Sabe-se que os italianos em geral gostam de comer bem e em grande quantidade. O romano é um caso especial - estende seu apetite até sobre o vocabulário, devorando as sílabas e palavras da própria gramática. Dessa forma, uma oração como “Che cosa sta facendo?”, se transforma subitamente em “Ch’ sta a fà?”, “Cosa sta dicendo” em “Ch’sta a dì” e “Andiamo a mangiare” em “annamo a magnà”. O dialeto romanesco é assim, faminto, devora tudo, vogais, verbos, objetos diretos e indiretos, substantivos, todas as palavras que Mussolini, durante seu regime fascista nos anos 30, impôs aos italianos como idioma oficial, autoritário, para unificar a nação e aniquilar as línguas regionais tradicionais.
Ora. Sono bravi questi romani! Mangiate ragazzi, subito, tutte le parole, finchè non ci sia più nessuna! Ricostruiamo l’idioma italiano! Ricreiamolo, dai, più libero! Fuori la destra autoritaria ed americanizzata! Fuori Berlusconi-Mussolini. Buon appetito a tutti quanti! – é como se de repente eu escutasse o eco da voz inesistente de Pasolini, assim, enérgica e apaixonada. Ele que em pleno fascismo publicou "Poesie a Casarsa", um livro de poesias em dialeto friuliano
(língua falada na região camponesa de Friuli), numa clara atitude em defesa da livre expressão e de resistência ao projeto mussoliniano de homogeneização da massa. È como se eu ouvisse o seu grito isolado atravessando o séc. vinte e um....
domingo, 30 de março de 2008
quarta-feira, 12 de março de 2008
Arroz, Feijão e Doces Bárbaros!

Acredito que um papel fundamental do forasteiro em terra estrangeira é aquele de portar a sua própria cultura a esta sociedade. Apresentá-la. Desesteriotipá-la. Estimá-la. Encorajá-la. Repensá-la a partir dos contrastes culturais e históricos que convive diariamente na experiência imigrante, e depois, enriquecendo-se, também a enriquece, porque lhe pode acrescentar, quando retorna à sua Nação, seus conhecimentos adquiridos no exterior. Foi com este sentimento que cheguei a Roma, portando comigo 20 DVDs brasileiros, além de músicas, temperos, feijão, boldo, partituras de chorinho para piano e idéias. O portar a cultura deveria ser o além do natural (a pessoa em si já é a expressão da sua cultura original), e alcançar o patamar de consciência da responsabilidade em ser o microcosmo de um país, um representante de sua terra-mãe.
Há quem rejeite sua origem, se envergonhe dela, não se identifique, ou que não sente necessidade de portá-la, ou melhor, pronunciá-la durante sua experiência no exterior. Legítimo, por que não? Cada um sabe onde o calo aperta. Mas como o meu sapato é folgado e eu não tenho calos, assumi o papel de ragazza-embaixadora-por-
vocação-e-paixão da cultura brasileira. Gosto de falar do meu país, de aniquilar nossos estereótipos, de exibir filmes nacionais, comentá-los, indicar nomes de escritores brasileiros que admiro, de colocar CDs brasileiros para tocar, enfim, não à toa meus amigos que não conheciam nada, ou quase nada de Brasil, me pedem para gravar CDs de músicas para eles, DVDs brasileiros, querem conversar sobre o cinema nacional, sobre “Tropa de Elite” que ganhou Berlim, acessam sites que indico, me dizem que leram no jornal que está tendo uma epidemia de febre amarela em São Paulo, perguntam o que eu acho de Chávez e da América Latina, compram traduções de Clarice Lispector, me perguntam como se diz determinada expressão em português, e um colega apareceu dia desses com um manual de português pedindo para eu ensiná-lo o “brasiliano”.
Quando tem amor, verdade e liberdade eu fico feliz.
Na última quarta-feira realizei um jantar brasileiro em casa. Na véspera não consegui dormir direito, tamanha era a ansiedade, o sentimento de responsabilidade: seria a primeira vez que meus amigos comeriam uma comida brasileira. E se eles não gostarem? E se der dor de barriga neles? Ai meu Deus, meu Brasil! Mas a quarta-feira amanheceu com sol. Depois da aula vim pra casa e cozinhei para 10 pessoas: feijão preto com bacon, arroz com alecrim, salada e frango cozido com batatas - colorau, açafrão, coentro e pimenta do reino. Fazia tempo que não sentia o perfume da comida brasileira. Que alegria. Na sala, Clara Nunes sambava! Na cozinha eu dançava com as panelas, tudo era diversão. Esperemos agora para ver o que meus colegas dirão.
Nove horas da noite. Começaram a chegar. Cervejinha, salaminho, azeitonas e provolone abriam alas ao apetite. E a bossa-nova rolando solta no saloto. Bate-Papo. Depois cheguei com as panelas. Perfume. Hummmm. Açafrão, coentro, feijão. Mangiare!!! Silêncio. Todos comiam com tanto prazer que nos primeiros minutos não podiam sequer falar. Cartola sambava na sala, sozinho. Os elogios foram surgindo: “Madonna! Che saporito!”, “Voglio andare in Brasile!”, “Mamma Mia, buonissimo!”. E aos poucos voltaram a falar, conversar, mas sempre resgatando o motivo do encontro: “Che bel mangiare! Grazie!”, “Madonna, com’é diverso, che buono!”, diziam, repetiam o verbo e o prato, interrompiam o discurso de alguém. Eu, àquela altura, estava nas nuvens, satisfeita, tranqüila, contente que haviam gostado da comida brasileira. E evidentemente, estava feliz por mim, de comer eu mesma a comida do meu país, depois de dois meses e meio de pasta, pasta e mais pasta.
Exibi trechos do show dos Doces Bárbaros (realizado em ocasião da comemoração de 25 anos do primeiro show do grupo) e de Ney Matogrosso (um show enérgico, com repertórios de Rita Lee, Cazuza, Pedro Luís, etc). Tenho um projetor em casa e os exibi grandes, na parede, o som alto. A exceção de Caetano Veloso que é muito conhecido por aqui, e um pouco a Gal Costa, dos demais não se sabia a existência, ou então, já se tinha ouvido falar muito pouco. Resultado: delìrio. Sucesso – de público e de crítica! Ney Matogrosso com toda a sua sensualidade transgressiva e colorada; Os Doces Bárbaros com todo o mito de Caetano, Gil, Gal e Bethânia, as cores, os afoxés, os afetos. Parênteses: não significa que me esqueci que Caetano é amiguinho do Fernando Henrique Boca de Pudim! Anzi, fiz questão de sublinhar, para a surpresa da galera, a opção polìtica do baiano. Fecha parênteses. De todas as músicas-cenas, a que mais marcou a serata foi a lendária “Esotérico”, interpretada por Bethânia e Gal entre olhares ambíguos, enquanto Gil toca o violão e Caetano se debruça em seu ombro, num gesto de doce afetividade. O clímax. Aplausos. Alto-astral coinvolgente!
A noite prosseguiu com bate-papo. Jorge Ben dançava na sala e desta vez alguns italianos tentavam acompanhá-lo em seu swing. O jantar acabou tarde, quatro e meia da madrugada. E no dia seguinte, ninguém foi à aula da manhã. À tarde, o professor perguntou a razão das ausências matinais. E nada hesitantes meus colegas responderam: culpa da brasiliana professore! Do frango, do feijão e dos Doces Bárbaros!
“Com amor no coração, preparamos a invasão. Cheios de felicidade, entramos na cidade amada...” (“Os mais doces bárbaros”, Caetano Veloso).
terça-feira, 4 de março de 2008
As sete cores de Franco Zeffirelli



Na última terça-feira foi celebrada no Centro Sperimentale di Cinematografia a abertura do ano acadêmico. Um evento um pouco tardio, afinal, as aulas jà começaram hà quase dois meses, mas a razào desse atraso foi a crise política então instalada no país com a queda do governo Prodi.
Na cerimônia estavam presentes algumas figuras pùblicas significativas, tais quais Francesco Alberoni, presidente da Fundação Centro Sperimentale, Giuseppe Cereda, diretor da Scuola Nazionale di Cinema e Francesco Rutelli, atual ministro no Ministério per i Beni Culturali e provável próximo sindaco (prefeito) de Roma. Alguns ex-alunos que marcaram a história do cinema e da televisão italianas foram homenageados, recebendo, cada um deles, um diploma de reconhecimento e realizando um pequeno discurso para um auditório com cerca de 400 pessoas. Foram: Elli Parvo, atriz que marcou o cinema dos anos 40 e 50; Raffaela Carrà, atriz do cinema dos anos 60 que se transformou em uma das mais modernas showgirls da televisão italiana sendo considerada hoje uma diva; Arnoldo Foà, mítico ator italiano de origem judaica que possui no currìculo mais de 100 filmes e peças tatrais realizados desde os anos 30; Carlo Lizanni, grande nome do cinema neo-realista e político italiano e por fim, Franco Zeffirelli, diretor-pupilo de Luchino Visconti, que consolidou sua carreira nos Estados Unidos e realizou dentre tantas obras, o clàssico “Romeu e Julieta”, “A Paixào de Cristo” e “Irmào Sol, Irmà Lua”.
