pergunto: como è possivel que cineastas de tamanho porte cheguem ao final da carreira realizando filmes de maneira assim inconsequente (ou se poderia dizer instintiva???)?. Nào à toa "A casa das cotovias" nào foi bem recebido nem pelo pùblico, nem pela crìtica. Ecco, lasciamo perdere...
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