Franco Zeffirelli, em seu discurso, denunciou o isolamento que sofreu nos anos 60, quando iniciou sua carreira cinematográfica na Itália: “Eu fui expulso da Associação Italiana de Autores porque eu propunha outro tipo de cinema, diverso daquele que então era feito. Eu era contra o cinema político-ideológico e pornográfico, meu cinema era de poesia, um cinema que resgatava o princípio do amor e da pureza”. Depois de continuar a sua fala agressiva e um pouco ambígua, onde não se compreendia se elogiava ou ironizava diversas figuras da cena cinematográfica contemporânea, Zeffirelli abalou os alicerces do cerimonial tocando no assunto sexualidade. A origem deste desenlace foi a apresentação inicial de seu breve currículo feita pelo mestre de cerimônias, a qual em determinado momento dizia que este cineasta é antes de tudo um grande artista, que teve significativa atuação além do cinema, em outras duas linguagens artìsticas, o teatro e a ópera, e que, portanto, poderia se dizer que Zeffirelli é um apaixonado que possui 3 mulheres. E eis que Zeffirelli, nos momentos finais de seu discurso de agradecimento, resgatou esse comentário inicial do mestre de cerimônias para desestabilizar uma mesa composta por senhores sérios, aparentemente católicos, heterossexuais na cama e centro-direita na política, quando não direita total, digamos assim. “Eu gostaria de comentar que quando fui apresentado como um artista apaixonado que possui 3 mulheres, quem disse que são mulheres? É preciso deixar claro os seus sexos”. O público de jovens caiu na gargalhada e os senhores à mesa, e mesmo aqueles à platéia imergiram em um profundo constrangimento, mudando até a cor da cara. Vermelho. Silêncio. Zeffirelli prossegue: “O teatro é masculino. A ópera é feminina. E o cinema, tutti e due”. Mais risadas juvenis contrapesadas com o silêncio mumificado das meia e terceira idades cristãs. O cinema è bissexual! O cinema è bissexual!
Zeffirelli agradeceu e voltou ao seu lugar, acompanhado por aplausos calorosos. E foi assim que descobri que uma cerimônia formal de centro-destra pode ser abalada por piccolas questões de foro íntimo. E aprendi também que bicha em italiano é “frocio”.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Amirós
Como uma pessoa ecumênica que sou, ou seja, que estima e crê concomitantemente em diversos discursos religiosos por acreditar que estes sejam dialógicos e complementares entre si, negando, dessa forma, qualquer supremacia de um sobre o outro, vou contar uma experiência divertida que me aconteceu.
Em 2004 adquiri uma pintura mediúnica da qual gosto bastante, e que cumpre, digamos assim, a sua função curativa e energética: reequilibrar o humor e as emoções. É um quadro colorido composto por formas abstratas, pintado com giz de cera em papel cartão A3. O seu único problema, digamos assim, é ter sido assinado por Miró. Nada contra os espíritas kardecistas, mas certa mania de grandeza que muitos deles têm è da rompere i coglioni, per dire una espressione italiana. Por què muitos kardecistas se remetem freqüentemente a grandes nomes da humanidade, na arte, na filosofia e na política, para traçar o passado reencarnatório de um determinado espírito, ou justificar a autoria de determinada obra? Por què tantos espíritos são a reencarnação de Cleópatra, de Júlio César, de Nero, Napoleão, para dizer alguns nomes, e não de Mariazinha, José e Joana de tal? Por què quem assina os quadros mediúnicos são sempre Monet, Dalí, Miró, Renoir, Picasso, nomes conhecidos e banalizados pela burguesia consumista que sempre tem em suas salas de estar e consultòrios reproduções grotescas de suas obras, sendo que subitamente se reconhece que sequer os traços desses artistas as pinturas mediúnicas possuem? Enfim, a referência a nomes importantes registrados na história da arte e da humanidade podem significar uma mania de grandeza e até uma necessidade de credibilidade a qual recorre muitas pessoas que se auto denominam kardecistas. Esta é uma prática que faz com que eu sinceramente questione o espiritismo pequeno burguês que vem sendo praticado em muitos centros pelos quais eu passei no Brasil.
Mas voltando ao Miró que ficava na parede do meu quarto em São Paulo. O fato foi que queria trazer este quadro comigo para Roma, para colocá-lo no meu quarto caso eu necessitasse de sua energia terapêutica nos momentos de dificuldades. Mas aquela assinatura de Miró, Mamma Mia, che palle! Cada vez que eu a olhava simplesmente não ci poteva credere! E imaginei che casino que seria eu em Roma tendo que explicar aos meus amigos católicos que aquele quadro foi pintado em uma sessão mediúnica espírita, por um espírito que se diz chamar Miró, mas que nem eu mesma acreditava ser o real Miró dos livros de arte. O que? Espírito? O que é uma pintura mediúnica? A minha explicação começaria desde o princípio porque por aqui ninguém nunca ouviu falar em Kardec. Enfim, para poupar a fadiga, e para evitar a minha própria indignação diária ao ler a assinatura de Miró naquele papel cartão A3, eu simplesmente fiz um pequeno ajuste no quadro. Junto com uma amiga, pensamos uma saída: pegamos um giz de cera preto e zás, duas letras resolveram o impasse e a assinatura passou de Miró para AMIRÓS. Amirós! Agora sim! Nada mais me disturba, pelo contrário, arranjei um toque a mais de humor para imprimir sobre o quadro, colaborando, de alguma forma, com o efeito esperado de suas qualidades energético-curativas. E é isso o que importa, não é?
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Minha declaração de amor a Roma

(Família de bicicleta. Anahí Borges, 09.02.2008)
(Inverno colorido. Anahí Borges, 10.02.2008)

(A sedutora. Anahí Borges, 09.02.2008)
(Fahrenheit 451. Anahí Borges, 06.02.2008)
(Serenata contemporânea. Anahí Borges, 05.02.2008
(Senhores no Parco Appia Antica. Anahí Borges, 08.02.2008)

(O ditador. Anahí Borges, 09.02.2008)
(Stazione metro Cipro. Anahí Borges, 04.02.2008)

(Mulheres mortas. Anahí Borges, 10.02.2008)
(Azul. Anahí Borges, 07.02.2008)
(Do Circo Massimo. Anahí Borges, 06.02.2008)
(Final de filme. Anahí Borges, 10.02.2008)
PS - Para ver mais fotos clicar: 12 fotos para um pseudo-calendário romano)
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
O sentimento do exìlio
Reflexòes sobre o exìlio, Edward Said
" Os nacionalismos dizem respeito a grupos, mas, num sentido muito agudo, o exìlio è uma solidào vivida fora do grupo... O exìlio, ao contràrio do nacionalismo, è fundamentalmente um estado de ser descontìnuo. Os exilados estào separados das raìzes, da terra natal, do passado ".
" O exilado sabe que, num mundo secular e contingente, as pàtrias sào sempre provisòrias...".
" Embora seja verdade que toda pessoa impedida a voltar para casa è um exilado, è possìvel fazer algumas distinçòes entre exilados, refugiados, expatriados e emigrados..."
" Ver o mundo inteiro como um terra estrangeira possibilita a originalidade da visào. A maioria das pessoas tem consciència de uma cultura, um cenàrio, um paìs; os exilados tèm consciència de ao pelo menos dois desses aspectos, e essa pluralidade de visòes dà origem a uma consciència de visòes simultàneas, uma consciència que è contrapontìstica. Para o exilado os hàbitos de vida, expressào ou atividade no novo ambiente ocorrem inevitavelmente contra o pano de fundo da memòria dessas coisas em outro ambiente. Assim, ambos os ambientes sào vìvidos, reais, ocorrem juntos como no contraponto."
"Nas palavras de Wallace Stevens, o exìlio è uma "mente de inverno" em que o phatos do verào e do outono, assim como o potencial da primavera, estào por perto mas sào inatingìveis".
" Os nacionalismos dizem respeito a grupos, mas, num sentido muito agudo, o exìlio è uma solidào vivida fora do grupo... O exìlio, ao contràrio do nacionalismo, è fundamentalmente um estado de ser descontìnuo. Os exilados estào separados das raìzes, da terra natal, do passado ".
" O exilado sabe que, num mundo secular e contingente, as pàtrias sào sempre provisòrias...".
" Embora seja verdade que toda pessoa impedida a voltar para casa è um exilado, è possìvel fazer algumas distinçòes entre exilados, refugiados, expatriados e emigrados..."
" Ver o mundo inteiro como um terra estrangeira possibilita a originalidade da visào. A maioria das pessoas tem consciència de uma cultura, um cenàrio, um paìs; os exilados tèm consciència de ao pelo menos dois desses aspectos, e essa pluralidade de visòes dà origem a uma consciència de visòes simultàneas, uma consciència que è contrapontìstica. Para o exilado os hàbitos de vida, expressào ou atividade no novo ambiente ocorrem inevitavelmente contra o pano de fundo da memòria dessas coisas em outro ambiente. Assim, ambos os ambientes sào vìvidos, reais, ocorrem juntos como no contraponto."
"Nas palavras de Wallace Stevens, o exìlio è uma "mente de inverno" em que o phatos do verào e do outono, assim como o potencial da primavera, estào por perto mas sào inatingìveis".
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Romantismo ingênuo
A gentileza dos homens italianos é culturalmente enraizada, se revela em todas as faixas etárias e nas situações mais prosaicas possíveis: no refeitório da faculdade pode esperar que um seu amigo freqüentemente se oferece para levar a sua bandeja, ao caminhar pelos corredores você sempre terá preferência para passar por qualquer porta pois este seu mesmo amigo, caminhando ao seu lado, quando não te abre a porta , certamente pára até que você passe primeiro. Ou então, se você está na fila da cantina para pegar um café, na primeira distração o balconista acaba te entregando dois cafés porque o primeiro o seu amigo já pagou para você.
E então li um aviso aos passageiros dentro do trem: “Deixe os assentos livres para que se sentem os inválidos, as pessoas idosas e as mulheres”.
Machismo mascarado, desavergonhado! Um processo histórico católico e conservador. A sociedade de apenas um sobrenome: o paterno. O valor sagrado de família e do casamento heterossexual monogâmico. Grande semelhança com os valores sociais brasileiros. Costumo dizer que nossa sociedade brasileira antes de ser cordial, é machista. Aliás, segundo uma pesquisa norte-americana sobre relações de gênero nos países (li sobre esta pesquisa no livro “O Novo Cinema Iraniano”, de Alessandra Meleiro), dentro de uma escala 0 a 100% de desigualdade sexual, o Brasil se situa em 55%. Que vergonha! Mas, voltando ao anúncio no trem: este serviu para estimular em mim a reflexão sobre as muitas facetas do pseudo-gesto elegante que uma sociedade machista oferece às mulheres. E mais dissimulado do que ele próprio, está a emoção ingênua que nós mulheres manifestamos diante de um gesto elegante de machismo. Estou falando de raízes culturais intrínsecas em povos conservadores. Complicada esta questão, ainda que as relaçòes de gênero estejam se modificando, lentamente.
E foi assim que descobri a ontologia da palavra cavalheirismo.
E então li um aviso aos passageiros dentro do trem: “Deixe os assentos livres para que se sentem os inválidos, as pessoas idosas e as mulheres”.
Machismo mascarado, desavergonhado! Um processo histórico católico e conservador. A sociedade de apenas um sobrenome: o paterno. O valor sagrado de família e do casamento heterossexual monogâmico. Grande semelhança com os valores sociais brasileiros. Costumo dizer que nossa sociedade brasileira antes de ser cordial, é machista. Aliás, segundo uma pesquisa norte-americana sobre relações de gênero nos países (li sobre esta pesquisa no livro “O Novo Cinema Iraniano”, de Alessandra Meleiro), dentro de uma escala 0 a 100% de desigualdade sexual, o Brasil se situa em 55%. Que vergonha! Mas, voltando ao anúncio no trem: este serviu para estimular em mim a reflexão sobre as muitas facetas do pseudo-gesto elegante que uma sociedade machista oferece às mulheres. E mais dissimulado do que ele próprio, está a emoção ingênua que nós mulheres manifestamos diante de um gesto elegante de machismo. Estou falando de raízes culturais intrínsecas em povos conservadores. Complicada esta questão, ainda que as relaçòes de gênero estejam se modificando, lentamente.
E foi assim que descobri a ontologia da palavra cavalheirismo.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Qual a cor da velhice?
Ciao Fiorella! Come stai bella?
Há quanto tempo não nos falamos... Resolvi te escrever porque me recordei de você enquanto revia as fotografias do casamento de Raffaello. Cá entre nós, você está linda naquele vestido azul e te confesso que demorei 68 anos para compreender isso. Tem uma foto em que você está ao lado de Michele com a cabeça baixa, como se estivesse conferindo se o seu sapato estava justo, ou sujo, não sei, e que vestido lindo o seu, que caimento aquele tecido, e que tonalidade...
Cara, como estão todos por aí? Giuseppe, Andrea, Paolo? Mande lembranças a eles por mim.
Aqui as coisas estão bem, só não estão melhores porque a minha dor nas costas não permite que estejam. Madonna! Tem noites que não consigo pregar os olhos um minuto sequer. Ma va bene, 92 anos de idade pesam mesmo e apesar de tudo, minha lucidez ainda me permite existir.
O Quarticciolo tornou-se um bairro de idosos. As famílias que aqui moram utilizam o bairro como dormitório e de manhã cedo, pais e mães retomam as suas rotinas proletárias junto aos grandes centros romanos. Os jovens assim que começam a estudar se mudam para as zonas mais centralizadas e dividem apartamentos com os amigos da faculdade. Aqui restamos nós, a esperar as visitas de domingo.
O Centro dos Idosos (Centro Anziani del Quarticciolo) mudou de lugar, não é mais ali ao lado da igreja, agora é uma casa nova, grande, toda pintada de bege e com as janelas verdes. Fica ao lado do mercado de frutas, sabe, ali perto da praça? Pois é, com a mudança de ares o local está ficando cada vez mais freqüentado e as atividades, mais interessantes. Todas as tardes nos reunimos para jogar cartas, ouvir música, conversar. As quintas e sábados à noite realizamos bailes que costumam encher, são 150 a 200 idosos dançando liscio, tango, valsa, jazz e até música latino-americana. Está sendo ótimo porque vivemos nossa velhice com dignidade, com velocidade. Os dias passam mais rapidamente e tudo parece mais interessante, tão interessante quanto escapar das missas aos domingos.
No Centro Anziani do Quarticciolo diversas pessoas se apaixonam, casamentos acontecem, e alguns são simplesmente amantes que tem suas respectivas vidas, famìlias e cònjuges e se encontram no baile, escondidos dos familiares, para namorar. Lembra-se de Piero e Grazia? Se casaram há um ano e ambos eram viúvos há mais de 10. Sergio e Ottavia também, fizeram até um jantar de celebração com os filhos e netos. Eu já conhecia Donato do antigo Centro, mas nosso relacionamento só foi acontecer de verdade nesta nova sede. Uma noite, depois do baile, ele me acompanhou até em casa e se declarou a mim, dizendo estar apaixonado. E eu, que sentia o mesmo, disse que aceitava a sua proposta de casamento. Um casamento diferente, inusitado, eu havia 89 anos e ele 87, todos os dois viúvos, mas de qualquer forma, uma ocasião da non perdere. Optamos por morar em casas separadas porque, afinal, quando somos jovens aprendemos a conviver com os defeitos do companheiro, mas na velhice os defeitos já estão tão marcados que a convivência beira o insuportável. De qualquer forma, é uma forma diferente de amor, e de matrimònio. É uma escolha importante esta de definir a pessoa que estará ao seu lado nestes momentos finais, mas também é eleger um sofrimento a mais para suportar: a insegurança de pensar diariamente quem partirá primeiro, e tudo é muito provisório neste sentido. Eu e Donato nos falamos todas as manhãs por telefone, às tardes ele me busca para irmos ao Centro Anziani, e às noites de quinta e sábado bailamos. Donato é muito gentil, tem os olhos azuis e uma boina de comunista. As senhoras do bairro sentem inveja do amor dele por mim. E eu, sinto ciúmes quando no baile ele tira outra mulher para dançar.
Esta semana um grupo de jovens estudantes de cinema do Centro Sperimentale apareceu no nosso baile em busca de histórias de amor. Disseram que estão fazendo um documentário sobre a memória do bairro para a faculdade. Eu lhes contei sobre minha vida, sobre meus filhos, netos, bisnetos e sobre Donato. Donato lhes contou sobre a guerra, sobre a ocupação nazista a Roma, sobre seus filhos, seus netos, seus bisnetos e também sobre mim. Os garotos filmaram tudo: a entrevista, o baile, os sapatos, os abraços, e ainda nos perguntaram sobre sexo. Veja se pode, essa juventude de hoje não tem vergonha na cara mesmo, e me esquivei da pergunta como me esquivo diariamente dos meus filhos pedindo dinheiro emprestado. Bem, os garotos disseram que retornarão para nos mostrar o filme pronto. Já pensou que maravilha se um dia passar na televisão?
Cara, termino por aqui senão a carta ficará muito longa. Me escreva quando puder. Estou te mandando também algumas fotografias do nosso baile para que veja como é animado, e uma foto minha com Donato, para que conheça o mais recente marido desta sua velha amiga. Ecco, bota velha nisso.
Um abraço sincero,
Maria Massara
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
As lágrimas de Ermanno Olmi

Hoje assisti à obra-prima de Ermanno Olmi, vencedora da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1978, intitulada “L’albero degli zoccoli”(a árvore dos tamancos). É um filme surpreendentemente belo que reconstrói de modo contemplativo e minimalista a vida dos camponeses da Provincia di Bergamo (norte da Itália) no final do séc. XIX. Aspectos de uma Itália ainda feudal, onde as relações de trabalho são pautadas pela servidão ao senhor das terras, chegam ao espectador através do olhar poético-biográfico do cineasta que nasceu nesta região. Olmi se aproxima um pouco de Pasolini neste sentido, ambos são cineastas de origem campesina que buscaram, em muitas de suas obras, religarem-se às tradições ou valores simbólicos provenientes do campo tais como a pureza de caráter, a humanidade e a sacralidade como condição primordial de suas personagens, o respeito pela natureza e a ingenuidade e beleza no viver dos humildes. E claro, no papel de militantes de esquerda, ambos os cineastas são fortemente atrelados ao conceito de cinema político e suas obras exibem a intercepção do discurso estético com o de crítica às relações sociais baseadas nas relações de poder entre o patrão e o camponês/operário.
Em “L’albero degli zoccoli”, a preferência de Olmi pela verdade na representação utilizando como atores os próprios habitantes da região, assim como as locações do lugar, a sua luz natural, etc, é a força dramática da obra. O dialeto do filme, bergamasco, é um italiano difícil de compreender e o seu ritmo me fez recordar da fala do gaúcho brasileiro com leves pitadas de francês.
Neste texto não pretendo me aprofundar mais, prefiro dar a voz ao cineasta-autor que além do roteiro e direção também assinou a direção de fotografia e montagem. Abaixo transcrevi um trecho da entrevista de Ermanno Olmi presente nos extras do DVD, que no Brasil foi lançado pela Versátil (mas não sei se no dvd brasileiro tem este extra). Uma entrevista comovente, na qual o cineasta tinha os olhos cheios de lágrimas (optei por deixá-la na lìngua original porque a beleza também está nas suas palavras como são). O que Olmi diz merece ser registrado, divulgado, destacado como sentenças de um artista de significativo gabarito e de um amor inenarrável pela Memória. “L’albero degli zoccoli”, para finalizar, é um filme-manifesto de rememoração e legitimação da cultura campesina milenar e carrega consigo as suas belezas plásticas e humanas contrastantes, feitas de dor e de cor, de sangue e perfume.
Depoimento de Ermanno Olmi – “L’albero degli zoccoli”, extra do dvd, 2001.
“Io non sono mai stato un cineasta per il cinema, direi che amo molto la vita, come tutti, e quindi amo rappresentare quella vita che mi appartene di piu, quella realtà che piu ha influenzato la mia esistenza. Io sono figlio di quella terra. E quindi, è come fare un ritratto della madre. La madre la riconosciamo davvero quando ormai è perduta. Quando l’ abbiamo accanto, la madre è una realtà che ci spetta e quindi non ne siamo del tutto consapevoli. E quando ci viene a mancare, allora cerchiamo nella memoria di ricomporre il suo volto, sentire le voci, avere addirittura una sensazione palpabile del ricordo. E questo somilglia molto al cinema”.
“Proprio perchè quella realtà è cosi marcadamento speciale, particolare, i protagonisti dovevano essere veri contadini, così come vera è la realtà scenografica, le stalle, la campagna, la luce. Non è la luce di un teatro di posa, ma è la luce delle stagione, proprio del fluire del tempo con le sue scansione naturali. Tutto questo per me ha un valore prioritario, al di sopra del cinema stesso, quindi il cinema è soltanto quello strumento che utilizziamo per poter stabilire un rapporto col pubblico e quindi per poter riferire al nostro destinatario quello che piu ci sta a cuore”.
“Dopo Cannes, il successo del film, il mondo contadino si è sentito riconosciuto e ho avuto anch’io la sensazione che anche in quel mondo intellettuale che viveva, sopratutto quel mondo di estrazione accademica, mantendendo delle distanze, con questo mondo considerato addirittura da alcuni non sufficientemente degno di essere una cultura, li, secondo me, molti argini si sono rotti, e molte mente illuminate hanno capito che il mondo contadino era depositario di una cultura millenaria”.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
A ùltima dos Taviani

"A Casa das Cotovias" (Le Masserie delle Allodole, 2007)
Paolo e Vittorio Taviani são fortemente ligados a causas sociais, à representação da arbitrariedade e poder de um indivíduo sobre outro, a eventos históricos que ilustram a crueldade a que pode chegar o ser humano frente aos seus desejos avarentos e individualistas. Os irmãos Taviani têm sua obra fortemente atrelada ao conceito de cinema político e com “A Casa das Cotovias” esses realizadores demonstraram que não perderam de vista o cinema que busca a liberdade do sujeito, mas infelizmente perderam, certamente, a mão que fazia os clássicos e premiados dramas sociais.
O belo “A Noite de São Lourenço”, filme realizado pela dupla em 1982, conta uma história situada na segunda guerra mundial quando os ocupadores nazistas pretendem massacrar a população do vilarejo de San Miniato, na Toscana. Diante dessa ameaça alguns moradores fogem do povoado em busca de sobrevivência e liberdade. O filme é uma narrativa épica que inicia com a narradora contando a história ao seu filho: a obra consiste em um único flashback. A história segue o ponto de vista da personagem que narra, entretanto, não se centra em protagonistas específicos, mas na pluralidade de trajetórias e conflitos dramáticos, fazendo com que o espectador se identifique e se emocione com os destinos de todos eles. Os personagens não existem em escala de importância, e ainda que vivenciem pequenos dramas individuais, o que está em foco é o rumo da comunidade, todos estão envolvidos em um projeto coletivo de libertação e justiça. Como proposta de retratação de um evento histórico, “A Noite de São Lourenço” consegue conjugar esses elementos épicos de forma primorosa e construir a trajetória coletiva do grupo social atingido pela violência da guerra.
Em “A Casa das Cotovias” o tom épico enunciado pelo conteúdo entra em contradição com o enunciado formal do filme, e a tragédia social do massacre dos armênios cometido pelos turcos durante a Primeira Guerra Mundial ganha dimensões privadas em que o ato individual heróico é louvado e o ato coletivo, negado. Formalmente a obra opta por individualizar processos históricos, além de inserir freqüentemente o sentimento do amor romântico e trágico: um filme em que a personagem má do capitão do exército turco/ partido da juventude turca é a responsável pela retaliação contra os armênios; é um filme em que “Romeu e Julieta” são atualizados na figura de uma dama armênia e um soldado turco; um filme em que a figura da heroína martirizada está na matriarca Sra. Avakian a quem todos procuram para pedir ajuda e sobre a qual a história é centrada (nela e na sua família); um filme em que em razão de uma personagem dedo-duro, o mendigo Nazim, o exército encontra os armênios escondidos na Casa das Cotovias. O mesmo Nazim, motivado pela culpa, posteriormente mobiliza forças para salvar as mulheres da família Avakian do acampamento turco; um filme que consegue criar uma história de amor no campo de concentração entre um soldado turco, Youssouf, e a prisioneira armênica Nunik. Youssouf, inclusive, após executar a ordem de matar Nunik, no final do filme é o herói que denuncia ao tribunal turco, durante o julgamento do massacre armênio, as atrocidades cometidas pelos soldados; “A Casa das Cotovias” aborda um evento histórico importante do qual ainda perduram as marcas na Turquia (os armênios constantemente exigem do Governo Turco o prosseguimento nos julgamentos pelo crime do massacre, há anos interrompido), mas sobre a ótica da personalização e banalização: na interpretação exageradamente dramática dos atores, no uso repetitivo da música grandiloqüente, na criação de situações dramáticas individuais, na valorização da vontade pessoal e do heroísmo do sujeito.
Diferentemente de “A Noite de São Lourenço”, em que a épica existe na forma e no conteúdo, “A Casa das Cotovias” é um equívoco, uma épica abortada e transformada em drama burguês. É uma pena que o projeto de cinema político dos Taviani tenha resultados como este, em que a intenção pelo engajamento social e pela liberdade coletiva são, na verdade, as cascas de um discurso individualista e burguês, no qual o ato heróico do indivíduo é favorecido em detrimento de uma perspectiva libertária do ato coletivo, próprio da épica.
Curiosidade: esta semana tive a oportunidade de conhecer os Taviani pessoalmente em um evento realizado no Centro Sperimentale. Muito gentis, sorridentes, brincalhòes, verdadeiros vovôs. Na ocasiào, perguntei-lhes sobre esta contradiçào de forma e conteùdo presente no seu ùltimo filme e, para a minha surpresa, responderam que nào haviam pensado sobre isso. Receberam minha pergunta com humildade e curiosidade, como se eu estivesse dizendo uma novidade. Entào eu que me pergunto: como è possivel que cineastas de tamanho porte cheguem ao final da carreira realizando filmes de maneira assim inconsequente (ou se poderia dizer instintiva???)?. Nào à toa "A casa das cotovias" nào foi bem recebido nem pelo pùblico, nem pela crìtica. Ecco, lasciamo perdere...
domingo, 27 de janeiro de 2008
12 fotos para um pseudo-calendário romano
(Noturno. Anahí Borges, 16.01.2008)
(Menina sorrindo. Anahí Borges, 19.01.2008)
(Kubrickianas. Anahí Borges, 18.01.2008)
(Envelhecido. Anahí Borges, 15.01.2008)
(Treno al Circo Massimo. Anahí Borges, 17.01.2008)
(O pequeno chinês. Anahí Borges, 20.01.2008)
(Da minha janela. Anahí Borges, 18.01.2008)
(Subir ou descer?. Anahí Borges, 16.01.2008)
(Piazza del Popolo. Anahí Borges, 15.01.2008)
(Inverno na Villa Borghese. Anahí Borges, 17.01.2008)
(Romance. Anahí Borges, 18.01.2008)
(Somos burgueses e daí? Anahí Borges, 19.01.2008)
(PS - Para ver mais fotos clicar: Minha declaração de amor a Roma)
sábado, 19 de janeiro de 2008
Meu encontro com Fernando Birri

Uma amiga brasileira está finalizando um curta-metragem que, para usar uma expressão italiana, è bello da morrire. Quando li o roteiro pela primeira vez, que aliàs foi um dos projetos contemplados pelo edital da prefeitura de São Paulo (o famoso PAC), lui mi ha colpito e enxerguei na proposta de Moara Passoni uma idéia original e revolucionária, um olhar investigativo porta-voz da minha geração perdida e nostálgica.
Em poucas linhas resumo o curta: um documentário que propõe o encontro entre dois personagens-símbolos da Resistência e da Esperança Latino-Americanas: Fernando Birri, cineasta e poeta argentino, foi um dos fundadores da escola de cinema de Cuba e é um dos grandes nomes do movimento do Novo Cinema Latino Americano dos anos 60. E Tilden Santiago, ex-padre operário ligado à teologia da Libertação, sempre atuou ao lado dos movimentos sociais brasileiros e foi nomeado embaixador do Brasil em Cuba durante o primeiro governo Lula. “O Sonho de Tilden” é um filme que reúne essas duas figuras históricas numa capela em Cuba e depois as leva à Praça do Vaticano, em Roma; um filme que fala de cinema, de política, de poesia, de fé, e não deixa de ser uma reflexão sobre a geração anos 60, e mais especificamente, sobre as trajetórias desses dois homens.
Em Roma encontrei-me com Fernando Birri a pedido de Moara, a minha amiga, que precisava de uma sua fala para finalizar o filme. Birri mora em Roma há alguns anos, e vez ou outra retorna para sua residência em Buenos Aires. Fui encontrá-lo. O dia estava chuvoso e fazia um frio de 5 graus. Devido ao caótico trânsito romano demorei duas horas e meia até chegar ao escritório de Birri, que me esperava ao lado de sua esposa Carmen e vestia um casaco peludo e uma touca de lã. Ao deparar-me com esta figura profética, mística, com seus 80 anos de idade, carregando nos ombros o peso da história e da vanguarda latino-americana fui acometida por uma emoção indescritível – a barba branca, o sorriso, a curvatura própria da velhice, o olhar afetuoso e finalmente as falas plenas de humanidade, sonho e poesia foram os aspectos desse artista que simplesmente me atravessaram a alma e me acompanham desde então: certamente nortearão minhas escolhas e orientarão a minha trajetória profissional e humana.
La registrazione audio era ormai finita, entretanto continuamos a conversar por um tempo. Disse a ele que eu vim a Roma estudar roteiro no Centro Sperimentale di Cinematografia, lugar este, aliás, que Birri também esteve, mas nos anos 60 – período em que diversos realizadores latino-americanos estudaram no Centro Sperimentale, como os brasileiros Paulo César Sarraceni e Gustavo Dahl. Birri foi aluno de Vittorio de Sica e também seu assistente de direção no filme “O Teto”, exibido na mostra de cinema neo-realista no CCBB de São Paulo em 2007. Falamos sobre muita coisa, desde a temperatura invernal de Buenos Aires até a hospitalidade do brasileiro, desde “Los Inundados" até “Natale in Crociera” (comédia tipo Globo Filmes que está em cartaz atualmente por aqui). Confrontamos nossas gerações, falamos de Zavattini, e tentamos entender as diferenças existentes no âmbito das perspectivas político-culturais dos alunos do Centro Sperimentale de hoje em dia em relação àquelas de sua época.
Meu encontro com Birri terminou num longo abraço em que ele me disse que eu sou a esperança do cinema latino americano. Naquele momento não fui apreendida por sentimentos de orgulho ou vaidade, entendi a frase como um encorajamento próprio dos guerreiros. Birri a disse a mim, como diria a qualquer outro jovem latino-americano estudante de cinema, um seu desejo, que é também esperança, aquilo que não posso, ou não deveria esquecer: que tenho responsabilidade com o meu cinema de origem. Isso veio como um golpe de injeção de ânimo num momento em que eu vivenciava o "sentimento do exílio” de que nos fala Edward Said, o conflito inerente a quem está imerso na cultura estrangeira e ainda tentando se adaptar a ela. Meu encontro com Birri reforçou minha latinidade, minha identidade. Com esse sentimento de integridade compareci a esta primeira semana de aula no Centro Sperimentale di Cinematografia.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Um tipo europeu
Hoje à noite vi um rapaz que andava pela rua puxando o carrinho de feira à procura de algo para comer nos cestos de lixo. Certamente para levar pra casa e oferecer também aos seus familiares. Era muito bem vestido e perfumado e quando encontrava algo que valia a pena, o rapaz tirava do bolso um pano e limpava o alimento, envolvendo-o em seguida em papel toalha e colocando-o dentro do carrinho. Esse estilo europeu de miséria me fez lembrar do filme de Agnés Varda: “Os Respigadores e a Respigadora”, documentário no qual a diretora humaniza e dignifica a ação daqueles que pegam os restos deixados pela sociedade, desde comidas até objetos. No film, um ex-professor universitàrio também sobrevive de restos. Sào respigadores pós-modernos estes seres humanos urbanos abandonados.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
A social democracia na hora do pranzo

Meu sangue baiano falou alto enquanto preparava minhas malas para vir à Itália. Trouxe comigo alguns temperos que usamos bastante no Brasil: cominho, curry, pimenta do reino, coentro, colorau e açafrão. Além disso, trouxe também feijão preto e castanha de caju. Tudo com o intuito de apresentar um pouco da nossa comida por aqui, e claro, garantir que a teria por perto caso a saudade apertasse.
Certa vez viajei pra Salvador com minha mãe. Na volta pra São Paulo, uma experiência inesquecível: ela trouxe no avião feijão fradinho, tapioca, farinha, cocada, biju e até acarajé frito .Para provocá-la eu dizia no avião: “Ôh mainha, cadê a tapioca? O biju num vai quebrá lá em cima não hein? E a farinha, o saco num rasga?”. Pois foi dela que herdei o sangue baiano.
Ontem resolvi preparar uma macarronada com berinjela e molho de tomate. Simples, a princípio, se não fossem os temperos. Um pouco de curry, coentro e pimenta do reino fizeram a diferença para a italianada em casa. Simplesmente adoraram, para a minha surpresa. E gostaram tanto que fiquei encarregada de preparar a mesma macarronada no próximo sábado: um jantar de aniversário de um amigo com 30 convidados! Mamma Mia!
No quesito comida os italianos geralmente são metódicos. Segue-se o ritual do primeiro prato (uma massa, por exemplo), depois o segundo (uma carne), o contorno (salada) e depois a sobremesa, sendo que vez ou outra a refeição pode vir inaugurada por um antepasto - berinjelas, queijos e pão. A hora de almoço dura aproximadamente 3 horas: diariamente o comércio fecha as portas às 13h e reabre às 16h – a tradição familiar ainda fala alto e as pessoas voltam para suas casas para almoçar em família. Neste contexto todo, iniciativas de restaurantes que oferecem pratos exóticos, culinárias indianas, japonesas, tailandesas não funcionam. Os únicos que conseguiram espaço foram os chineses, e os pratos que mais saem nestes restaurantes são aqueles que contém macarrão ou risoto, ou seja, que não se distanciam muito do paladar italiano. E mesmo assim a clientela divide o cardápio ao seu bel prazer e pede como antepasto um bolinho primavera, o primeiro prato é quase sempre um yakisoba,o segundo, frango ao molho agridoce, uma saladinha como contorno e frutas de sobremesa.
É como se o mercado culinário por aqui fosse norteado pela idéia de abertura lenta e gradual. Piano, piano o investidor estrangeiro modifica os sabores dos pratos até conseguir mudar os hábitos dos residentes. Na verdade, costuma ser assim em países com tradições históricas bem marcadas. Aspas: li na Folha de São Paulo há alguns meses que uma empresa italiana de café, a qual não me lembro o nome agora, está investindo no mercado indiano que justamente não tem a tradição do café, e sim, do chá. O projeto da empresa é a médio prazo mudar os hábitos alimentares indianos. O café está sendo inserido no país ainda associado ao leite para tirar um pouco de seu amargor até que daqui a alguns anos possa ser comercializado normalmente. A empresa acredita que em 40, 50 anos a Índia será uma grande consumidora de café. Fechar aspas.
O mercado culinário italiano, entretanto, permanece resistente às tentativas de grandes transformações. Evidentemente existem os hambúrgueres da vida e os kebabs árabes, mas a tradição da massa e da hierarquia dos pratos ainda tem força. Aos poucos e lentamente as coisas mudam: um shoyuzinho daqui, um coentrozinho de lá, um açafrãozinho acolá e piano, piano a culinária imigrante consegue sair da exclusão. A minha macarronada é um exemplo de inserção dentro dessa estrutura de poder rígida não é? Uma típica inserção de centro-sinistra, pelas bordas e através de reformas, mah va bene...
domingo, 13 de janeiro de 2008
Traduttore: traditore?
Existem expressões dentro de uma língua que quando traduzidas para o nosso idioma identificamos nelas o seu caráter poético. Assim aconteceu comigo quando a Silvia, a moça com quem moro, me perguntou se o que eu havia feito no meu cabelo foram “colpi di sole” (golpes de sol). Ela se referia às minhas luzes douradas.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
O "clacson" de Vittorio Gassman

Curiosamente não existe em italiano uma palavra equivalente à buzina. O que existe é uma palavra hóspede americana, assim a gramática a define, chamada clacson. A primeira marca de buzina americana fabricada pela empresa Klacson no início do séc. XX acabou se tornando o nome do próprio objeto.
Dino Risi, cineasta italiano de comédias de costumes ao lado de Mario Monicelli, em meados dos anos sessenta quando realizou seu filme “Il Sorpasso”, que embora signifique “A ultrapassagem” foi traduzido no Brasil como “Aquele que sabe viver” (e jà existe em DVD) queria fazer uma crítica à classe média consumista italiana que naquele momento de crescimento econômico entupiu Roma de veículos. A ordem do dia era comprar um carro substituindo assim as corriqueiras bicicletas. Vittorio Gassman interpreta o protagonista Bruno, um homem “motorizado”, aventureiro e desocupado, que gosta de levar uma vida boa sem esforço algum e quando pode engana as pessoas para tirar proveito das situaçòes. O carro de Bruno possui uma buzina excêntrica, com distorçòes sonoras, a qual faz sonar o tempo todo. “Il Sorpasso” teve um enorme sucesso de bilheteria na Itália e na época muitos romanos instalaram em seus carros o som da buzina de Vittorio Gassman.
Entretanto naquela ocasião a prefeitura proibiu esse tipo de clacson porque estava gerando um caos no trânsito, visto que seu som era muito semelhante com a sirene da ambulância. E de fato, aqui pude conferir que quarenta anos se passaram e os sons permanecem idênticos. Sempre que uma ambulância passa pela rua me lembro de Vittorio Gassman.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
O céu de Suely

Hoje me emocionei com minha brasilidade. A busca por algo que reverbere em nós e que possa nos espelhar a nossa própria identidade faz parte do momento de adaptação à cultura estrangeira. Essa adequação é sempre um desafio, ainda que , no meu caso, de fato reconheça a existência de grandes semelhanças culturais entre Brasil e Itália (isto fundamentalmente devido à imigração italiana no Brasil. Só em São Paulo hoje existem 5 milhões de italianos e descendentes). Herdamos deles desde a culinária até os movimentos sindicalistas do operariado em meados do séc. XX. E aqui na Itália diz-se que quem descobriu a América não foi Cristóvão Colombo, mas Américo Vespúcio, um navegador italiano que chegou ao Brasil enquanto Colombo estava nas Índias. E por isso o nome de América ao Novo Continente. Havia lido algo semelhante em enciclopédias brasileiras mas que pontuavam que este tal Américo estava na mesma frota de Colombo, ou seja, descobriram a América juntos. Mas enfim, os brancos que se entendam. Eu agora vou falar de Brasil.
Trouxe comigo 20 DVD’s de filmes brasileiros: um verdadeiro contrabando de clássicos e contemporâneos. Fiz isso motivada pelo fato de que por aqui só se conhece, dentro do cinema da Retomada, “Central do Brasil” e “Cidade de Deus”. Então cheguei a Roma armada do que para mim o cinema nacional tem de mais belo, instigante e original, disposta a ir à luta e apresentar o nosso cinema à terra antiga de tantas vanguardas.
Gláuber Rocha, Sganzerla, Arnaldo Jabor, Domingos de Oliveira, Person, para representarem alguns de nossos combatentes da velha guarda, e Beto Brant, Karim Aïnouz, Marcelo Gomes, Lais Bodansky, Cao Hamburger, Luiz Fernando de Carvalho (com “Lavoura Arcaica”) entre outros para exemplificar através de excelentes novos artistas um quadro de produção bastante plural.
O que se sabe do Brasil e de Brasil por aqui? Muito pouco, o de sempre, o estereótipo cultural do samba, do futebol e da novela “A Escrava Isaura”. Ponto final. Na noite de domingo exibi a um grupo de amigos cinéfilos “Madame Satã”, primeiro longa-metragem de Karim Aïnouz. Um filme belíssimo, interpretado com primazia por Lázaro Ramos, sobre a vida desse lendário personagem da boemia carioca, na Lapa dos anos 30. A responsabilidade era imensa: eu precisava escolher dentre os 20 filmes aquele que mostraria primeiro, como se dissesse – “Caros, apresento-lhes o cinema do meu país! Boa sessão!”. E a insegurança de eu ter feito a escolha errada? Deles não gostarem do filme? O problema já começou na legenda: os italianos só assistem a filmes dublados (plausível sob a ótica da defesa da identidade nacional e até porque a dublagem na Itália é fenomenal) ou então com legenda em italiano. Mesmo sabendo outras línguas como inglês, espanhol, francês, eles não gostam muito de legendas estrangeiras. Enfim, optou-se por inglês. Assistindo ao filme me constrangi em diversas cenas, me emocionei em outras, a fotografia sombria, a sensualidade dos corpos, a violência feita de exclusão, a beleza dos contrastes e do movimento instável da câmera, o tom vermelho e o ritmo do samba, borrões imagéticos e a extraordinária verdade que Lázaro Ramos imprime a sua personagem foram alguns dos elementos que me possibilitaram enxergar, de fato e de fora, o cinema nacional com toda a sua cor, calor, contraste, voluptuosidade e brutalidade. Após a sessão silêncio total. “Mah, che bellissimo questo film, Mamma Mia!”, “E guardi, questo attore è magnifico!”. Ufa! Pensei. Que bom que gostaram e que a experiência serviu, antes de tudo, para lhes revelar um país.
Um tempo depois alguém me perguntou se eu sentia falta do Brasil. Respondi que sim, que sentia uma saudade um pouco abstrata, ainda anônima.
Hoje testei o DVD do filme “O Céu de Suely”, também de Karim Aïnouz, para exibi-lo num próximo encontro. Um filme que para mim sempre foi esplêndido por sua nostalgia, beleza plástica, minimalismo nos gestos, tom contemplativo e respiros dramáticos, mas que agora simplesmente passei a gostar mais, e mais, e mais. Incrível, só a cartela do menu contendo a música tema e a cena em que Hermila procura o brinco na estrada e em seguida sobe na moto de João já foi suficiente para me emocionar. Tanto, e tão profundamente que consegui nomear a minha saudade do Brasil: misto de melancolia, reconhecimento e orgulho da minha brasilidade.
domingo, 6 de janeiro de 2008
Eu, paparazzi!
Atribui-se a Federico Fellini, um dos maiores cineastas italianos de toda a curta mas intensa história do cinema, a invenção do termo paparazzi para denominar os fotógrafos que perseguiam obcecadamente os artistas no tempo áureo do cinema italiano. Bem, Fellini já morreu e seus filmes permanecem, e além deles, claro, o termo paparazzi. Hoje dei uma de paparazzi e flagrei um casal de chineses que tirava fotos perto do Coliseu. Romântica a cena, para não dizer patética: ambos caminhavam ao redor do monumento vestidos com os respectivos trajes do casamento, um fotógrafo os enquadrava com a câmera – tendo sempre o Coliseu como fundo-, enquanto um diretor de cena dirigia a pose que deveriam fazer. Pois é, o limite entre sonho, ascensão social, cinema e realidade se misturou completamente na mente dos pombinhos enamorados e deu no que deu. Soube que essa é uma situação freqüente por aqui, muitos recém casados andam por Roma tirando fotos declaradamente montadas para depois se contemplarem no álbum de fotografia. Vejo dois diagnósticos. O primeiro deles é a cafonice própria da burguesia emergente, ou seja, a China é hoje uma das maiores economias mundiais e esse casal acredito que seja um exemplo da classe emergente do país, que em verdade não se difere das demais no mundo, vide no Brasil as personagens da revista Caras, por exemplo – um desejo de consumo exagerado e despropositado que existe nessa classe social que a impede de reconhecer-se como ridícula. Bem, como segundo diagnóstico no caso desses dois chineses existe o cinema italiano. Ele também responde por parte da culpa desse tipo de cena existir, visto que diversos cineastas romantizaram e imortalizaram nos seus filmes espaços, personagens e monumentos romanos: Rosselini, Vittorio de Sica, Fellini, Antonioni, Dino Risi, Monicelli, Pasolini, Ettore Scolla e tantos outros. Vir a Roma é certamente recordar-se das leituras históricas e da fé católica, mas é, antes de tudo, reviver cenas de filmes, sonhar com a câmera, sentir-se Vittorio Gasmann, Sofia Loren, Marcello Mastroiani, Anita Eckbert, é se tornar também personagem de ficção. Amanhã andarei com minha câmera de paparazzi pela Fontana di Trevi, quem sabe não encontro por lá mais uma dessas antológicas cenas cinematográficas made by China?
Neologismo à parmigiana
Hoje sem querer inventei uma palava: melincomico. E a italiana que me ouviu pronunciá-la achou graça como se eu tivesse feito poesia. Mah, quem me dera. O fato foi que na tentativa desajeitada de me comunicar queria dizer que o senhor ao nosso lado era “malinconico”, ou seja, melancólico, mas saiu melincomico e assim improvisadamente juntei melancólico com cômico – que também existe em italiano – e ganhei o título de poeta. Nesse arranjo todo quem saiu perdendo só foi mesmo o senhor que em sua nostalgia profunda no bosque da Villa Borghese, olhava fixamente uma fonte de água enquanto a italiana ao meu lado ria de sua comicidade recém batizada, que para mim, na verdade, sequer existia. Poverino!
Aqui cabe um comentário: Roberto Rosselini, o mestre do cinema neo-realista italiano, nasceu e viveu muito tempo na Villa Borghese. Uma vila de aristocráticos cujas mansões hoje são museus de arte e história. Rosselini era portanto de família nobre e muitas pessoas não sabem disso. Não sabem nem mesmo por aqui – essa informação trouxe comigo do Brasil.
Voltando ao neologismo: nomeei esse meu momento curioso de “instante errante romanesco ou a síndrome de Guimarães Rosa”
sábado, 5 de janeiro de 2008
Banalidades


Os clichès existem! Independente da censura pròpria do intelectual os chavòes sentimentais se exibem como expressòes de sentimentos imediatos, autònomos, integrais e nào deveriam ser causa de constrangimento para os eruditos. Talvez seja a universalidade das emoçòes humanas, e portanto, dos clichès, que constrange o letrado que de sopetào se vale do senso comum para se comunicar. A busca da originalidade e individualidade é que motiva o artista. Mas o fato é que fora da arte e da pesquisa de linguagem os clichés representam possìveis sìnteses e a imediatez necessàrias para a vida espontànea, de certo expressòes ingénuas e plenas de humanidade. E é quando os sentimos que entendemos o seu significado. Com tudo isso quis dizer que esta tarde passei pelo Coliseu - que estava com uma decoraçào diferenciada em razàao da època natalina - e entào me veio a sensaçào tìpica dos maus escritores quando estes dizem que tal situaçào lhes parece um sonho. Mas foi justamente isso que senti ao olhar pela primeira vez este monumento mìtico - gigante, imponente. Vivenciei tantos episòdios, rememorando pinturas, imagens, històrias dos antigos romanos, as lutas e espetàculos que aconteciam ali. Depois comi una vera pasta italiana: spaghetti all'arrabiata, ou seja, um macarrào com aquela velha e boa pimenta arretada! E neste instante ouço um cd que sequer sabia que existia: Vinìcius de Morais com Toquinho e Ornella Vanoni - uma legìtima bossa nova em italiano. Come mai è possibile? è bello da morrire! E o que fazer com esses tantos clichès que insistem em existir e constranger?
Io so che ti amerò
Per tutta la mia vita ti amerò
In ogni lontananzza ti amerò
E senza una speranza
Io so che ti amerò
Ed ogni mio pensiero
è per dire a te
Lo so che tI amerò
Per tutta la mia vita
Io so che piangerò
Ad ogni nuova assenza piangerò
Ma il tuo ritorno mi ripagherà
Nel male che l'assenza mi farà
Io so che soffrirò
La penna senza fine che mi dà
Il desiderio d'essere con te
Per tutta la mia vita
("Eu sei que vou te amar", S. Bardotti, V. de Moraes, A.C. Jobim, cantata da Ornella Vanoni e Vinìcius de Moraes)
Desculpas, sem desculpas
Bem, estou em falta com meu blog.
A correria e ansiedade às vésperas da minha viagem a Roma foram uma das causas.
Agora que jà estou na Itàlia encontro outras dificuldades, mas diretamente relacionadas ao formato dos arquivos salvos no meu computador e os disponiveis aqui no internet point (ainda nao tenho internet em casa). Ou seja, assim que resolver questo piccollo problema, postarei meus textos com mais frequencia! Sem desculpas.
E claro, nào reparem nos acentos improvisados do teclado italiano.
A correria e ansiedade às vésperas da minha viagem a Roma foram uma das causas.
Agora que jà estou na Itàlia encontro outras dificuldades, mas diretamente relacionadas ao formato dos arquivos salvos no meu computador e os disponiveis aqui no internet point (ainda nao tenho internet em casa). Ou seja, assim que resolver questo piccollo problema, postarei meus textos com mais frequencia! Sem desculpas.
E claro, nào reparem nos acentos improvisados do teclado italiano.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Tristeza
Não há dor maior do que receber em casa uma correspondência endereçada a quem conosco não mora mais: ou porque morreu ou porque o casamento acabou. E então percebemos que lá fora tudo continua igual - as promoções das lojas, as dívidas no banco e os cartões postais do dentista.
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
Vivo ou Morto?
E não é que a Vivo insiste em me roubar?
Dizem que de todas as operadoras de celular esta é a pior: a tarifa mais alta por minuto: R$1.60! E não adianta vir com promoções e descontos de “Vivo pra Vivo” porque poucos possuem linha desta empresa.
Vivo, Vivo. Pois este braço de telefonia móvel da famigerada TELEFÔNICA, a quem dediquei meu texto intitulado “Caros Espanhóis”, merecia mesmo é ser amputado em praça pública, pagando por todos os males já cometidos contra os brasileiros.
E não é que a Vivo me cobrou por chamadas não efetuadas?
Agora deu para duplicar os torpedos que envio, arrecadando assim, o dobro. Se no início eventuais problemas na Central convenciam, agora a exceção virou regra e 100% dos meus torpedos são bitorpedos, com bicobranças e incontáveis desgostos.
Irregularidades crônicas de um serviço público privatizado!
Sem contar as inconveniências do Departamento de Marketing metralhando ofertas e serviços. Os ataques chegam via texto, ligação e surpreendentemente a última bomba chegou via caixa postal. Imagina: paguei para ouvir uma mensagem de voz publicitária!
É o fim dos tempos mesmo!
E no identificador do meu protocolo de reclamação na empresa o número da besta outorga minha angústia: 666. E aguardo a resposta da Central de Relacionamentos.
É o fim dos tempos, só pode ser isso.
Dizem que de todas as operadoras de celular esta é a pior: a tarifa mais alta por minuto: R$1.60! E não adianta vir com promoções e descontos de “Vivo pra Vivo” porque poucos possuem linha desta empresa.
Vivo, Vivo. Pois este braço de telefonia móvel da famigerada TELEFÔNICA, a quem dediquei meu texto intitulado “Caros Espanhóis”, merecia mesmo é ser amputado em praça pública, pagando por todos os males já cometidos contra os brasileiros.
E não é que a Vivo me cobrou por chamadas não efetuadas?
Agora deu para duplicar os torpedos que envio, arrecadando assim, o dobro. Se no início eventuais problemas na Central convenciam, agora a exceção virou regra e 100% dos meus torpedos são bitorpedos, com bicobranças e incontáveis desgostos.
Irregularidades crônicas de um serviço público privatizado!
Sem contar as inconveniências do Departamento de Marketing metralhando ofertas e serviços. Os ataques chegam via texto, ligação e surpreendentemente a última bomba chegou via caixa postal. Imagina: paguei para ouvir uma mensagem de voz publicitária!
É o fim dos tempos mesmo!
E no identificador do meu protocolo de reclamação na empresa o número da besta outorga minha angústia: 666. E aguardo a resposta da Central de Relacionamentos.
É o fim dos tempos, só pode ser isso.
domingo, 9 de dezembro de 2007
Procura-se
Aparecido Augusto, mais conhecido como Cidinho, foragido da polícia desde quinta-feira passada.
Ex-enfermeiro-assistente-de-parto da Maternidade Santa Luzia, em Vila das Cruzes, no Estado da Hóstia Crocante, Cidinho havia auxiliado a vinda à luz de 300 crianças ao longo de alguns meses quando substituiu sorrateiramente tal ofício pela atividade ilegal do aborto, passando a atuar em clínicas clandestinas espalhadas pela cidade. Acredita-se que o criminoso tenha interrompido a trajetória de não menos do que 300 bebês.
JUSTIFICATIVA DO FUGITIVO
Antes de sua fuga Cidinho deixou um bilhete em cima da mesa da cozinha de sua casa, invadida na última sexta-feira por policiais altamente capacitados em defender os códigos sociais sagrados de Família, Monogamia e Heterossexualidade:
“Eis que consegui minha Redenção. Durante meses um mal-estar anônimo me perturbou ininterruptamente até que um dia consegui batizá-lo: hipocrisia. A folia feita diante do nascimento de uma criança é sempre histérica, egoísta, quando não narcísica. São flores, lembrancinhas, brindes, fotografias, uma parafernália completa instalada no quarto da recém-mãe, com parentes excitados buscando na criança os traços de semelhanças consigo próprios e com suas respectivas linhagens familiares. A celebração não é ao recém-nascido, mas às expectativas daquilo que ele proporcionará aos pais e à família: sentido ao casamento, sentimento de posse, orgulho pelas semelhanças fenotípicas da criança com os familiares, possibilidade de um herdeiro, a certeza da eterna ligação com o filho, ou seja, da não-solidão dos pais, quando não fruto da chantagem de uma mulher, ou de um homem, apaixonada (o). Esquecem-se das desgraças que se abaterão sobre essas crianças que diariamente chegam ao mundo, tais quais as que se abatem indistintamente sobre todos os seres humanos. Foi quando percebi essa hipocrisia que diariamente era chancelada por mim, e mais ainda, ao identificar que havia um aspecto criminoso em toda cirurgia de parto ao proporcionar que indivíduos venham ao mundo para satisfazer desejos individuais, desconsiderando a danação pela qual passarão, que decidi me redimir. Após ter cometido crime contra 300 almas inocentes, resolvi poupar do Espetáculo, em igual número, os indivíduos hospedados provisoriamente na barriga de 300 mulheres. Agora estou em paz, e posso mudar de profissão”.
A polícia informou que já acionou outras bases militares espalhadas pelo país para intensificar a busca ao criminoso. Aguardemos por mais notícias.
Jornal da Família Sagrada, domingo, 9 de dezembro de 2007.
Ex-enfermeiro-assistente-de-parto da Maternidade Santa Luzia, em Vila das Cruzes, no Estado da Hóstia Crocante, Cidinho havia auxiliado a vinda à luz de 300 crianças ao longo de alguns meses quando substituiu sorrateiramente tal ofício pela atividade ilegal do aborto, passando a atuar em clínicas clandestinas espalhadas pela cidade. Acredita-se que o criminoso tenha interrompido a trajetória de não menos do que 300 bebês.
JUSTIFICATIVA DO FUGITIVO
Antes de sua fuga Cidinho deixou um bilhete em cima da mesa da cozinha de sua casa, invadida na última sexta-feira por policiais altamente capacitados em defender os códigos sociais sagrados de Família, Monogamia e Heterossexualidade:
“Eis que consegui minha Redenção. Durante meses um mal-estar anônimo me perturbou ininterruptamente até que um dia consegui batizá-lo: hipocrisia. A folia feita diante do nascimento de uma criança é sempre histérica, egoísta, quando não narcísica. São flores, lembrancinhas, brindes, fotografias, uma parafernália completa instalada no quarto da recém-mãe, com parentes excitados buscando na criança os traços de semelhanças consigo próprios e com suas respectivas linhagens familiares. A celebração não é ao recém-nascido, mas às expectativas daquilo que ele proporcionará aos pais e à família: sentido ao casamento, sentimento de posse, orgulho pelas semelhanças fenotípicas da criança com os familiares, possibilidade de um herdeiro, a certeza da eterna ligação com o filho, ou seja, da não-solidão dos pais, quando não fruto da chantagem de uma mulher, ou de um homem, apaixonada (o). Esquecem-se das desgraças que se abaterão sobre essas crianças que diariamente chegam ao mundo, tais quais as que se abatem indistintamente sobre todos os seres humanos. Foi quando percebi essa hipocrisia que diariamente era chancelada por mim, e mais ainda, ao identificar que havia um aspecto criminoso em toda cirurgia de parto ao proporcionar que indivíduos venham ao mundo para satisfazer desejos individuais, desconsiderando a danação pela qual passarão, que decidi me redimir. Após ter cometido crime contra 300 almas inocentes, resolvi poupar do Espetáculo, em igual número, os indivíduos hospedados provisoriamente na barriga de 300 mulheres. Agora estou em paz, e posso mudar de profissão”.
A polícia informou que já acionou outras bases militares espalhadas pelo país para intensificar a busca ao criminoso. Aguardemos por mais notícias.
Jornal da Família Sagrada, domingo, 9 de dezembro de 2007.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Caros Espanhóis
Aos Mercantilistas Ibéricos,
Estão lembrados das atrocidades que vocês cometeram contra os povos indígenas assim que chegaram à nossa América Latina? Pois bem, os grandiosos impérios Incas e Astecas caíram por terra quando vocês lhes apontaram as espadas e armas, degolando-lhes as cabeças e explodindo seus templos à procura dos nossos metais preciosos. Lembram-se? Assim também foi com seus colegas portugueses quando chegaram ao Brasil. Vocês se enriqueceram destruindo nossa civilização e nossas propriedades naturais.
Estão lembrados que após esse inaugural massacre, vocês continuaram a dizimar os povos desse Novo Continente, deslegitimando sua cultura e aprisionando-os em regimes de trabalho autoritários e desumanos? Somando a isso o comércio de negros africanos - milhares trazidos por vocês para serem escravizados nas Ilhas das Antilhas. Lembram-se? No Brasil, os portugueses mantiveram a escravidão até fins do séc. XIX – foram mais de três milhões e meio de africanos escravizados no Brasil. Vocês se enriqueceram às custas de muita brutalidade e exploração da nossa mão-de-obra. Lucraram horrores por meio de horrores.
Pois bem. Em 1507 o nome AMÉRICA foi escrito pela primeira vez no planisfério desenhado por Martin Waldseemüller, cartógrafo alemão. Acredita-se que Waldseemüller tenha batizado o continente em razão das cartas escritas por Américo Vespúcio, mercador italiano presente na expedição de Colombo ao Novo Mundo. Neste mapa de Waldseemüller a região nordeste do Brasil é denominada “as terras de Américo ou América”, em latim Americi Terra vel America. O nome LATINA herdamos da etimologia do idioma colonizador: o português e o espanhol. AMÉRICA LATINA, um continente invadido, nomeado, dominado.
E cinco séculos se passaram até que vocês retornassem à nossa América com o claro intuito de nos explorar, nos desrespeitar, lucrar às custas de nossos patrimônios públicos e da nossa mão-de-obra terceiro mundista. BRASIL, um país de todos. SÉCULO XX, o neoliberalismo na pós-modernidade. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, o Boca de Pudim da intelectualidade e política nacionais. TELEFÔNICA, o mal de todos os males, a empresa que ocupa o ranking das companhias com maior número de reclamações no Procon, na Anatel e no Idec. Brasil + neoliberalismo + FHC (ou PSDB) + Telefônica = o coquetel molotov arremessado contra a dignidade do povo brasileiro.
Caros mercantilistas espanhóis que fizeram a festa no Governo FHC e compraram a Telesp a preço de banana, a edição de janeiro/2007 da revista “Caros Amigos” tem uma matéria exclusiva sobre os abusos e descasos da empresa de vocês a qual nem falarei o nome agora para não atacar a alergia. Aquela lá sabe, daquela figura ridícula do Super 15? Aquela que deixa dezenas de orelhões quebrados nas ruas, que cobra tarifas exorbitantes, que rouba descaradamente seus clientes adicionando às suas contas telefônicas ligações interurbanas e internacionais não realizadas, ou pior, que frequentemente cobra por serviços não contratados (como o “Kit To Aqui” – atendimento simultâneo e transferência de chamadas). A empresa de vocês treina os funcionários para embromar o cliente ao telefone com informações inverossímeis, além de deixá-lo esperando na linha, quando não desligam de propósito, fingindo que a ligação caiu. E quanto seus funcionários recebem de salário no final do mês? A informação divulgada pela “Caros Amigos” é de pouco mais de 1 salário mínimo. Ou seja, quem consegue alçar vôos na TELEFÔNICA – aaatchiiimmm!!! - só mesmo o Super 15 com aquela capa voadora. A arrecadação mensal da empresa em 2005, apenas com a taxa de assinatura (taxa esta considerada ilegal pelos órgãos de defesa do consumidor) foi de 450 milhões de reais.
Sabendo que a privatização da telefonia fixa no Brasil foi mais uma daquelas famigeradas obras de Fernando Henrique Boca de Pudim, Aloísio Biondi no livro “O Brasil Privatizado”, editado pela Editora Fundação Perseu Abramo, faz um severo raio-x desse cruel processo de desmantelamento do patrimônio público. Pois bem caros espanhóis, sabe-se que vocês pagaram pela Telesp 4,9 bilhões de dólares em 1998 e anualmente seus lucros ultrapassam, e muito, o investimento gasto: só em 2004 vocês lucraram no Brasil 10 bilhões de dólares. Além disso, às vésperas dessa famosa “venda”, pensando nos lucros de vocês, o Governo FHC reajustou em 500% as tarifas telefônicas, demitiu centenas de funcionários da empresa para diminuir os gastos da folha de pagamento assumindo o pagamento dos direitos trabalhistas dos demitidos, além dos aposentados, investiu 21 bilhões de reais em infra-estrutura no setor – ampliação de redes, cabos, etc - e, inacreditavelmente a Telesp tinha não menos do que 1 bilhão em caixa ao ser entregue a vocês, ou seja, sem realizar esforço algum, vocês já começaram o investimento com o pé direito. Poderia se dizer que o Boca de Pudim é antes de tudo um homem cordial?
Mas deixemos esse verdadeiro negócio da China de lado e o Pudim, no forno. Independentemente de todas estas desmoralizações pretéritas do ano de 1998, aliás, em breve a TELEFÔNICA BRASIL IL IL - aaatchiiimmm!!! – completa dez anos, gostaria de protestar contra as posturas atuais da empresa, os abusos e maus tratos contra os brasileiros, a incompetência dos serviços prestados e os estelionatos diariamente cometidos. Gostaria de saber se nos 37 países dos quatro continentes em que a TELEFÔNICA – aaaattch.... ufa, passou - possui filiais (Europa, Oceania, África e América) as suas políticas, ofertas e ações são iguais, padronizadas, ou se nós, latino-americanos por vocês colonizados, possibilitamos esse tratamento especial (Ainda mais com o apoio da TUCANALHA BRASILEIRA - expressão usada pelo meu pai - chancelando tais comportamentos, estabelecendo e assinando verdadeiros tratados de dominação).
Caros mercantilistas espanhóis, o fato é que cinco séculos se passaram e vocês continuam a nos sugar. A América Latina ainda agoniza e a empresa de vocês é o exemplo de que as suas riquezas permanecem sendo constituídas de nossas misérias. Acabo por aqui com os dedos formigando de vontade de citar o papel da revista VEJA, sua fiel comparsa e amiga íntima do Boca de Pudim, nessa história toda, mas isso fica pra próxima. Hasta, vou “passar um fax” pelo Super 15! (ou pela banda larga do Speed, já que é larga mesmo)!
Estão lembrados das atrocidades que vocês cometeram contra os povos indígenas assim que chegaram à nossa América Latina? Pois bem, os grandiosos impérios Incas e Astecas caíram por terra quando vocês lhes apontaram as espadas e armas, degolando-lhes as cabeças e explodindo seus templos à procura dos nossos metais preciosos. Lembram-se? Assim também foi com seus colegas portugueses quando chegaram ao Brasil. Vocês se enriqueceram destruindo nossa civilização e nossas propriedades naturais.
Estão lembrados que após esse inaugural massacre, vocês continuaram a dizimar os povos desse Novo Continente, deslegitimando sua cultura e aprisionando-os em regimes de trabalho autoritários e desumanos? Somando a isso o comércio de negros africanos - milhares trazidos por vocês para serem escravizados nas Ilhas das Antilhas. Lembram-se? No Brasil, os portugueses mantiveram a escravidão até fins do séc. XIX – foram mais de três milhões e meio de africanos escravizados no Brasil. Vocês se enriqueceram às custas de muita brutalidade e exploração da nossa mão-de-obra. Lucraram horrores por meio de horrores.
Pois bem. Em 1507 o nome AMÉRICA foi escrito pela primeira vez no planisfério desenhado por Martin Waldseemüller, cartógrafo alemão. Acredita-se que Waldseemüller tenha batizado o continente em razão das cartas escritas por Américo Vespúcio, mercador italiano presente na expedição de Colombo ao Novo Mundo. Neste mapa de Waldseemüller a região nordeste do Brasil é denominada “as terras de Américo ou América”, em latim Americi Terra vel America. O nome LATINA herdamos da etimologia do idioma colonizador: o português e o espanhol. AMÉRICA LATINA, um continente invadido, nomeado, dominado.
E cinco séculos se passaram até que vocês retornassem à nossa América com o claro intuito de nos explorar, nos desrespeitar, lucrar às custas de nossos patrimônios públicos e da nossa mão-de-obra terceiro mundista. BRASIL, um país de todos. SÉCULO XX, o neoliberalismo na pós-modernidade. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, o Boca de Pudim da intelectualidade e política nacionais. TELEFÔNICA, o mal de todos os males, a empresa que ocupa o ranking das companhias com maior número de reclamações no Procon, na Anatel e no Idec. Brasil + neoliberalismo + FHC (ou PSDB) + Telefônica = o coquetel molotov arremessado contra a dignidade do povo brasileiro.
Caros mercantilistas espanhóis que fizeram a festa no Governo FHC e compraram a Telesp a preço de banana, a edição de janeiro/2007 da revista “Caros Amigos” tem uma matéria exclusiva sobre os abusos e descasos da empresa de vocês a qual nem falarei o nome agora para não atacar a alergia. Aquela lá sabe, daquela figura ridícula do Super 15? Aquela que deixa dezenas de orelhões quebrados nas ruas, que cobra tarifas exorbitantes, que rouba descaradamente seus clientes adicionando às suas contas telefônicas ligações interurbanas e internacionais não realizadas, ou pior, que frequentemente cobra por serviços não contratados (como o “Kit To Aqui” – atendimento simultâneo e transferência de chamadas). A empresa de vocês treina os funcionários para embromar o cliente ao telefone com informações inverossímeis, além de deixá-lo esperando na linha, quando não desligam de propósito, fingindo que a ligação caiu. E quanto seus funcionários recebem de salário no final do mês? A informação divulgada pela “Caros Amigos” é de pouco mais de 1 salário mínimo. Ou seja, quem consegue alçar vôos na TELEFÔNICA – aaatchiiimmm!!! - só mesmo o Super 15 com aquela capa voadora. A arrecadação mensal da empresa em 2005, apenas com a taxa de assinatura (taxa esta considerada ilegal pelos órgãos de defesa do consumidor) foi de 450 milhões de reais.
Sabendo que a privatização da telefonia fixa no Brasil foi mais uma daquelas famigeradas obras de Fernando Henrique Boca de Pudim, Aloísio Biondi no livro “O Brasil Privatizado”, editado pela Editora Fundação Perseu Abramo, faz um severo raio-x desse cruel processo de desmantelamento do patrimônio público. Pois bem caros espanhóis, sabe-se que vocês pagaram pela Telesp 4,9 bilhões de dólares em 1998 e anualmente seus lucros ultrapassam, e muito, o investimento gasto: só em 2004 vocês lucraram no Brasil 10 bilhões de dólares. Além disso, às vésperas dessa famosa “venda”, pensando nos lucros de vocês, o Governo FHC reajustou em 500% as tarifas telefônicas, demitiu centenas de funcionários da empresa para diminuir os gastos da folha de pagamento assumindo o pagamento dos direitos trabalhistas dos demitidos, além dos aposentados, investiu 21 bilhões de reais em infra-estrutura no setor – ampliação de redes, cabos, etc - e, inacreditavelmente a Telesp tinha não menos do que 1 bilhão em caixa ao ser entregue a vocês, ou seja, sem realizar esforço algum, vocês já começaram o investimento com o pé direito. Poderia se dizer que o Boca de Pudim é antes de tudo um homem cordial?
Mas deixemos esse verdadeiro negócio da China de lado e o Pudim, no forno. Independentemente de todas estas desmoralizações pretéritas do ano de 1998, aliás, em breve a TELEFÔNICA BRASIL IL IL - aaatchiiimmm!!! – completa dez anos, gostaria de protestar contra as posturas atuais da empresa, os abusos e maus tratos contra os brasileiros, a incompetência dos serviços prestados e os estelionatos diariamente cometidos. Gostaria de saber se nos 37 países dos quatro continentes em que a TELEFÔNICA – aaaattch.... ufa, passou - possui filiais (Europa, Oceania, África e América) as suas políticas, ofertas e ações são iguais, padronizadas, ou se nós, latino-americanos por vocês colonizados, possibilitamos esse tratamento especial (Ainda mais com o apoio da TUCANALHA BRASILEIRA - expressão usada pelo meu pai - chancelando tais comportamentos, estabelecendo e assinando verdadeiros tratados de dominação).
Caros mercantilistas espanhóis, o fato é que cinco séculos se passaram e vocês continuam a nos sugar. A América Latina ainda agoniza e a empresa de vocês é o exemplo de que as suas riquezas permanecem sendo constituídas de nossas misérias. Acabo por aqui com os dedos formigando de vontade de citar o papel da revista VEJA, sua fiel comparsa e amiga íntima do Boca de Pudim, nessa história toda, mas isso fica pra próxima. Hasta, vou “passar um fax” pelo Super 15! (ou pela banda larga do Speed, já que é larga mesmo)!
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